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Camilo Pessanha: poeta-símbolo



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Camilo Pessanha: poeta-símbolo

Pode um poeta, apenas com uma publicação póstuma, representar o que de melhor se produziu em um movimento literário em seu país?

Esse é o caso de Camilo Pessanha. Após sua morte, parte significativa de sua produção, publicada na coletânea Clepsidra (1920), revelou ao público um artista cuja intensidade poética destoa em muito da vida particular, isenta de grandes acontecimentos.

Diferentemente dos parnasianos, que, segundo o poeta simbolista Mallarmé, restringiam seus poemas à descrição de objetos, Camilo buscava a sugestão, a evocação, a alusão, elementos caros aos simbolistas. Além desses, o autor reuniu em sua poesia o hermetismo e o sentido abstrato, em contraposição ao didatismo.

Observe como, na parte I da série composta por três sonetos e intitulada “Caminho”, o tema da dor existencial é apresentado.

BAPTISTÃO



Camilo Pessanha (1867-1926) estudou Direito na Universidade de Coimbra e chegou a trabalhar como professor em Macau, na China. Como tinha o hábito de memorizar seus poemas, fez vir a público somente alguns deles, que causaram estranhamento aos leitores de seu tempo.
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Leitura

Para um estudo mais interessante dos textos simbolistas, sugerimos organizar leituras em pares com a turma. Outra possibilidade é selecionar alguns “alunos-declamadores”, que deverão se preparar previamente, em casa, para a leitura. Caberá a eles ler os poemas em voz alta para os colegas. Se a turma gostar da ideia, você pode também organizar leituras com trios, quartetos, quintetos, etc., ao mesmo tempo ou variando as vozes. Dessa forma, os alunos poderão perceber melhor as aliterações, as assonâncias, as rimas, o ritmo, etc. presentes nos poemas simbolistas.

Caminho

Tenho sonhos cruéis; n’alma doente


Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro


Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,


Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,

Sem ela o coração é quase nada:


Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

PESSANHA, Camilo. Caminho. Clepsidra. 2. ed. Coimbra: Alma Azul, 2002. p. 11.



Desgrenhada: desordenada.

A palavra clepsidra, que dá nome ao livro de Camilo Pessanha, significa “relógio de água”, como o da foto, tirada em um shopping de Porto Alegre (RS), em 2015.

CARLOS QUADROS/FOTOARENA

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