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Camilo Castelo Branco: o novelista ultrarromântico



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Camilo Castelo Branco: o novelista ultrarromântico

A vida de Camilo Castelo Branco (1825-1890) assemelha-se à ficção que ele escreveu. Com apenas 10 anos, já era órfão de pai e mãe. Sob os cuidados de parentes, recebeu uma educação irregular. Envolveu-se com várias mulheres, casou-se mais de uma vez. Em 1858, já escritor, escandalizou a conservadora sociedade portuguesa quando sua amante deixou o marido para viver com ele. Em 1862, publicou Amor de perdição, um de seus maiores sucessos. Debilitado em consequência da sífilis, foi perdendo a visão progressivamente. Estafado e em crise, suicidou-se em São Miguel de Seide, onde vivia com a mulher.

Além da vida conturbada, o que mais chama atenção em Camilo Castelo Branco é sua impressionante capacidade de produção. O autor escreveu inúmeros romances, poemas, cartas, peças de teatro, crítica literária, textos jornalísticos, folhetins, historiografia e contos, destacando-se especialmente nas novelas, gênero bastante prestigiado durante o Romantismo.

Uma das obras de Camilo Castelo Branco mais respeitadas pela crítica e admiradas pelo público é a novela Amor de perdição (1862). A história se passa em Portugal, no século XIX, época em que Albuquerques e Botelhos, duas famílias importantes da cidade de Viseu, mantêm ódio mútuo. De temperamento agressivo e intempestivo, Simão, um dos cinco filhos do corregedor Domingos Botelho, é o protagonista da novela. Em razão das inúmeras confusões que causa na cidade de Coimbra, onde é estudante, o rapaz é obrigado a voltar para Viseu e permanecer lá algum tempo, o suficiente para apaixonar-se por Teresa, filha de Tadeu Albuquerque, inimigo de seu pai.

Regenerado, o jovem de 17 anos deseja se casar com a amada, de 15, mas os pais de ambos proíbem o relacionamento. Simão é enviado para Coimbra, e a Teresa só restam duas alternativas: casar-se contra a vontade com um primo ou ingressar em um convento. Separados, os jovens se correspondem clandestinamente, auxiliados por uma mendiga e pela jovem Mariana, filha de um modesto ferreiro e também apaixonada por Simão.

Assassinato, suicídio, fidelidade e honra extremas, doenças de amor, degredo são os ingredientes que popularizaram Amor de perdição, novela que levou ao auge a ideia de um sentimento amoroso que a todos destrói.

O trecho que você vai ler narra a surpreendente mudança por que passou Simão Botelho depois de apaixonar-se por Teresa de Albuquerque. Atente para a linguagem simples, para a posição que assume o narrador e para a descrição do amor de Simão por Teresa.

JOSE PEDRO FERNANDES/ALAMY/GLOW IMAGES

Casa da Rua da Rosa, em Lisboa, Portugal, onde nasceu Camilo Castelo Branco.

BAPTISTÃO

Camilo Castelo Branco foi mestre no gênero novela.

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O que caracteriza uma novela?



Explique aos alunos que o gênero literário novela não deve ser confundido com telenovela, gênero televisivo que, apesar do nome, se aproxima mais do romance.

Biblioteca cultural

O espaço cultural Casa de Camilo, situado em Portugal, mantém um blog com informações sobre o autor e os eventos que o local abriga. Confira em: .
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Biblioteca cultural

Acesse a obra na íntegra e comova-se com o livro que é considerado uma espécie de Romeu e Julieta português: .

Leitura

[...]


No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predileta. O campo, as árvores e os sítios mais sombrios e ermos eram o seu recreio. Nas doces noites de estio demorava-se por fora até ao repontar da alva. Aqueles que assim o viam admiravam-lhe o ar cismador e o recolhimento que o sequestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e saía quando o chamavam para a mesa.

D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses, consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.

Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezessete anos.

Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos.

O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que a está de fronte próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.

Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exceção no seu amor.

O magistrado e sua família eram odiosos ao pai de Teresa, por motivo de litígios, em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afora isso, ainda no ano anterior dois criados de Tadeu de Albuquerque tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. É, pois, evidente que o amor de Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo azedume de seu pai, era verdadeiro e forte.

E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivessem outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande patrimônio.

Espanta discrição tamanha na índole de Simão Botelho, e na presumível ignorância de Teresa em coisas materiais da vida, como são um patrimônio!

Na véspera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado moço ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, soluçava comovida por lágrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabeça; contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexíveis da jaula. Teve tentações de se matar, na impotência de socorrê-la. As restantes horas daquela noite passou-as em raivas e projetos de vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança com os cálculos.

Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal modo transfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado dele, foi ao quarto interrogá-lo e despersuadi-lo de ir enquanto assim estivesse febril. Simão, porém, entre mil projetos, achara melhor o de ir para Coimbra, esperar lá notícias de Teresa, e vir a ocultar a Viseu falar com ela. Ajuizadamente discorrera ele; que a sua demora agravaria a situação de Teresa.





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