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O primo Basílio: romance de combate

No contexto do lançamento de O primo Basílio, em 28 de fevereiro de 1878, Eça de Queirós escreveu uma carta para Teófilo Braga a fim de explicar que seu novo romance tinha como dever atacar a burguesia lisboeta, uma sociedade estruturada em “falsas bases”, segundo ele. Com essa obra, o autor português deu continuidade a seu projeto iniciado com O crime do padre Amaro, segundo o qual o romance deveria constituir uma “arma de combate”.

Baseando-se no princípio naturalista da defesa de uma tese social — no caso, de que a traição é inevitável quando motivada pela falta de ocupação de uma mulher “arrasada de romance”, “lírica” e “nervosa pela falta de exercício e disciplina moral” —, Eça criou um romance que não trata de uma mulher específica, mas de qualquer mulher que vivesse nos moldes da protagonista do romance, Luísa.

O primo Basílio desenrola-se em um lar burguês de Lisboa, aparentemente feliz e estável. No romance, Luísa é uma moça superficial, que vive rodeada de ilusões românticas, reforçadas pelos livros açucarados que lê, distantes de sua vida monótona.

Quando o marido, Jorge, com quem está casada há três anos, precisa afastar-se de casa para uma viagem de negócios ao Alentejo, Luísa encanta-se com o sedutor Basílio, seu primo, que chegara de uma longa viagem pela Europa buscando apenas “amor grátis”. A futilidade de Luísa, a ausência do marido e a chegada de Basílio são os ingredientes que praticamente determinam o adultério.

A amarga e sofrida criada Juliana verá na situação da traição uma oportunidade para vingar-se de sua patroa, chantageando-a depois de roubar algumas cartas de amor comprometedoras, trocadas entre Luísa e Basílio. Para completar o quadro social burguês lisboeta, gravitam em torno do lar hipócrita de Luísa e Jorge figuras que beiram o grotesco.

Na seção “Atividade”, a seguir, você poderá ler um fragmento do romance.

Biblioteca cultural

Leia mais sobre Eça de Queirós em: .


Página 74

Atividade - Leitura de texto

O texto a seguir foi retirado de uma das partes que compõem o capítulo 3 do romance O primo Basílio. Essa passagem sucede o momento do reencontro entre Basílio e sua prima Luísa, que se encanta com a presença do antigo namorado de infância.

Cartaz do filme Primo Basílio, baseado no romance de Eça de Queirós, com direção de Daniel Filho (2007).

REPRODUÇÃO

Luísa, quando o sentiu embaixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéu para a causeuse, e foi-se logo ver ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se ele a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pó de arroz. Foi à janela, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cansada. Àquelas horas Leopoldina estava a jantar já, decerto... Pensou em escrever a Jorge “para matar o tempo”, mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se ver branca, acariciando a finura da pele, com bocejos lânguidos de um cansaço feliz. - Havia sete anos que não via o primo Basílio! Estava mais trigueiro, mais queimado; mas ia-lhe bem!

E depois de jantar ficou junto à janela, estendida na voltaire, com um livro esquecido no regaço. [...]

- Que vida interessante a do primo Basílio! - pensava. - O que ele tinha visto! Se ela pudesse também fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os países que conhecia dos romances - a Escócia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palácios trágicos; aportar às baías, onde um mar luminoso e faiscante morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores de teto chato, onde vivem as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria decerto; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!

Como seria o patriarca de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado de ouro, entre instrumentações solenes e rolos de incenso! E a Princesa de La Tour d’Auvergne? Devia ser bela, de uma estatura real, vivia cercada de pajens, namorara-se de Basílio. - A noite escurecia, outras estrelas luziam. - Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos vagões, e, numa diligência muito sacudida, cabecear de sono pela serra nas madrugadas frias? Não era melhor viver num bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colchões macios, uma noite de teatro às vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canários chalram? Era o que ela tinha. Era bem feliz. Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abraçá-lo, tê-lo ali, ou quando descesse ir encontrá-lo fumando o seu cachimbo no escritório, com o seu jaquetão de veludo. Tinha tudo, ele, para fazer uma mulher feliz



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