Se liga na língua: literatura, produção de texto, linguagem


Em que outro trecho do parágrafo se faz o mesmo tipo de referência?



Baixar 11.7 Mb.
Página262/665
Encontro29.07.2021
Tamanho11.7 Mb.
1   ...   258   259   260   261   262   263   264   265   ...   665
3 Em que outro trecho do parágrafo se faz o mesmo tipo de referência?

Outra referência é feita no trecho em que o falante comenta sua leitura de uma tese universitária.
Página 174

Todos esses equívocos e mais um sexto equívoco ainda, eles estão presentes nesse curto discurso aqui, nesse trecho curto do discurso do Paulo de Frontin.

Ele... primeiro... primeiro grande equívoco: eliminar os índios como matriz formadora da nacionalidade brasileira. Quer dizer, a presença indígena é muito forte na cultura brasileira, embora nós não tenhamos um conhecimento, porque não foi feito um inventário dessa contribuição, não é? Teve uma tese de doutorado defendida na Unicamp alguns anos atrás que mostra que aquele “r” caipira do interior de São Paulo, de “morte”, “porta”, “Dirceu”, que esse “r” retroflexo, ele é um som da língua ofaié xavante, que era falada no interior de São Paulo, em Bauru. Quando eu li isso, quer dizer, eu me dei conta de como essa enorme variedade dialetal existente no Brasil, ela poderia ser explicada se nós fizéssemos um inventário da contribuição que os índios deram na formação do Brasil moderno, contemporâneo. Então, é um erro, um equívoco muito grande, um preconceito excluir os índios da matriz formadora de nossa nacionalidade, mas é o que acontece com muita frequência. [...]

O produtor do texto procura usar palavras e expressões que organizem o discurso, favorecendo sua compreensão pelo ouvinte.

No discurso do Paulo de Frontin tem também um outro equívoco, que é de situar os índios apenas no passado, é considerar como é... é... integrantes de um passado que não existe mais e o que passou passou. Num texto escrito em 1997 sobre a biodiversidade vista do ponto de vista de um índio, o Jorge Terena, que é um índio que morreu há alguns atrás, grande sociólogo indígena, índio Terena, ele escreveu que uma das consequências mais graves do colonialismo foi justamente tachar de primitivas as culturas indígenas, considerá-las como obstáculos à modernidade e ao progresso. Eu quero compartilhar uma pequena citação do que ele disse, do que ele escreveu. Ele disse: “Eles veem a tradição viva como primitiva, porque não segue o paradigma ocidental. Assim, os costumes e as tradições, mesmo sendo adequados para a sobrevivência, deixam de ser considerados como estratégia de futuro, porque são ou estão localizadas no passado. Tudo aquilo que não é do âmbito do Ocidente é considerado do passado, desenvolvendo uma noção equivocada em relação aos povos tradicionais, sobre o seu espaço na história”. Então, os índios efetivamente fazem parte do nosso passado, mas eles estão encravados aqui no nosso presente e, queira Deus, que no futuro desse país, porque, se não, nós estaríamos muito mais empobrecidos seguramente, não é?

Os expositores empregam estratégias para convencer o público da validade de sua abordagem. Observe, nesse trecho, um argumento de autoridade: o falante recorre à citação do discurso de um sociólogo, que comprova sua opinião. No parágrafo seguinte, com a mesma finalidade, usará um argumento de comprovação: dados de uma pesquisa.



ARTE: MARCEL LISBOA/FOTOS: PIXABAY – CREATIVE COMMONS LICENSE – CC BY 4.0


Página 175

É... os dados revelados pelo IBGE na semana passada, o Censo de 2010, mostra a existência de mais de 830 mil índios. A população indígena está crescendo no Brasil. Tem um fenômeno novo que é o fato de que mais de 350 mil índios estão vivendo hoje nas cidades, né? E aí isso gera um outro equívoco, que é aquele equívoco de considerar como índio autêntico, né?, só aquele índio que foi descrito pelo Pero Vaz de Caminha, né?, e tal como ele descreveu. Aquele que tá lá no mato, na floresta, né? É... o José Saramago ou o Alçada Batista, aqui citado, nenhum dos dois escrevia como o Pero Vaz de Caminha, mas ninguém diz que eles não eram portugueses autênticos. Também não se vestiam como Pedro Álvares Cabral, os portugueses de hoje... ninguém diz que não são autênticos. Então, a gente aceita, quer dizer, que, como qualquer cultura, todas as culturas são vivas e mudam, mas, quando se trata da questão indígena, está tão internalizada aquela imagem do índio nu, na floresta, etc., etc., que a gente não percebe que pas... que quinhentos anos, cinco séculos passaram e que os índios, no contato com a sociedade colonial, depois com a sociedade imperial, com a sociedade nacional brasileira, eles, como todas as outras culturas, também foram se modificando. No discurso do Paulo de Frontin citado aqui no início, ele também congela essas culturas e ele considera essas culturas como culturas atrasadas. Ele faz isso por pura ignorância, ele desconhece, na época também não existia uma... Hoje já existe, quer dizer, hoje nós temos uma quantidade expressiva de trabalhos na área de Antropologia, Etnologia, que nos dão conta dos conhecimentos que os índios trouxeram para a... a... a sociedade nacional. Portanto, considerar essas culturas como culturas atrasadas é desconhecer que esses povos produziram saberes, ciência, arte refinada, literatura, poesia, música, religião, não é?

No início da comunicação, o falante alertou para sua intenção de usar uma linguagem em “tom de conversa”. Note que ele emprega algumas expressões menos formais, como “a gente”, mas mantém o respeito às formas típicas das variedades urbanas de prestígio. Essa decisão está relacionada à seriedade do assunto e à circunstância de produção da fala: um seminário dirigido a um público culto.

O falante deseja que sua opinião seja validada pelo ouvinte e, para isso, considera possíveis objeções à sua fala.





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   258   259   260   261   262   263   264   265   ...   665


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal