Scielo books / Scielo livros / Scielo libros



Baixar 323.21 Kb.
Pdf preview
Página9/10
Encontro03.08.2022
Tamanho323.21 Kb.
#24458
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10
História do contato entre línguas no Brasil - lucchesi
realista que o rei, diz “dá-me um cigarro”.
50
Portanto, a miscigenação impediu que, no Brasil, a segregação racial
confinasse a população de africanos e seus descendentes em guetos sociais de um
mundo cultural à parte, do qual a formação de uma língua crioula e claramente
diferenciada (resultante da reestruturação independente da língua do superstrato,
com forte influência do substrato) seria a consequência natural. O que ocorreu, e
ainda ocorre, no Brasil é um violento processo de segregação social, com evidentes
reflexos linguísticos, destacando-se aí as características estigmatizadas das falas
populares da população pobre (na sua maioria composta por negros e mestiços),
em cuja origem certamente se encontram as mudanças operadas no bojo do processo
de transmissão linguística irregular que se inicia com a aquisição defectiva do
português por parte de africanos e índios. Entretanto, não ocorreu no Brasil um
processo de segregação racial, de que poderia resultar uma variedade linguística
autônoma de um segmento afro-brasileiro apartado; nem mesmo se pode falar
49
Cf. Silva Neto (1951 [1963, p.114]): “Ao tempo em que Saint-Hilaire visitou o Brasil, aí por
1820, eram mulatos, na maior parte, os atores de teatro. Cerca de vinte anos depois, informam
Kidder e Fletcher, meticulosos observadores da vida brasileira: ‘Alguns dos homens mais inteligentes
que encontrei no Brasil — homens educados em Paris e Coimbra — eram descendentes de
africanos cujos antepassados foram escravos [...] Alguns dos mais assíduos estudantes que aí [na
Biblioteca Nacional] se encontram são mulatos’”.
50
Ainda Risério (2004, p.356) afirma: “É mais do que célebre, entre nós, a figura do preto ou do
mulato pernóstico. Freyre cita anúncios de escravos fugidos, publicados em nossos jornais
oitocentistas, que se referem a casos de escravos mulatos ‘muito poetas no falar’. Antes que mero
estereótipo racista, o ‘mulato pernóstico’ é uma entidade que, sobrevivendo ainda hoje, deve ser
examinada em pauta sociológica. A empáfia linguística nasce no terreno movediço da busca
mulata de símbolos-de-status. ‘Se falasse com demasiada simplicidade, talvez as más línguas
denunciassem traços da herança materna [negra] em seus versos’, disse Roger Bastide, a propósito
de Silva Alvarenga. O mulato sempre quis ‘falar difícil’, porque via a classificação social de quem
sabia ‘falar difícil’”.
Português Afro-Brasileiro.pmd
24/8/2009, 15:36
69


70
hoje de uma variedade do português brasileiro característica de um segmento étnico,
um português negro, por exemplo (GUY, 1981a, p.324);
51
o que há é um português
dito culto, bastante diferenciado do português popular, tanto na frequência de
uso de certas variantes linguísticas (nomeadamente as regras de concordância
nominal e verbal), quanto no julgamento social do uso de tais variantes, configu-
rando o que se tem denominado a polarização sociolinguística do Brasil.
Portanto, os fatores que impediram a ocorrência, na história linguística do
Brasil, de um processo de crioulização do português, em níveis socialmente
representativos e com uma duração significativa, podem ser sumarizados da seguinte
maneira:
52
(i)
a proporção entre a população de origem africana e branca, que proporcionou
um maior acesso à língua-alvo do que o observado nas situações típicas de
crioulização;
(ii)
a ausência de vida social e familiar entre as populações de escravos, provocada
pelas condições sub-humanas de sua exploração, pela alta taxa de mortalidade
e pelos sucessivos deslocamentos;
(iii) o uso de línguas francas africanas como instrumento de interação dos
escravos segregados e foragidos;
(iv)
o incentivo à proficiência em português;
(v)
a maior integração social dos escravos urbanos, domésticos e das zonas
mineradoras;
(vi)
a miscigenação racial.
Esses fatores podem explicar por que não se constituiu de forma estável e
representativa uma língua crioula no Brasil, apesar da forte presença africana em
sua história, mas deve ficar claro que tal afirmação se aplica às situações mais
representativas da história sociolinguística do país. Não se pode descartar certas
situações laterais específicas, nas quais a forte presença afro-brasileira numa
comunidade formada em torno de uma fazenda numa região afastada do interior
51
Cabe aqui um paralelo com os EUA, onde, por causa da segregação racial, desenvolveram-se
variedades reconhecidamente crioulizadas do inglês (como o gullah, falado nos Estados da Geórgia
e da Carolina do Sul), assim como a variedade popular do inglês falada pelos afro-americanos
apresenta marcas sensíveis de um processo anterior de transmissão linguística irregular, apesar
da proporção de africanos introduzidos na sociedade americana ter sido bem menor do que a
trazida para o Brasil.
52
Deve-se ter em mente que esses fatores, arrolados aqui em seu conjunto, podem guardar uma
relação paradoxal entre si. De um lado, estão os fatores que estão ligados à desagregação das
formas de socialização do escravo africano, como é o caso dos fatores (ii) e (iii). De outro lado,
estão os fatores decorrentes da socialização dos escravos, sobretudo os crioulos e mulatos, os
fatores (iv), (v) e (vi). Portanto, apesar de possuírem efeitos sociais contrários, tais fatores
concorrem para um mesmo fim sociolinguístico: inibir processos de crioulização do português.
Português Afro-Brasileiro.pmd
24/8/2009, 15:36
70


71
do país, ou de uma comunidade oriunda de um quilombo, possa ter produzido um
intenso processo de transmissão linguística irregular em níveis muito próximos
ao da crioulização.
1.3 A transmissão linguística irregular
na formação do português brasileiro
Se, nas situações mais representativas da história sociolinguística do Brasil,
não ocorreram processos típicos de crioulização, é exatamente aí que se localiza a
origem das mais importantes consequências do extenso e maciço contato entre
línguas que marca essa história. A aquisição precária do português pelos escravos
trazidos da África e pelos índios integrados na sociedade brasileira e a nativização
desse modelo defectivo de português como língua segunda nas gerações seguintes
de seus descendentes endógamos e mestiços desencadearam um processo de
transmissão linguística irregular que teve importantes consequências para a
formação da atual realidade linguística brasileira, nomeadamente para as suas
variedades populares. Os fatores que inibiram a crioulização passam, assim, a
atuar como poderosos fatores de difusão das mudanças induzidas pelo contato
entre línguas nas mais diversas comunidades de fala do Brasil. A integração social
dos escravos ou dos ex-escravos e, sobretudo, a miscigenação são fatores que
atuam em dois sentidos: favorecem a assimilação dos padrões linguísticos
dominantes por parte dos dominados, ao tempo em que abrem vias de introdução
na fala das camadas médias e altas de estruturas criadas por mudanças ocorridas
nos extratos mais baixos.
Portanto, em termos gerais, o processo histórico de constituição da realidade
linguística brasileira aponta para a ocorrência de significativas mudanças nas
variedades populares do português, em função do contato entre línguas. Contudo,
por diversos fatores, relacionados, sobretudo, à maior complexidade da sociedade
brasileira vis-à-vis às sociedades agroexportadoras do Caribe, por exemplo, essas
mudanças não foram de monta a dar ensejo à formação e estabilização de uma
língua crioula de base portuguesa, o que pressupõe uma reestruturação original
da gramática e/ou a transferência de estruturas das línguas de substrato. Tais
processos, se ocorreram, ocuparam uma posição lateral, e suas marcas mais evidentes
provavelmente desapareceram no bojo das enormes alterações que se processaram
no cenário socioeconômico do país ao longo do século XX.
Desse modo, num nível sociolinguístico mais representativo, deve-se pensar,
não em termos de crioulização estrita, mas num processo mais amplo de transmissão
linguística irregular, que se caracteriza fundamentalmente pela simplificação e/ou
Português Afro-Brasileiro.pmd
24/8/2009, 15:36
71


72
eliminação de certas estruturas gramaticais; ou ainda, em outras palavras, pelo
aumento na frequência de uso das formas não marcadas, bem como a sua
generalização paradigmática. Seria esse processo de transmissão linguística irregular
de tipo leve que estaria na base da formação das atuais variedades populares do
português do Brasil,
53
e a sua marca mais evidente seria a ampla e massiva variação
no emprego das regras de concordância nominal e verbal. Porém essa simplificação
morfológica, característica das situações de contato entre línguas, não se restringe,
no português do Brasil, à eliminação das regras de concordância. Em vários planos
da estrutura linguística, observa-se um quadro matizado e complexo, no qual os
processos de variação e mudança induzidos pelo contato entre línguas apresentam
resultados quantitativos diferenciados nas distintas normas linguísticas que
constituem a realidade da língua no Brasil atualmente. Em um inextricável mosaico
sociolinguístico, fatores estruturais combinam-se de formas distintas com
processos históricos igualmente diferenciados, conforme a variedade linguística
do português brasileiro que se focalize.
54
A pesquisa historiográfica, cujo maior objetivo é deslindar informações
seguras que permitam determinar que fatores sociais atuaram na formação de cada
variedade linguística brasileira, em meio a um cipoal de lacunas documentais e
dados contraditórios entre si, constitui a primeira grande tarefa para aqueles que
desejam compreender a realidade linguística brasileira e seus fundamentos
históricos. Os determinantes históricos relacionam-se dialeticamente com os
achados empíricos das análises variacionistas de aspectos da estrutura linguística
das diversas variedades atuais do português brasileiro. Nesse sentido, os resultados
da análise histórica constituem importantes balizas para os recortes que se devem
proceder sobre a realidade linguística contemporânea, bem como para a interpretação
dos dados depreendidos na investigação linguística. A compreensão da polarização
da realidade linguística brasileira, bem como de sua formação histórica, desempenha,
desse modo, um papel central, pois uma devida compreensão da história
sociolinguística do Brasil é fundamental, desde o recorte do objeto de observação
empírica até a construção final da análise qualitativa dos processos atualmente em
curso na realidade linguística brasileira. Por outro lado, os resultados de análises de
53
Na literatura sobre o tema, também se encontra o termo semicrioulo para designar as variedades
formadas pelo processo de transmissão linguística irregular de tipo leve (SILVA NETO, 1951
[1963, p.107]). Mais recentemente, Holm (2004) desenvolveu o conceito de reestruturação
parcial, que é análogo ao de transmissão linguística irregular de tipo leve. Holm reúne como
variedades linguísticas que se formaram nesse tipo de contexto: o inglês afro-americano dos
Estados Unidos, o espanhol caribenho, o português popular do Brasil, o Afrikaans (que se
desenvolveu a partir do holandês na África do Sul) e o francês da Ilha de Reunião.
54
O capítulo 3 deste livro apresenta uma análise detalhada do processo de transmissão linguística
irregular, em geral, e da sua ocorrência especificamente no Brasil.
Português Afro-Brasileiro.pmd
24/8/2009, 15:36
72


73
aspectos estruturais de variedades contemporâneas do português brasileiro,
devidamente focalizadas, podem fornecer evidências empíricas decisivas para a
comprovação de hipóteses históricas. Tal assunção está na base da pesquisa sobre o
português afro-brasileiro, cujos resultados estão reunidos neste livro.
Pode-se pensar, com base na reflexão de natureza historiográfica desenvolvida
neste capítulo, que os reflexos do contato entre línguas se diluíram pelas diversas
variedades do caleidoscópio sociolinguístico brasileiro, nas mais diversas
configurações estruturais, em que os chamados fatores internos e externos se
entrecruzam, por vezes de maneira inextricável. Em tal cenário, pode ser de grande
significância isolar uma variedade linguística em que os reflexos de pretéritas
situações de contato sejam mais visíveis. Originárias, em muitos casos, de antigos
quilombos e mantidas em grande isolamento até meados do século XX, comunidades
formadas em sua grande maioria por descendentes diretos de escravos africanos,
como a comunidade de Helvécia no Extremo Sul do Estado da Bahia, podem se
tornar verdadeiros sítios arqueológicos da história sociolinguística do Brasil.
Formadas em situações de grande concentração de africanos com pouco acesso
aos modelos da língua portuguesa no interior do país, essas variedades linguísticas
podem ter sofrido uma erosão gramatical e passado por processos de reestruturação,
em níveis superiores aos que afetaram outras variedades do português brasileiro.
Por outro lado, o seu isolamento pode ter permitido que os reflexos desses processos
de variação e mudança induzidos pelo contato entre línguas possam ter subsistido,
não obstante a ação niveladora dos grandes centros urbanos, até as últimas décadas
do século XX e princípios do século XXI, quando as amostras de fala do Projeto

Baixar 323.21 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal