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O Realismo particular de Machado



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O Realismo particular de Machado

Em relação à proposta realista-naturalista de fazer da literatura quase um documentário científico — frio e objetivo — da sociedade oitocentista, Machado de Assis foi além, buscando escrever romances baseados no “estudo das paixões humanas”, expressão cunhada por ele próprio. Dessa forma, inovou (em relação aos românticos e até mesmo aos realistas) ao focalizar profunda e criticamente a realidade interior do ser humano. Seus romances estão centrados não em um conjunto de ações, mas nos próprios personagens, característica que explica por que Machado de Assis é chamado de escritor-filósofo ou escritor-psicólogo. Nesse tipo de literatura, a sociedade é vista através do homem — e não o contrário, como era comum nos romances do século XIX.

Esse homem presente nos romances de Machado é um espelho da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX, estruturada basicamente em três classes sociais: o latifundiário, o escravo e o homem “livre”. O latifundiário detinha o poder financeiro; o escravo era propriedade do latifundiário, que podia dispor dele como bem quisesse; e o homem livre, por sua vez, estava submetido ao poder dos mais ricos e, portanto, era dependente. Dessa forma, havia no país uma grande massa populacional, formada por todo tipo de profissionais (médicos, operários, trabalhadores da terra, tipógrafos, gente do comércio, indústria, etc.), cuja sobrevivência material dependia — em maior ou menor grau — dos “favores” (diretos ou indiretos) das classes mais abastadas. Na literatura machadiana, é comum a presença de uma espécie de caricatura desse homem livre, o agregado, figura dependente da política do favor.

Além do caráter mais “local”, preocupado com a investigação do “homem brasileiro”, a literatura machadiana pode ser considerada universal porque constitui um mergulho na alma humana, desvendando seus segredos ligados a egoísmo, mesquinhez, desonestidade, infidelidade, amor e glória.

Tradicionalmente, a crítica tem apontado a existência de duas fases distintas na obra de Machado de Assis — antes e depois da publicação do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881.

O capítulo 5 de Dom Casmurro trata de uma figura comum no Brasil do século XIX, o agregado. O vaidoso José Dias vivia de favor em um quarto nos fundos da chácara da viúva de Pedro de Albuquerque Santiago, D. Glória, e tinha na família, segundo a irônica visão do narrador, “certa autoridade”, “certa audiência” e “sabia opinar obedecendo”.

Para aprofundar-se no estudo do favor “como mediação quase universal” no Brasil do Segundo Reinado, recomendamos a leitura do ensaio “As ideias fora do lugar”, de Roberto Schwarz (Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000. p. 11-31).
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Na primeira fase, os romances publicados na década de 1870 — Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) — apresentam, em geral, uma preocupação com a preservação da integridade moral e dos ideais amorosos, atendendo ao gosto do público leitor romântico.

Com Memórias póstumas de Brás Cubas, o autor carioca inaugura seu segundo momento como escritor. Nessa fase, predomina o tema da sedução que a glória (o poder) exerce sobre o homem, e o amor é deslocado para um segundo plano nas relações entre as pessoas. Machado investiga de que forma as máscaras (aparências) são construídas em nome da riqueza, do poder, da ascensão social, dos prazeres e dos luxos e mostra a prevalência dos interesses pessoais sobre os coletivos.

Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) são os outros romances que compõem o segundo momento machadiano.

• Em Prosa de ficção: 1870-1920 (Rio de Janeiro: José Olympio, 1957), Lúcia Miguel Pereira defende que, nos romances dos anos 1870, Machado já apresentava ruptura em relação ao padrão romântico.

• Alfredo Bosi faz uma interessante análise do que ele mesmo chama de “romances juvenis” de Machado de Assis em História concisa da literatura brasileira (46. ed. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 177-178).

• José Aderaldo Castello, em A literatura brasileira: origens e unidade (São Paulo: Edusp, 2004. v. I, p. 381), prefere chamar os romances da primeira fase de Machado de Assis de “romances de formação”.



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