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O romance indianista: José de Alencar



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O romance indianista: José de Alencar

A existência do que José de Alencar chamou de “consórcio” benéfico entre o povo indígena (fornecedor de um solo bom e de uma natureza intocada) e o invasor (colonizador europeu, fornecedor da “civilidade”, da “cultura” e da religião) foi defendida pelo autor em sua trilogia indianista, composta pelos romances O Guarani, Iracema e Ubirajara. Em O Guarani (1857), Ceci, filha de um fidalgo português, envolve-se amorosamente com Peri, da tribo Goitacá, protagonista da história, cujo pano de fundo é a colonização do Vale do Paraíba, no século XVI. Já na narrativa poética Iracema (1865), Alencar criou uma lenda — em que a jovem indígena Iracema se une ao colonizador europeu Martim — para narrar as origens da América. Por fim, no romance Ubirajara(1874), enfocam-se a cultura e os hábitos indígenas anteriores à chegada dos colonizadores ao Brasil.

Estudaremos, a seguir, um fragmento daquela que Alencar chamou de lenda cearence. Iracema narra o início da civilização brasileira (segundo o ponto de vista romântico do autor), resultado do encontro da raça branca com a indígena. Na história, o guerreiro português Martim perde-se na mata e é acolhido pelo pajé da tribo Tabajara. A filha deste, a bela Iracema, apaixona-se pelo europeu e foge com ele, mas, segundo a tradição de seu povo, precisa manter-se virgem porque guarda o segredo da jurema (é de sua mão que se fabrica a bebida mágica do deus Tupã). Entre fugas e conflitos tribais, Iracema dá à luz Moacir e morre em seguida. A criança, cujo nome significa “filho do sofrimento”, simboliza o nascimento de um povo mestiço, o brasileiro.

BAPTISTÃO

O cearense José de Alencar (1829-1877) adveio de uma família influente na política. Formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Elegeu-se deputado e foi ministro da Justiça. Em vinte anos de trajetória literária, mapeou o Brasil em seus folhetins, devorados principalmente por mulheres e grupos de estudantes, que, muitas vezes, os liam coletivamente. Além de escrever romances, aventurou-se também pelo teatro.
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Leia a seguir o capítulo 2 do romance, que narra o primeiro contato de Martim com Iracema.



Leitura

Leia o ensaio “O mito alencariano”, escrito pelo professor Eduardo Vieira Martins (Universidade Estadual de Londrina): .

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

- Quebras comigo a flecha da paz?

- Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

- Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

- Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.

ALENCAR, José de. Iracema. 20. ed. São Paulo: Ática, 1991. p. 14-16. (Bom Livro). (Fragmento).




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