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O fato de o narrador ter alforriado seu escravo Pancrácio “antes mesmo dos debates” relacionados à Lei Áurea. 2



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1. O fato de o narrador ter alforriado seu escravo Pancrácio “antes mesmo dos debates” relacionados à Lei Áurea.

2. Podemos inferir que, além do pequeno ordenado de seis mil-réis (e a promessa de que ele poderia crescer futuramente), nada mudou na situação de Pancrácio antes e depois de sua libertação. Ele continuaria a ter onde morar e, eventualmente, a levar “petelecos”, “pontapés”, “um ou outro puxão de orelhas” e ser chamado de “filho do diabo” e de “besta” pelo narrador.

3. Não sendo mais Pancrácio um escravo, o narrador viu-se na obrigação de justificar um ato de violência praticado contra ele. Na condição de escravo, Pancrácio poderia apanhar de seu proprietário sem que tivesse qualquer direito.

4. O narrador informa que havia dado um simples jantar para cinco pessoas (fato real), mas que fora descrito pelos amigos como um “banquete” (visão das pessoas sobre o fato). Além disso, em seu brinde, o narrador fez alusão às ideias de liberdade pregadas por Cristo havia dezoito séculos (fato real), o que, mais tarde, transformou-se, de acordo com a opinião pública, em outro fato: ao banquete do narrador, teriam comparecido trinta e três convidados, como uma espécie de analogia à idade de Cristo, citado no discurso do anfitrião (visão das pessoas sobre o fato). Esse engrandecimento do ato do narrador o teria levado a merecer a pintura de um retrato a óleo.

5. Espera-se que os alunos concluam que a crônica de Machado é extremamente irônica. Retome com eles cada um dos aspectos citados no dicionário de Massaud Moisés, relacionando-os ao texto.

• “A ironia consiste em dizer o contrário do que se pensa, mas dando-o a entender”: embora Machado cite a alforria de Pancrácio como exemplo de uma atitude nobre, de antecipação da Lei Áurea, em sua crônica ele descreve o “antes” e o “depois” da alforria do jovem escravo de modo que o leitor perceba que nada mudou na vida dele após “o direito civil adquirido por um título”.

• “A ironia resulta do inteligente emprego do contraste, com vistas a perturbar o interlocutor”: há na crônica um contraste entre a leitura que as pessoas fazem do ato do narrador (opinião pública) ao alforriar Pancrácio e sua real situação como homem livre. Machado parece querer provocar seu leitor a refletir sobre a validade efetiva do ato “político” do narrador.

• “A ironia é uma forma de humor, ou desencadeia-o, acompanhado de um sorriso”: ao reconhecer-se como um “profeta”, falar sobre o prejuízo financeiro ocasionado pelo jantar (e pela alforria), relatar a opinião das pessoas sobre um simples jantar para cinco pessoas transformado em banquete para trinta e três convidados, citar Jesus e reproduzir as falas irônicas proferidas por ele, o narrador cria um texto humorístico.

• “A ironia depende do contexto; fora dele, o seu efeito desaparece”: sem saber das consequências reais da Lei Áurea para os escravos, fica impossível entender a ironia realizada por Machado de Assis.



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