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II. Metalinguagem – Literatura e Produção de texto



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II. Metalinguagem – Literatura e Produção de texto

A escolha do texto de “Como fazer um filme de amor” como uma das leituras do capítulo 11, que trata do gênero “roteiro de cinema”, põe em evidência o uso da metalinguagem na arte. A metalinguagem também é marcante nos romances do escritor realista Machado de Assis, figurando como um dos principais recursos para a construção de sua famosa ironia. Sugerimos que você ajude os alunos a perceberem a semelhança entre o roteiro do filme e o romance Memórias póstumas de Brás Cubas, o que contribuirá para a sedimentação do conceito. Em ambos, um narrador se dirige ao público para comentar o processo de elaboração da obra, evidenciando escolhas, expectativas de resultados, preocupações, etc. Se for possível, mostre-lhes também um trecho do filme Memórias póstumas (2001), dirigido por André Klotzel, em que a figura do narrador apareça em cena.

O ideal – como propomos na página especial “Leitura puxa leitura” – seria que os alunos lessem na íntegra o romance inaugural do Realismo brasileiro, escrito por Machado de Assis, observando os vários mecanismos metalinguísticos que atravessam a obra e seus objetivos (empatia, sedução, desprezo ao leitor, identificação, discussão sobre o fazer literário, etc.). Outra opção, caso não haja tempo, é a leitura em classe da dedicatória que abre o romance Memórias póstumas de Brás Cubas. Sugira uma discussão sobre a metalinguagem presente no fragmento. Peça à turma que investigue a visão de Brás Cubas sobre sua narrativa, sobre seu leitor e sobre a repercussão de suas memórias:

“AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Ao leitor

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.


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Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas”

Disponível em: . Acesso em: 7 maio 2016.



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