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Leitura

A um poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,


Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego


Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício


Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,


Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Disponível em: . Acesso em: 17 dez. 2015.



Estéril: que não dá frutos.
Turbilhão: agitação intensa.
Claustro: convento.
Lima: aprimora.

ARTE: MARCEL LISBOA/FOTOS: PIXABAY – CREATIVE COMMONS LICENSE – CC BY 4.0

Pensando sobre o texto

1 O título do poema nos informa que o interlocutor do eu lírico é um poeta, chamado, no segundo verso, de “beneditino”. Sabendo que beneditino é o religioso pertencente à Ordem de São Bento, cujas prioridades são a oração, o trabalho, o silêncio e a disciplina, responda:

a) Que figura de linguagem foi construída, no poema, a partir do termo beneditino? Explique.

b) Qual é a função expressiva dessa figura de linguagem para a construção do sentido do poema?

2 Que justificativa o eu lírico apresenta no último terceto para a posição defendida por ele ao longo do poema? Atente para o fato de as palavras “Beleza” e “Verdade” estarem com inicial maiúscula.

No soneto “A um poeta”, o eu lírico utiliza verbos no imperativo (“escreve”, “trabalha”) para fornecer uma verdadeira receita sobre a prática poética — que ele denomina “arte pura”. Um poeta, segundo essa visão, deveria enclausurar-se e, pacientemente, “limar” seus versos, construindo-os à custa de muito trabalho e sofrimento.


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Entretanto, todo esse esforço, esse “suplício do mestre”, deveria ser “disfarçado” para que os apreciadores do poema não o percebessem. Engenhosamente, para ilustrar esse ponto de vista, o poeta apresenta sua própria produção. Utilizando-se do recurso da metalinguagem, Bilac expõe, ao mesmo tempo, uma ideia sobre o fazer poético e um exemplo do que seria essa “arte pura”: seus próprios versos, marcados por uma métrica rígida, por rimas bem construídas e por um vocabulário sofisticado e difícil.

Olavo Bilac não foi voz isolada. Esse tipo de concepção sobre a poesia, em que o culto à forma é colocado em primeiro plano, predominou no Brasil durante um período denominado Parnasianismo. Neste capítulo, estudaremos, além de Bilac, a poesia de Alberto de Oliveira e de Raimundo Correia, autores que compõem a chamada tríade parnasiana.

Além da tríade parnasiana, destacaram-se no Parnasianismo brasileiro Vicente de Carvalho e Francisca Júlia, entre outros.

ACERVO ICONOGRAPHIA

A “tríade parnasiana”. Da esquerda para a direita: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.



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