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História do contato entre línguas no Brasil - lucchesi
Portugá em vez de Portugal” (apud SILVA NETO, 1951 [1963, p.72]).
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através das variedades defectivas de português adquiridas pelos escravos africanos
e transmitidas para os seus descendentes crioulos.
No decorrer do século XVIII, o avanço da língua portuguesa no território
brasileiro será ainda mais acentuado, com a descoberta das jazidas de ouro e pedras
preciosas nas Minas Gerais, no final do século XVII.
16
A riqueza do solo mineiro
era de tal monta que desencadeou uma verdadeira corrida do ouro, provocando
uma febre de riqueza que se espalhou como uma epidemia pelo reino, ao ponto de,
“em 1732, uma consulta do Conselho Ultramarino registrava a inquietação do
Governo nos seguintes termos: ‘Por este modo se despovoará o Reino e, em poucos
anos, virá ter o Brasil tantos vassalos brancos como tem o mesmo Reino’” (ELIA,
1979, p.99-100). Estima-se que, no decorrer do século XVIII, pelo menos trezentos
mil portugueses tenham vindo para o Brasil em busca do enriquecimento rápido.
17
O tráfico negreiro também se orientou para as demandas cada vez maiores de mão
de obra para a mineração. Além disso, os senhores de engenho, já decadentes,
vendiam os seus escravos para a região das minas, ou para lá se dirigiam com os
seus escravos, pois de todo o país afluíam aventureiros em busca da fortuna fácil.
Desloca-se também para essa região um grande contingente de pequenos artesãos,
pequenos agricultores, profissionais das diversas áreas e principalmente pecuaristas
que vão garantir a infraestrutura básica ao empreendimento minerador. Esse
constante e massivo deslocamento de populações pobres, que já havia se verificado
com o fenômeno das bandeiras, pode explicar em boa medida a homogeneidade
diatópica das variedades populares do português do Brasil.
A grande onda migratória vinda de Portugal com o ciclo do ouro certamente
favoreceu a difusão da língua portuguesa no Brasil, aumentando o acesso dos
escravos aos modelos da língua-alvo do segmento dominante e penetrando nas
regiões do interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, onde antes predominava a
língua geral. Portanto, esses processos sociodemográficos podem explicar bem
mais o retrocesso da língua geral no século XVIII, do que a tão propalada reforma
pombalina e a expulsão dos jesuítas do Brasil, na década de 1750.
18
O avanço da
língua portuguesa no território brasileiro — seja em sua variedade nativa, veiculada
pelos colonos brasileiros, seja na variedade defectiva, falada pelos escravos africanos
e seus descendentes crioulos — dá-se primacialmente sobre uma base socioeco-
nômica, com a expansão das lavouras de açúcar no século XVII e, sobretudo no
16
Cf. Elia (1979, p.99): “o ouro foi encontrado quase simultaneamente em regiões diversas da zona
que é hoje Minas Gerais, entre os anos 1693 e 1695”.
17
Os números neste caso também não são precisos, mas Celso Furtado estima em trezentos mil os
portugueses que teriam vindo para o Brasil entre 1700 e 1800 (apud HASENBALG, 1979).
18
Para uma visão diferente acerca da importância dos atos institucionais do período pombalino para
o desenvolvimento da língua no Brasil, veja-se J. H. Rodrigues (1983).
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século XVIII, com o grande ciclo das minas, cujo manancial extraordinário de
riqueza teve um impacto sobre toda a economia mundial.
Reflexo direto dessa produção de riqueza é o surgimento de centros urbanos
importantes, como Vila Rica e São João Del Rey, na região de Minas Gerais. Mas o
centro urbano mais beneficiado com a atividade mineira foi o Rio de Janeiro, que
passa a ser o maior porto importador de escravos do país
19
e, a partir de 1763, se
torna a capital da Colônia e sua cidade mais importante.
20
Obviamente, esse
crescimento da vida urbana na Colônia também favorecerá a preponderância do
português em suas variedades mais normatizadas, criando-se as condições para
uma produção literária mais consistente e uma maior difusão de padrões
institucionalizados da cultura e da língua. Porém, esse desenvolvimento urbano
(muito aquém do volume de riqueza gerado com a mineração — em função do
apetite voraz da Metrópole, que dará azo às primeiras insurreições da elite colonial,
como a Inconfidência Mineira, de 1789) — pouco afetará a situação da agora mais
numerosa população de africanos e descendentes que se esfalfavam na busca do
ouro e dos preciosos diamantes. Esses continuavam a assimilar precariamente o
português nas mais aviltantes situações de incivilidade e, em muitos casos,
conservaram as suas línguas nativas para a comunicação entre si.
O início do século XIX é marcado pela fuga da Corte Portuguesa para o Brasil,
em 1808, no rastro das Campanhas Napoleônicas na Europa. De imediato, deve-se
destacar o impacto demográfico da fixação da Corte no Rio de Janeiro. E esse impacto
deve ser amplificado por se tratar, não de um contingente de colonos dispersos, mas
de um grupo orgânico e que constituía a elite política e cultural da época. Além
disso, a vinda da Corte desencadeia todo um processo de mudanças políticas,
econômicas e sociais que desembocará na independência política do Brasil, em 1822,
e a sua constituição enquanto um estado autônomo. Certamente, todo esse processo
teve uma série de reflexos de incremento da urbanização e fortalecimento da cultura
institucional, como bem descrito por Serafim da Silva Neto (1951 [1963, p.68-69]):
Quinze mil pessoas, o séquito da família real, trouxeram para o Rio de
Janeiro os hábitos e os esplendores da vida lisboeta. Tudo se foi re-
europeizando: a construção das casas, o modo de vestir e, até, de encarar
a vida. Melhora-se a topografia, a higiene, o policiamento e a iluminação
das cidades.
19
Cf. Mendonça (1933, p.33): "No século XVIII, o Rio semelha um porto africano. O Valongo,
mercado de escravos, tem um jeito de Luanda. É a maior feira de escravos de todo o Brasil, que
exporta para São Paulo, Minas, Estado do Rio e Goiás".
20
Para Serrano (1968, p.267): "O movimento do porto acentua-se e, em breve, torna-se o Rio o
centro comercial de todo o país. Dispunha, ademais, de um sistema de viação terrestre, fluvial e
marítima que podia servir a todas as capitanias. Em 50 anos, de 1750 a 1800, aumentou a
população do Rio de Janeiro de 25.000 a cerca de 100.000 habitantes".
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A abertura dos portos faz com que cheguem ao Brasil as comodidades e
o luxo do velho mundo. Instala-se a Régia Tipografia e funda-se, com as
preciosidades de Barbosa Machado, a Biblioteca Nacional.
Rugendas, que esteve no Brasil em 1835, observou a importância do
fato: “Basta comparar o número de habitantes do Rio de Janeiro em
1808, com o de agora, para compreender a influência que teve sobre a
cidade a chegada da Corte de Portugal. Em 1808, o Rio tinha, no máximo,
cinquenta mil habitantes e o número de brancos era, sem comparação,
muito inferior ao de pretos. Hoje, a população é de cento e dez mil almas
e a desproporção entre negros e brancos muito menor, pois, desde então,
se estabeleceram na cidade mais de 24 mil portugueses, sem contar
grande número de estrangeiros, principalmente ingleses e franceses,
atraídos pela abertura dos portos do Brasil [...]”.
De súbito, o Rio de Janeiro tornava-se a capital do Império. E operou-se,
em todo o país, uma rápida e profunda urbanização.
Contudo, há de ter-se cautela diante do otimismo do grande filólogo, pois
todo esse processo não alterou, em suas linhas mestras, o sistema socioeconômico
instalado no Brasil. A economia continuou sendo fundamentalmente agroexpor-
tadora, e a força de trabalho continuou sendo majoritariamente escrava. A grande
mudança operada no período foi a substituição da mineração pela lavoura
agroexportadora do café, como principal fonte da riqueza nacional. As grandes
fazendas cafeeiras, que proliferaram, inicialmente, no Vale do Paraíba e, a partir da
segunda metade do século, no Planalto Paulista, tornaram-se os principais centros
produtores da riqueza do país. Essas regiões passaram a absorver os contingentes
de mão de obra escrava das minas exauridas. Com a atividade econômica orientando-
se comercialmente para a cidade do Rio de Janeiro, acentuou-se a preponderância
econômica (e a fortiori cultural e política) dessa Província sobre as demais regiões
do país, já estabelecida no ciclo do ouro. Com o continuado declínio da cultura
açucareira, manteve-se também o deslocamento de escravos para o Sul do país, a
exemplo do que já ocorrera no ciclo da mineração, dando continuidade ao tráfico
interno e ao massivo deslocamento das camadas pobres da sociedade.
21
Mas, passadas as primeiras décadas dos Oitocentos, aparecem os primeiros
sinais das grandes mudanças que estavam por vir. Preocupada em ampliar os
21
Esse deslocamento, em tamanhas proporções e ao longo de tão extenso período de tempo, como
foi dito anteriormente, mas deve ser novamente enfatizado, pode explicar uma relativa
homogeneidade diatópica da norma popular brasileira, bem como a difusão da influência do
contato entre línguas para as mais diversas regiões do país. Vale lembrar também que tal
deslocamento da população pobre e mestiça do Brasil se repetiria ao longo do século XX, com os
nordestinos migrando para as grandes cidades do Sudeste do país e para as regiões Norte e
Centro-Oeste.
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mercados consumidores que a Revolução Industrial exigia, a Inglaterra, após ter
obrigado Portugal a cessar as suas atividades com o tráfico de escravos, passará a
pressionar diretamente o governo brasileiro, após a independência política, em
1822. A primeira consequência dessa pressão será uma lei de 7 de novembro de
1831, que declarava livres todos os escravos que chegassem do estrangeiro a portos
brasileiros e caracterizava os traficantes como infratores, sujeitos a penas corporais
e multas. Porém essa lei não surtiu efeito, e a prosperidade das fazendas cafeeiras
do Vale do Paraíba manterá o tráfico negreiro, em condições semiclandestinas, por
mais de uma década.
22
Desse modo, o tráfico negreiro no Brasil só será efetivamente
proibido em 1850.
A abolição da escravidão, consequência natural do fim do tráfico, só ocorrerá,
entretanto, em 1888 (sintomaticamente seguida, um ano depois, pela Proclamação
da República), quando os abolicionistas já haviam conquistado a opinião pública
e promoviam a fuga em massa dos cativos das fazendas, e o Exército se recusou a
perseguir os escravos foragidos.
23
Só assim, foi dobrada a tenaz oposição do Partido
Conservador, o braço político dos grandes proprietários rurais do Vale do Paraíba,
que resistiram com todas as suas forças à extinção da escravidão, apesar de o
sistema baseado na força de trabalho escrava acarretar um ônus extraordinário aos
produtores, favorecendo mais o comércio negreiro e os credores do que os próprios
latifundiários — o que em boa medida já havia concorrido para o declínio dos
engenhos de açúcar.
Já as novas fazendas que se abriam no interior de São Paulo, apesar de
contar inicialmente com a mão de obra escrava, passaram a liderar o processo de
mudança do sistema para o trabalho assalariado, que então já se mostrava mais
rentável e viável do que o trabalho escravo.
24
Assim, a queda do Império e a
proclamação da República correspondem, no plano socioeconômico, ao declínio
da economia escravista do Vale do Paraíba e à ascensão ao poder dos grandes
fazendeiros de São Paulo e de Minas Gerais, que conseguiram se modernizar,
implementando o sistema de trabalho assalariado; situação essa que marcará o
22
De acordo com Pierson (1945, p.89-90), "em 1831, um tratado com a Grã-Bretanha procurou
abolir o comércio de escravos. Mas, durante um quarto de século, este acordo teve tão pouca
força, que se avalia em quinhentos mil o número de africanos que posteriormente ainda foram
trazidos para o Brasil, muitos deles em navios dos Estados Unidos que operavam com capital
inglês". Atribui-se a esse fato o surgimento da expressão "para inglês ver".
23
Sendo o Brasil a última nação do Ocidente a pôr termo oficialmente ao emprego do trabalho
escravo. O advérbio oficialmente é nesse caso imprescindível, porque a exploração do trabalho no
Brasil tem sido tão violenta e aviltante que, até nos dias de hoje, fiscais do Ministério do Trabalho
flagram grandes propriedades rurais que mantêm trabalhadores braçais em situações "análogas à
escravidão".
24
Estima-se que, desde 1880, o número de trabalhadores livres em São Paulo já superava o número
de escravos.
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período da Velha República. De qualquer forma, nem o Império, em seus estertores,
nem a República nascente elaboraram qualquer plano para a absorção do enorme
contingente de ex-cativos, já que tanto os velhos como os novos latifundiários
não tinham nenhum compromisso com qualquer política social; e o movimento
abolicionista urbano, fundado numa ainda incipiente opinião pública, pouca
interferência tinha nos centros de decisão do país.
Essa situação dos ex-cativos, após o colapso das empresas escravagistas,
terá importantes implicações sociolinguísticas. Alguns receberam doações de terra
e se dedicaram a uma cultura de subsistência, ficando à margem do grande processo
produtivo. Mais marginalizados foram aqueles que abandonaram as grandes fazendas
e se deslocaram ainda mais para o interior, em busca de locais ermos, onde pudessem
livremente subsistir; confinando com a situação em que já se encontravam as
comunidades quilombolas, de escravos foragidos. Se se dirigiam para as cidades,
os ex-escravos eram mantidos nas periferias, em situação de grande miséria e
marginalidade. Assim, deslocados do grande processo produtivo e abandonados
pelas políticas públicas, essas comunidades de ex-escravos formavam nichos, nos
quais se conservariam as mudanças decorrentes do contato entre línguas massivo
e abrupto; podendo-se imaginar que, nos casos mais radicais das comunidades
mais isoladas, continuariam em uso variedades crioulizadas do português, como
os remanescentes do “falar crioulo” descobertos, no início da década de 1960, em
Helvécia, no Extremo Sul do Estado da Bahia, por Carlota Ferreira (1984), ou
mesmo línguas francas de base lexical africana, das quais podem ser um reflexo as
línguas secretas, descobertas na década de 1980 nas comunidades de Cafundó, em
São Paulo (FRY; VOGT; GNERRE, 1981; VOGT; FRY, 1982, 1983, 1985), e Tabatinga,
em Minas Gerais (QUEIROZ, 1984).
Portanto, desde o início do empreendimento colonial, em meados do século
XVI, até o final do século XIX, a organização socioeconômica do Brasil pouco se
alterou. Tratava-se de uma sociedade predominantemente rural, com modestos
núcleos urbanos, que mantinham uma incipiente vida institucional, à qual só
uma pequena elite tinha acesso. Já a grande maioria da sua população — constituída
por índios, africanos e mestiços — era mantida sob a mais violenta exploração e
totalmente segregada da vida institucional ou de qualquer cidadania. Assim, criam-
se as condições objetivas para a polarização sociolinguística do Brasil.
25
De um
lado, nos restritos círculos da elite dos pequenos centros urbanos, “os grandes”
da Colônia e do Império cultivavam a língua e as boas maneiras, sob a inspiração
dos modelos importados d’além mar. Do outro lado, nas vastas regiões do interior
25
Nos últimos quinze anos, Lucchesi (1994, 1998, 2001a, 2002b, 2006a) vem sistematizando a
visão de uma polarização sociolinguística do Brasil, a partir dos fundamentos teóricos da
Sociolinguística Variacionista.
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do país, a língua portuguesa passava por drásticas alterações, sobretudo em função
do processo de transmissão linguística irregular, desencadeado nas situações de
contato entre línguas abrupto, massivo e radical, compreendendo a aquisição precária
do português por parte dos índios e africanos, a sua socialização entre esses
segmentos e a sua nativização, a partir desses modelos defectivos, entre os descen-
dentes endógamos e mestiços desses índios aculturados e africanos escravizados.
26
Essa polarização que marca a história sociolinguística do Brasil foi destacada já na
década de 1950 pelo grande linguista e filólogo Serafim da Silva Neto:
Dos princípios da colonização até 1808, e daí por diante com intensidade
cada vez maior, se notava a dualidade linguística entre a nata social,
viveiro de brancos e mestiços que ascenderam, e a plebe, descendente
dos índios, negros e mestiços da colônia (1951 [1963, p.88-89]).
Para além do seu vasto conhecimento sobre a história da língua portuguesa,
Silva Neto baseou a sua visão em preciosos depoimentos históricos, que através
da sua pesquisa vieram à luz. Tal é o caso dessa descrição da situação da língua na
Província do Maranhão, feita em 1819, por frei Francisco dos Prazeres:
Presentemente a língua corrente no país é a portuguesa; os instruídos a
falam muito bem; porém entre os rústicos ainda corre um certo dialeto,
que, enquanto a mim, é o resultado da mistura das línguas das diversas
nações que tem habitado no Maranhão (apud SILVA NETO, 1951 [1963,
p.90]).
27
Assim como esses, vários outros testemunhos históricos fazem referência à
mistura de línguas que marca a formação das variedades populares da língua
portuguesa no Brasil, nos quatro primeiros anos de sua história.
28
Se não é possível
26
O conceito de transmissão linguística irregular, desenvolvido para dar conta das situações de contato
entre línguas é o tema do capítulo 3 deste livro. Lucchesi (2008a, 2008b) detalha a relação
histórica entre a transmissão linguística irregular e a polarização sociolinguística do Brasil.
27
Vale lembrar que o Maranhão abrigou uma grande população de índios tupinambás que para lá
afluíram, nos finais do século XVI e início do XVII, e recebeu também largos contingentes de
escravos africanos importados para o trabalho nas lavouras de algodão, entre os séculos XVII e XIX.
28
Já no século XVII, dispõe-se deste texto perspicaz do padre Antônio Viera: "[...] falam [as nações
asiáticas] a língua portuguesa, mas cada uma a seu modo, como no Brasil os de Angola, e os da
terra [...] A língua portuguesa tem avesso e direito: o direito é como nós a falamos, e o avesso
como a falam os naturais [...] Eram línguas partidas, não só porque eram muitas línguas, senão
porque eram línguas e meias línguas: meias línguas, porque eram meio portuguesas e meio de
todas as outras nações que as pronunciavam e as mastigavam a seu modo". Para o século XIX,
tem-se o testemunho dos viajantes estrangeiros. Em 1821, Saint-Hilaire "notara que os negros
conservavam qualquer coisa de infantil em seus modos, linguagem e ideias... o que é uma das
características dos falares crioulos". Em 1868, "o viajante inglês Burton, meticuloso e honesto
observador, diz que os escravos negros de Morro Velho falavam luso-hamítico" (apud SILVA
NETO, 1951 [1963, p.109]).
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determinar com absoluta segurança a ocorrência de processos crioulizantes nesse
período, pode-se pensar que o português popular sofreu profundas alterações ao
ser adquirido, inicialmente, pelos poucos índios aculturados em português e,
posteriormente, por contingentes cada vez mais expressivos de escravos trazidos
da África; de modo que é bem razoável imaginar que o português falado por esses
segmentos tenha passado por um intenso processo de transmissão linguística
irregular, que pode, em determinadas situações mais propícias, ter atingido um
nível de pidginização e crioulização.
29
Essas mudanças não chegariam a afetar
diretamente o português culto das camadas mais altas da sociedade brasileira, que
mantinham estreitos laços culturais e linguísticos com Portugal.
Toda essa situação só começa a se alterar após a abolição da escravidão e o
início da imigração de largos contingentes de europeus e asiáticos para o Brasil. A
adoção do trabalho assalariado, que amplia o mercado consumidor brasileiro, e os
grandes excedentes gerados pela exportação do café criam as condições para a
industrialização, implementada nas primeiras décadas do século XX, e intensificada
sobretudo a partir do Estado Novo. A industrialização em larga escala desencadeia,
a partir da década de 1940, o fenômeno da urbanização do país, levando à formação,
já na década de 1970, de verdadeiras megalópoles, como o Rio de Janeiro e São
Paulo, que ocupam uma posição reitora na condução da economia e da cultura do
país.
30
No bojo desse processo, são construídas as rodovias que integram todas as
regiões do território nacional, e os meios de comunicação de massa experimentam
um crescimento vertiginoso, alcançando e influenciando — inicialmente, através
do rádio e, depois, através da televisão — até as comunidades mais isoladas dos
mais afastados rincões do território brasileiro. Esse gigantesco processo, que alterou
profundamente a fisionomia do país (mesmo sem o livrar de suas deformações
estruturais), acabou por atenuar, em sua ação niveladora, a acentuada polarização
entre a fala das elites urbanas e a fala das populações rurais pobres; tanto ao
eliminar, na fala popular, as marcas mais características do processo de transmissão
linguística irregular, ocorrido nos séculos anteriores (ou mesmo provocando o
desaparecimento, em algumas localidades, de formas incipientes de línguas
29
Cf. Silva Neto (1951 [1963, p.89]): "O grau desse falar crioulizado varia de lugar para lugar:
depende da percentagem de brancos e do status cultural. Onde menor for o número de brancos,
onde a população consistir, quase exclusivamente, de índios, negros ou mestiços, maior será o
grau de linguajar crioulizante".
30
Para se ter uma ideia das proporções desse processo de urbanização da sociedade brasileira, basta
que se diga que, em 1940, quase 70% dos 41.236.315 habitantes do Brasil viviam no campo; já em
1970, cerca de 56% da população vivia nas cidades, contra 44% da população rural; e, em 1996, a
população urbana corresponde a quase 80% dos 157 milhões de habitantes do Brasil (IBGE,
1987, 1996, 1997).
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crioulas); quanto ao permitir que certas mudanças ocorridas na fala popular
penetrassem na fala das camadas médias e altas. Nesse caso, o grande fenômeno
da imigração ocorrido entre os finais do século XIX e as primeiras décadas do
século XX pode ter desempenhado um papel decisivo.
A transição para o trabalho assalariado foi fortemente impulsionada pela
vinda para o Brasil de mais de três milhões de imigrantes europeus e asiáticos,
entre o final do século XIX e o início do século XX. Esses indivíduos, em sua
maioria, ingressaram na base da pirâmide social brasileira, dirigindo-se para o
trabalho braçal no campo. Nessas circunstâncias, o modelo mais acessível de que
dispunham para a aquisição do português era o proveniente dos capatazes e dos
trabalhadores braçais locais, que, em sua maioria, eram ex-escravos africanos ou
seus descendentes endógamos e mestiços; ou seja, o português que esses
imigrantes — italianos, japoneses, alemães, etc. — aprenderam, ao chegar ao Brasil,
era o português popular, com as profundas mudanças decorrentes do processo de
transmissão linguística irregular por que este havia passado. Contudo, em função
de seu background cultural, esses imigrantes ascenderam rapidamente na estrutura
social, levando para o seio da norma culta algumas das estruturas de matiz popular
que haviam adquirido em seu contato inicial com o português.
31
Pode-se perceber, assim, o caminho através do qual certos processos de
variação e mudança induzidos pelas situações de contato maciço do português
com línguas indígenas e africanas puderam penetrar nas camadas médias e altas,
generalizando-se no português brasileiro como um todo. Este pode ser o caso da
variação na concordância de número (tanto verbal quanto nominal), que teria se
originado no processo de transmissão linguística irregular ocorrido na base da
pirâmide das sociedades colonial e do Império, e daí se teria difundido, tornando-
se hoje um fenômeno que se verifica em todos os extratos da sociedade brasileira
(SCHERRE, 1994, p.38); registrando-se, é bem verdade, a enorme diferença de
frequência na variação que ainda separa os segmentos de maior poder aquisitivo e
nível mais alto de escolaridade da população pobre, analfabeta ou de pouca
instrução.
32
31
Pode-se pensar aí numa sorte de seleção operada pela reação dos falantes nativos cultos, que
seriam mais refratários às estruturas populares mais estigmatizadas e mais tolerantes com as
estruturas que colidissem menos com as estruturas mais normais do seu falar. Contudo, como
esses julgamentos não se operam no plano abstrato da estrutura linguística, mas nas relações
sociais e ideológicas que efetivamente se travam entre os falantes (LUCCHESI, 2004c, p.49-50),
pode-se pensar que os falantes nativos das classes média e alta seriam muito menos refratários
aos desvios linguísticos de um emergente empresário de origem europeia do que diante dos
padrões de fala dos trabalhadores braçais negros e mulatos.
32
Essa enorme diferença quantitativa no emprego das regras de concordância nominal e verbal
constitui um verdadeiro divisor de águas no cenário da polarização sociolinguística do Brasil
(LUCCHESI, 2006a, 2007, 2008b).
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Por outro lado, ocorreram, também ao longo do século XX, significativas
mudanças no panorama cultural e linguístico das camadas mais baixas da população,
em função do vasto processo de urbanização da sociedade brasileira, já referido acima,
e da crescente influência da cidade sobre o campo. Essa influência cultural e linguística
define uma tendência da mudança do português popular em direção aos modelos da
norma urbana culta, que atingem e influenciam as camadas mais baixas da população
através da televisão, do rádio, ou pelo contato direto, proporcionado pelas modernas
condições de transporte, ou mesmo através do precário sistema de ensino público.
Nesse contexto, estão em vias de desaparecimento as marcas mais drásticas das
alterações produzidas pelo extenso contato entre línguas ocorrido nos séculos
anteriores, mantendo-se os vestígios das características mais expressivas do processo
de transmissão linguística irregular apenas naquelas comunidades rurais mais
isoladas e, dentre essas, naquelas em que o contato entre línguas foi mais radical, e
a reestruturação gramatical, mais profunda.
Caso particularmente interessante é o das comunidades rurais afro-brasileiras
isoladas, que provêm de antigos quilombos ou de agrupamentos de ex-escravos,
que receberam doações de terra no final do século passado.
33
Nessas comunidades,
ainda se observa, na fala dos seus membros mais velhos, alguns traços linguísticos
que apontam claramente para mudanças drásticas resultantes de um processo
pretérito de transmissão linguística irregular. Esses traços praticamente desapare-
ceram na fala dos mais jovens, que, diferentemente de seus avós, ouvem rádio e
assistem à televisão, e tiveram acesso a pelo menos um ano de instrução pública.
Esse processo de mudanças descrioulizantes pode ter ocorrido de forma muito
acelerada no decorrer do século XX, em função do violento processo de penetração
no campo das grandes empresas capitalistas.
O cenário inicial é constituído pelo alto grau de isolamento linguístico e
cultural em que viviam as comunidades quilombolas, clandestinas e ilegais até a
abolição da escravatura. Tal cenário seria altamente favorável à crioulização do
português, ou mesmo à manutenção, em uso corrente, de línguas francas de base
africana. Essa situação certamente pouco se alterou até as primeiras décadas do
século XX. A partir daí, inicia-se o violento processo de ocupação de vastas zonas
rurais através dos empreendimentos capitalistas de mineração, extração madeireira
e produção de celulose, entre outros. Esses empreendimentos expulsaram de suas
terras essas comunidades, e/ou acabaram por integrar os seus indivíduos no
processo extrativo e/ou produtivo, através da exploração de sua força de trabalho,
alterando drasticamente o seu modo de vida e desarticulando a sua cultura local.
33
As comunidades rurais afro-brasileiras do interior do país, em geral, e as comunidades rurais
afro-brasileiras isoladas analisadas neste livro são objeto do próximo capítulo.
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A fala dessas comunidades a fortiori seria profundamente afetada, perdendo todas
as particularidades crioulizantes, ou mesmo desaparecendo, na medida em que a
coletividade que a usava se desarticulasse. Desse modo, a intensa e violenta
penetração do capitalismo no campo brasileiro pode ter eliminado as eventuais
variedades crioulizadas do português no Brasil que tenham sobrevivido até o início
do século XX.
Na seção seguinte, busca-se reunir algumas evidências históricas sobre o
grau de crioulização do português, focalizando especificamente as condições e os
contextos sociolinguísticos em que se deu a integração dos grandes contingentes
de escravos africanos na sociedade brasileira.
1.2 O contato do português com as línguas africanas
Os estudiosos que se dedicaram ao tema do contato entre línguas na história
sociolinguística do Brasil são quase unânimes em afirmar que o elemento africano
desempenhou um papel bem mais relevante no processo de constituição de nossa
realidade linguística atual do que o elemento indígena.
34
Desde os primeiros contatos, as comunidades autóctones brasileiras sentiram
o violento impacto da transplantação da civilização cristã ocidental para o Brasil. Com
efeito, ao longo desses cinco séculos, perpetrou-se um verdadeiro genocídio dos povos
indígenas. Quando não eram chacinados pelas “expedições punitivas”, eram dizimados
por moléstias adventícias contra as quais não haviam desenvolvido qualquer imunidade
— uma simples virose dizimava tribos inteiras. Expulsos de suas terras, buscavam
refúgios nas regiões mais recônditas e mais inacessíveis, onde encontravam abrigo da
sanha “civilizatória”. Quando escravizados, não se adaptavam aos trabalhos forçados,
sobretudo aos trabalhos agrícolas, em razão de suas características culturais intrínsecas.
Sua adaptação à vida urbana era ainda mais remota.
35
34
Já em 1933, Mendonça (p.52) refutava "a proeminência indevida que se conferiu ao índio com o
prejuízo do negro na formação da nacionalidade brasileira"; proeminência esta que ele atribui à
ideologia romântica do "indianismo de Gonçalves Dias, Alencar...", que elegeu o índio mítico
como símbolo da nacionalidade, em detrimento da figura proletarizada do negro: "O negro, que
sua no eito e, esfalfado, trabalha sob o chicote, não oferece a mesma poesia do índio aventureiro
que erra pelas florestas... Se um alicerça obscuramente a economia nacional com a lavoura da
cana-de-açúcar e do café, e a mineração do ouro, o outro sugere motivos sentimentais para o
passatempo dos elegantes do Império...".
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Não é possível estabelecer com precisão o número de índios que viviam no território brasileiro na
época do descobrimento. As estimativas variam muito, indo de um a cinco milhões de indivíduos.
De qualquer maneira, levando em conta que os recenseamentos mais recentes da população
indígena brasileira apontam para números em torno de trezentos mil, pode-se ter uma ideia das
dimensões do genocídio que foi perpetrado ao longo de quinhentos anos de contato.
Português Afro-Brasileiro.pmd
24/8/2009, 15:36
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Por essas razões, desde muito cedo, o empreendimento colonial brasileiro
esteou-se na força de trabalho dos escravos trazidos da África. Já no século XVII,
os africanos constituíam a força motriz do setor mais dinâmico da economia
colonial, a cultura agroexportadora do açúcar, no Nordeste. Para além do trabalho
braçal produtivo, os africanos eram empregados também em tarefas domésticas e
muitos dos serviços urbanos. Chegaram mesmo a desempenhar as funções de
controle da produção — como capatazes — ou mesmo de repressão — eram negros
muitos dos capitães do mato que caçavam escravos foragidos. Desse modo, ao
longo de mais de três séculos, passando pelo ciclo do ouro e atingindo a sociedade
cafeeira, os africanos e seus descendentes crioulos
36
garantiram, de forma decisiva,
a atividade produtiva do país, participando de quase todas as esferas da vida social;
não alcançando, porém, os postos e benefícios de uma cidadania, tão restrita e
discricionária.
Portanto, para poder dimensionar a forma como o contato entre línguas se
processou ao longo da história da sociedade brasileira, que níveis atingiu e,
sobretudo, quais as suas consequências para a formação do panorama linguístico
brasileiro contemporâneo, deve-se direcionar o foco para como os contingentes de
escravos africanos se integraram à sociedade brasileira e como assimilaram e
concorreram para o desenvolvimento da língua que se tornaria hegemônica no
Brasil: o português. Nesse sentido, algumas questões de natureza sócio-histórica
e demográfica assumem uma importância crucial. Dentre essas, destacam-se as
seguintes:
(i)
número de escravos africanos trazidos para o Brasil e impacto, em termos
demográficos, desse contingente sobre a composição étnica da sociedade
brasileira;
(ii)
origem geográfica e caracterização etnolinguística dos africanos e sua
distribuição pelo território brasileiro;
(iii) formas de interação desses indivíduos, nos níveis social, cultural e linguís-
tico, com o grupo dominante.
Nas próximas seções, busca-se sistematizar algumas das respostas a essas
questões.
36
O adjetivo crioulo significava inicialmente 'nascido no lugar'. Desse modo, distinguia-se o escravo

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