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Como não perder os Guimarães Rosa da infância



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Como não perder os Guimarães Rosa da infância

Um dia, o neto do educador Severino Antônio o puxou para fora de casa. Queria se deitar no chão de braços abertos para ver o céu estrelado. Intrigado com o que via, virou-se para o avô e perguntou: “Quem é a peixa mãe de todas as estrelas?”. Se o céu é um mar, o menino estava mais do que certo de ter essa dúvida. “Isso é Guimarães Rosa puro”, emociona-se o avô. “Nas minhas aulas, pego frases ditas por crianças e atribuo a um grande autor. Ninguém duvida que eu esteja falando a verdade”, diz ele, que é professor de redação e leitura, literatura, poesia [...].

“Todas as crianças são questionadoras, filosóficas e poéticas. Elas não são folhas em branco, são seres em formação”, diz Antônio. Mas os sistemas escolares e até mesmo os professores acabam inundando alunos muito novos com modelos pré-moldados que os desestimulam a agir conforme sua natureza, acredita. “É comum crianças perguntarem coisas como: ‘quem é o Deus de Deus?’ ou ‘quando nasceu o mundo?’. São questionamentos levados pela mais alta filosofia. Não podemos deixar que isso se perca.”

[...]


GOMES, Patrícia. Publicada em: 7 maio 2013. Disponível em: . Acesso em: 5 nov. 2015. (Fragmento).

a) Com base no texto, caracterize a produção literária do escritor modernista mineiro Guimarães Rosa (1908-1967).

Segundo o texto, Guimarães Rosa é um autor “questionador”, “filosófico” e “poético”, qualidades atribuídas às crianças, com as quais foi comparado.

b) Que função tem o artigo os no título do texto?

Com o artigo, o substantivo próprio torna-se comum e passa a designar não uma pessoa específica, mas sim um tipo de pessoa: aquela que é criativa e poética.

c) Explique a analogia (comparação) feita pelo neto do educador.

A criança comparou o céu a um mar e imaginou que as estrelas surgissem a partir de um ser, “a peixa mãe”.

d) Por que essa analogia autoriza uma relação entre a criança e Guimarães Rosa?

Essa analogia mostraria uma visão inusitada e poética do mundo, semelhante às que aparecem nas obras do autor mineiro.

e) Peixe é um substantivo epiceno. Que recursos linguísticos o garoto empregou para indicar um peixe do sexo feminino?

A indicação do sexo feminino deu-se com o uso do artigo feminino a, do emprego de uma desinência nominal de feminino acrescentada ao radical da palavra peixe e do acompanhamento desta pelo termo mãe, de gênero feminino, usado como determinante.

f) Identifique no caderno a função do artigo indefinido em um dia e relacione-a ao uso comum dessa expressão.

O artigo indefinido um é usado para indicar indeterminação, sugerindo que um dia é “qualquer dia”.

g) Existe diferença de sentido entre as expressões nas minhas aulas, usada pelo educador, e em minhas aulas? Justifique.

Não; trata-se de uma simples questão estilística, uma vez que o pronome possessivo já determina o substantivo, e o uso do artigo antes dele é opcional.

h) Releia a frase que inicia o segundo parágrafo: “Todas as crianças são questionadoras, filosóficas e poéticas”. No português contemporâneo brasileiro, qual das formulações a seguir é mais adequada como equivalente da expressão destacada: toda a criança, toda criança ou ambas? Justifique sua resposta.

No português contemporâneo do Brasil, a equivalência mais adequada com a expressão todas as crianças se dá com a formulação toda criança, uma vez que esta também contém a ideia de generalização. Já toda a criança equivale mais usualmente a “a criança inteira”.

No plural, a palavra todo vem sempre acompanhada de artigo (todos os países) ou de outro determinante (todos estes países). No singular, a presença do artigo indicará a noção de totalidade (todo o país = o país inteiro), enquanto sua ausência servirá para generalizações (todo país = qualquer país). *



*Tal distinção ocorre sobretudo no português contemporâneo do Brasil. Em Portugal, por exemplo (e mesmo em alguns textos brasileiros mais antigos), ambas as formas (todo e todo o) são usadas indistintamente, podendo significar “cada”, “qualquer” ou “inteiro”, cabendo ao contexto determinar seu sentido. Conforme BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. p. 196-197.
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