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Falem as grandezas musicais de Mozart, de Chopin, as inspirações poéticas de
Casimiro, de Alvares de Azevedo, de Rodrigues de Abreu, as belezas literárias
de Paulo Setubal (...). Dizem outros que as toxinas do bacilo de Koch, nas
pessoas de temperamento místico, exaltaram essa tendência, elevando às vezes
ao mais alto grau a piedade, à heroicidade de virtudes, às grandezas morais, à
contemplação do Céu e honras dos altares. (Prado, 1939:457)
E depois de recitar os nomes santificados dos fimatosos, Teresinha do Menino
Jesus, Luiz Gonzaga, Francisco Xavier, Francisco de Assis, Guy de Fontglan e Antoninho
Marmo, o psiquiatra concluiu enfaticamente: “Se assim é, bendita tuberculose, bendito
misticismo, bendita psicose; maravilha do Céu para edificação da humanidade!”.
Por seu turno, o Dr. Souza Soares (1940) continuou a bater-se contra os defenso-
res dos descalabros comportamentais atribuídos à ação bacilar, elaborando um longo
relatório sobre a bibliografia internacional que confirmava a recente fragmentação do
posicionamento médico europeu. Apesar de não rejeitar o comportamento ‘alterado’
dos consuntivos, o tisiologista de São José dos Campos permaneceu como voz solitá-
ria até 1945, quando Oracy Nogueira inteirou-se das discussões, fazendo de sua disser-
tação de mestrado uma espécie de desdobramento dos postulados defendidos pelo
médico consuntivo.
Ainda demoraria muito para os tisiologistas brasileiros desvencilharem-se da
crença sobre a particularidade comportamental dos infectados. Mas, graças ao Dr.
Souza Soares, a semente estava plantada.
No final das averiguações, nem a literatura de tendência autobiográfica, nem as
Ciências Sociais e nem ainda as declarações registradas nos prontuários médicos pos-


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taram-se como canais questionadores da veracidade dos estigmas imputados aos tísi-
cos. As tentativas elucidadoras do ‘eu’ mostravam-se convergentes, situando os pro-
nunciamentos públicos e os depoimentos privados dos pectários como vozes
disseminadoras das vertentes que fomentavam a diabolização e a discriminação coleti-
va das vítimas do Grande Mal.
Apesar de algumas observações elaboradas pelos próprios infectados negarem
parcialmente a ‘causação’ toxínica das ‘atitudes desajustadas’, nenhum doente ousou
desqualificar a multiplicidade de estigmas aglutinados sob a denominação de ‘psicolo-
gia do tuberculoso’. Frente a este fenômeno, acredita-se que, mais do que produto dos
empenhos institucionais em inculcar as idéias denegridoras da existência infectada, os
próprios consuntivos enquadraram-se simbolicamente no modelo comportamental pre-
conizado como exclusivo dos tributários da Peste Branca.
Recorrendo ao rol de terminologias utilizadas pelo sociólogo Erving Goffman
(1975), supõe-se que os doentes do peito serviram-se de uma ‘idealização negativa’ de
força e expressão histórica como ‘fachada’ para viabilizar o desempenho de papéis que,
sincera ou cinicamente ‘encenados’, tinham como resultado a integração dos doentes
no contexto social subjacente.
Em decorrência desse posicionamento, a sociedade como um todo e o agrupa-
mento intelectual em particular utilizaram as declarações emitidas pelos contaminados
para reiterar a validade e a precisão dos conceitos incorporados pela ‘ciência moderna’
e também para dimensionar a moléstia pulmonar e suas vítimas como símbolos maiores
da dor e do sofrimento.
Abre-se assim a possibilidade de chegada a uma nova etapa na elaboração de
uma História Social do Doente. Se as reações contra o ordenamento sanitário e os estig-
mas coexistiam com os esforços de definição do ‘eu’, os tuberculosos também buscavam
formular estratégias conciliadoras com o tecido coletivo mais abrangente e, mediante
estas ações, opor-se ao que era mais temido: a exclusão, sinônimo de morte social.



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