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Naturalismo: um tipo de Realismo



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Naturalismo: um tipo de Realismo

Até quase o último quarto do século XIX, o nome que se dava à literatura produzida na Europa era Realismo. Em 1867, com a publicação de Thérèse Raquin, de Émile Zola, surgiu a denominação Naturalismo, relacionada a um tipo de obra específico.

Influenciado pela obra Introdução ao estudo da medicina experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878), o francês Zola defendeu um tratamento científico para a narrativa de ficção. Ele pretendia que a literatura naturalista comprovasse, por meio de uma narrativa verossímil, determinados pressupostos científicos de sua época.
Página 69

Você lerá, a seguir, um fragmento da novela A morte de Olivier Bécaille, que esse autor publicou na segunda metade do século XIX, no contexto do movimento realista-naturalista.

Na história, o frágil narrador-personagem, Olivier Bécaille, conta que morreu “num sábado, às seis horas da manhã”, em Paris, num hotel barato onde vivia pobremente com a mulher, Marguerite. Estranhamente, ele consegue ouvir tudo o que se passa próximo a seu corpo. Ouve sua amada esposa chorando inconsolável; ouve a vizinha de quarto, senhora Gabin, e sua filha Dédé tentando ajudar Marguerite.

Aos poucos, Olivier vai percebendo que, na verdade, não havia morrido, mas entrado em estado de catalepsia — um distúrbio que impede os movimentos, tornando a pessoa rígida e com aparência de morta. No capítulo 4 dessa novela, o personagem narra sua aflição ao descobrir-se enterrado vivo.



BAPTISTÃO

O francês Émile Zola (1840-1902) é considerado o fundador do Naturalismo. A partir de 1871, dedicou-se a produzir uma série de romances, Os Rougon-Macquart, buscando fazer um extenso e crítico painel social.

Leitura

[...] Aos poucos, confusamente, voltou-me a consciência de ser. Continuava dormindo, mas comecei a sonhar. Um pesadelo destacou-se do fundo negro que barrava meu horizonte. E esse meu sonho era uma imaginação estranha que em outros tempos muitas vezes me atormentara de olhos abertos quando, com minha predisposição natural para invenções terríveis, saboreava o prazer atroz de criar catástrofes para mim.

Imaginei portanto que minha mulher estava me esperando em algum lugar em Guérande, acho, e que eu tomara o trem para ir juntar-me a ela. Quando o trem passou sob um túnel, de repente, um barulho pavoroso ribombou como um estrondo de trovão. Um desabamento duplo acabara de acontecer. Nosso trem não recebera uma única pedra, os vagões permaneciam intactos; só que nas duas extremidades do túnel, à nossa frente e atrás de nós, a abóboda desabara e encontrávamo-nos desse modo no centro de uma montanha, murados por blocos de rocha. Iniciava-se então uma agonia longa e pavorosa. Nenhuma esperança de socorro; seria preciso um mês para desobstruir o túnel; e ainda esse trabalho exigia infinitas precauções, máquinas poderosas. Éramos prisioneiros em uma espécie de adega sem saída. A morte de todos nós era apenas uma questão de horas.

Muitas vezes, repito, minha imaginação trabalhara com esse dado terrível. Eu variava o drama até o infinito. Meus atores eram homens, mulheres, crianças, mais de cem pessoas, toda uma multidão que me fornecia novos episódios incessantemente. Bem que havia algumas provisões no trem; mas logo a comida vinha a faltar e, sem chegar a se comer uns aos outros, os miseráveis famintos lutavam, ferozes, pelo último pedaço de pão. Empurravam um velho a socos, e ele agonizava; uma mãe combatia como uma loba para defender os três ou quatro bocados reservados a seu filho. Em meu vagão, dois recém-casados grunhiam nos braços um de outro, sem esperança, deixavam de se mexer. A via estava desobstruída, as pessoas desciam, rondavam em torno do trem como feras soltas em busca de uma presa. Todas as classes misturavam-se, um homem muito rico, um alto funcionário, diziam, chorava no ombro de um operário, tratando-o com familiaridade. Desde as primeiras horas, o combustível das lâmpadas esgotara-se, as luzes da locomotiva acabaram por se apagar. Quando se passava de um vagão para outro, tateava-se as rodas com a mão para não haver trombadas e assim chegava-se à locomotiva que se reconhecia pela sua biela fria, pelos seus enormes flancos adormecidos, força inútil, muda e imóvel na sombra. Nada era mais assustador do que esse trem, murado daquela forma por inteiro sob a terra, como um enterrado vivo, com seus viajantes que morriam um a um.

[...]

[...] Onde estava? Decerto ainda no túnel. Eu estava completamente deitado e sentia à direita e à esquerda as paredes duras que me apertavam os flancos.




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