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Quimera: sonho, fantasia. Ornamentado



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Quimera: sonho, fantasia.
Ornamentado: enfeitado.

MAURICIO VAL

Imagem de divulgação da peça A paixão do jovem Werther, baseada no romance de Goethe, com direção de Cassiano Carneiro (2013).
Página 29

A intensidade do amor de Werther deixou herdeiros — diretos e indiretos — na literatura, no cinema, no teatro, na ópera, na pintura de todos os tempos. Em 2006, com mais de oitenta anos, o filósofo e jornalista austro-francês André Gorz (1923-2007), um dos mais relevantes intelectuais do século XX, escreveu, em forma de carta à esposa Dorine, sobre os quase sessenta anos de casamento deles. Surpreendido pela notícia de que a mulher estava condenada a uma doença degenerativa, ele abandona a carreira para se dedicar a ela.

Você lerá trechos da obra Carta a D.: história de um amor. Observe como Gorz descreve seu amor à primeira vista por Dorine e como conclui que não suportará a ausência da amada.

BAPTISTÃO

André Gorz foi teórico dos movimentos de esquerda na década de 1960.

Texto 2

[...]


Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas. Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: “Não tenho chance nenhuma com ela”. E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: “He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest”.

“Ele é um judeu austríaco. Inteiramente desprovido de interesse.”

Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.

[...]


Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier cantando: “Die Welt ist leer, Ich will nichtlebenmehr”, e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.

[...]


Do alemão, “O mundo está vazio. Não quero mais viver”.

GORZ, André. Carta a D.: história de um amor. Trad. Celso Azzan Jr. São Paulo: Annablume/Cosac Naify, 2008. p. 6-7; 71. (Fragmentos).





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