Se liga na língua: literatura, produção de texto, linguagem


Gonçalves Dias: a poesia épica



Baixar 11.7 Mb.
Página50/665
Encontro29.07.2021
Tamanho11.7 Mb.
1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   ...   665
Gonçalves Dias: a poesia épica

Para abordar o indianismo, baseamo-nos nos estudos feitos por Antonio Candido em Formação da literatura brasileira, p. 336-340.

Se levarmos em conta as acaloradas discussões oitocentistas sobre o que era ser brasileiro, o maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) chamaria a atenção, dada sua origem multiétnica. Filho de um português com uma cafuza, dizia-se descendente das três raças que formaram a etnia brasileira: a branca, a negra e a indígena. Estudou Direito em Coimbra, onde conheceu a poesia de autores importantes para o Romantismo português, como Garrett e Herculano, e, de volta ao Brasil, em 1845, entrou em contato com o grupo de Gonçalves de Magalhães, alcançando prestígio rapidamente.

Em 1846, estreou com Primeiros cantos, apresentando ao leitor, entre outros temas, poemas indianistas de reconhecido valor estético. Nessa verdadeira “poesia americana” (nome dado por Gonçalves Dias a seu núcleo poético indianista), a paisagem, as lendas e os indígenas fundem-se, criando imagens de singular beleza.

Gonçalves Dias abordou o indígena sob uma perspectiva inovadora, partindo da premissa de que, como esse povo não havia sido contaminado pela civilização, estaria mais autorizado a julgar o branco, e não o contrário. Em poemas como “Canto do Piaga” (do qual estudaremos um trecho na seção “Atividade”) ou “I-Juca Pirama”, que analisaremos a seguir, o poeta assume a perspectiva do nativo.



Antonio Candido e Alfredo Bosi defendem que Gonçalves Dias é uma espécie de criador da literatura nacional.

FABIO MESSIAS

Cena do espetáculo A lenda da Água Grande, apresentado pelo Balé Nacional de Cuba (São Paulo, 2011), tendo como base uma lenda guarani que explica o surgimento das cataratas do Iguaçu (i = água; guaçu = grande). A valorização da “cor local” é uma das características do Romantismo brasileiro.
Página 41

• “I-Juca Pirama”: pequeno épico de grandes proporções

O indianismo constitui o ponto alto da produção de Gonçalves Dias, escritor que elevou à categoria de arte o mito do bom selvagem, presente desde o Arcadismo.

O poema épico “I-Juca Pirama” (que significa “aquele que há de ser morto e que é digno de ser morto”) é composto de dez cantos. Nele, um ancião da tribo Timbira narra a história de um guerreiro Tupi, que, juntamente com o pai, já idoso e cego, é o último remanescente de sua tribo. Capturado pelos Timbira, guerreiros canibais, o jovem indígena está na iminência da morte. Antes, contudo, como parte do ritual antropofágico, o chefe Timbira ordena ao prisioneiro que narre seus feitos. Assim ele o faz diante da tribo inimiga. Mas, no final, chora e pede ao chefe que o deixe viver para cuidar do pai, prometendo voltar após a morte deste, para que se completasse o ritual. Diante do lamento do herói, o chefe Timbira o liberta, e explica sua atitude surpreendente: “tu choraste! Não queremos com carne vil enfraquecer os fortes”. Em liberdade após ser humilhado, o herói reencontra o pai, mas este descobre que o filho chorara diante do inimigo e o renega por julgá-lo covarde. O guerreiro, não suportando o desprezo paterno, decide atacar a tribo Timbira a fim de resgatar sua dignidade e a de seu povo.

Além da qualidade da narrativa, o que torna esse poema singular é a adoção de ritmos variados (que mudam de acordo com o conteúdo dos cantos), garantidos pela metrificação.

No canto IV, do qual extraímos o trecho a seguir, o guerreiro está preso ao ritual antropofágico, quando o chefe Timbira lhe ordena: “Dize-me quem és, teus feitos canta”. O jovem Tupi profere, então, seu “canto de morte”. Observe como os versos curtos, de cinco sílabas, imprimem um ritmo acelerado à sua fala, sugerindo a tensão daquele momento.



Leitura

Meu canto de morte,


Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante,


Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

[...]


Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes - escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

[...]




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   ...   665


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal