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O valor expressivo do adjetivo



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O valor expressivo do adjetivo

Os adjetivos podem caracterizar um substantivo de maneira bastante precisa, nomeando objetivamente suas particularidades. Eles serão, nesse caso, descritivos, responsáveis por informações relativas a tamanho, cor, forma e condição física ou social. Mas podem também revelar a maneira como dado substantivo se apresenta à sensibilidade do produtor do texto, evidenciando atitudes emocionais ou juízos de valor. A seleção dos adjetivos que vão compor um texto resulta de um cruzamento dos planos estilístico e ideológico.

Veja como os adjetivos foram empregados pelo escritor e navegador paulista Amyr Klink no relato de uma viagem feita entre um porto no sul da África e o litoral da Bahia a bordo de um barco a remo.

[...]


O tempo bom e o mar tranquilo eram uma oportuna ocasião para se fazer uma inspeção no fundo [do barco]. Com certeza o limo deveria estar atraindo os dourados e, após um mês, já era tempo de uma limpeza geral. Não me agradava a ideia de entrar na água, não só pela lembrança de tantas barbatanas suspeitas, mas também porque fazia frio. Aproveitando o intervalo do almoço, vesti pela primeira vez a roupa de borracha. Deliciosa sensação. O calor da roupa me trouxe coragem e, munido de máscara, pés de pato e escova, pulei na água amarrado a um cabo.

Por baixo da água, um impressionante cenário: cinco ou seis dourados, sempre a uma pequena mas prudente distância, e, junto do leme, um bando de minúsculos pilotos, fielmente acompanhando o barco. Senti-me tão importante quanto um velho tubarão, sempre cercado por seu séquito desses pequenos e listrados peixinhos. Que lindo e diferente universo isolado por uma superfície que eu só conhecia de um lado! Um outro mundo que coexistia com o meu, lá em cima. Um eterno e transparente silêncio onde as tempestades só se manifestavam decorando a superfície de um rendilhado branco de espuma. E nada além disso. Que impressionante visibilidade! Os raios solares penetrando até o infinito no mar e novos dourados que podia ver a grande distância!

[...]

KLINK, Amyr. Cem dias entre céu e mar. 32. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.p. 92-93. (Fragmento).



ARTE: MARCEL LISBOA/FOTOS: UNSPLASH – CREATIVE COMMONS LICENSE – CC BY 4.0


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