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Sinto-me na obrigação moral de dar uma explicação, afim de evitar possíveis
malentendidos na compreensão do problema sexual do tísico. Sou da opinião que
se deve criar uma educação sexual especial para os doentes do pulmão. (...) Nêste
ponto tenho a consciência tranquila, porque antes de tudo procurei ser honesto
comigo mesmo e para com a linha erótica comum da doença. (Dantas, 1946:9-10)
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Estava dado o mote definidor do posicionamento de Paulo Dantas sobre a ‘psicolo-
gia’ dos infectados. Pela vez primeira no contexto nacional, um escritor tuberculoso discor-
reu exaustivamente sobre as pretensas perversidades morais dos filhos da ‘brasileirinha’,
aceitando na íntegra a versão corruptora dos sentidos apregoada como marca dos pectários.


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O personagem central da novela lançada em 1946 é Ciro que, ao contar sua
história de vida, identificou-se plenamente com a biografia do seu criador, fazendo da
obra uma espécie de documento detalhador do prontuário do Hospital do Jaçanã inici-
ado com o nome do paciente Paulo Dantas. “O que tem que ser, será”: o destino foi
novamente invocado para selar a inevitabilidade da infecção pulmonar, fazendo do
personagem/autor um membro degradado da burguesia, que freqüentava não os ‘sana-
tórios de luxo’ ou as pensões particulares de Campos do Jordão, mas sim as úmidas e
sujas enfermarias localizadas nos subterrâneos dos hospitais filantrópicos que funcio-
navam no sul mineiro e na parcela paulista da Serra da Mantiqueira.
Neste curso, Paulo Dantas retratou a face oculta e miserável da cidade dos
infectados. Autoproclamando-se “gato castrado em porão escuro”, Paulo/Ciro vascu-
lhou as fantasias e os desejos que acreditava serem frutos do micróbio, revelando o
lado sombrio que nenhum outro literato doente ousou desenhar com tanto requinte. Os
personagens focados no ambiente de cura eram feridos por toda sorte de ‘aberrações’:
uns são exageradamente egocêntricos, outros perversos, outros ainda místicos, todos
sexualmente pervertidos, computando entre tais desarranjos a comparação do esperma
com o catarro expulso dos pulmões e a utilização da palavra ‘foda’ como brado da
indignação coletiva que pairava sobre os doentes do peito.
As tentativas de seduzir o sexo oposto, senão o idêntico, tinham como comple-
mento as fantasias sobre o pretérito repleto de carícias femininas. Na ausência de
companhia real ou fictícia, Ciro seguia a conduta dos seus parceiros de enfermaria,
entregando-se à prática onanista. Mas, nem mesmo nos momentos de gozo solitário a
doença e a moral se esvaneciam, ampliando os medos e os receios dos tuberculosos
carentes de tudo.
Após excitar-se com o resto da água que sobrou do banho de uma paciente da
mansão da saúde, o fimatoso masturbou-se, sendo imediatamente atormentado pelos
fantasmas apregoados com invulgar insistência pelos clínicos e pelos religiosos que
serviam no hospital:
O que abatia não era a viscosidade do sabão, era o nojo, o medo da hemoptise,
o pêso na consciência e a vergonha de mim mesmo. A água ficou manchada e de
corpo limpo destampei a torneira e ví a correnteza levar tôdas as impurezas do
mundo, com restos do corpo de Margarida. Depois subí para o quarto, de
olheiras, abatido e envergonhado comigo mesmo. Deitei-me e fiquei a manhã
inteira a esperar pela hemoptise que não veio. (Dantas, 1946:106)
A sensação de ser um estrangeiro na nação dos consuntivos pobres fazia de
Ciro um incansável crítico do ambiente de cura. A ostensiva repressão institucional das
necessidades produzidas pelo ‘ardor da febre’ exigiu que o memorialista disfarçado
lançasse sucessivas farpas contra os empregados dos sanatórios que, ao cobrar casti-
dade e devoção religiosa dos infectados, tornavam-se arquitetos de um cotidiano sufo-
cante e intimidador.
Na continuidade da trama, Ciro deteve-se na denúncia dos descalabros perpe-
trados pelos agentes nosocomiais. O tratamento diferenciador dispensado aos hóspe-
des pensionistas trazia para dentro das casas de saúde as desigualdades sociais que


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colocavam em confronto os pobres e os ricos. Comida, assistência médica, velório,
condescendência, respeito e tudo o mais estava alocado em benefício dos endinheira-
dos e, por óbvio, em detrimento dos indigentes. Por isso, Ciro declarou-se chocado
pelo fato de seus companheiros de miséria e infecção nada fazerem contra as injustiças
que proliferavam na teia higienista. Para explicar tal postura, novamente Paulo Dantas
(1946:67) serviu-se dos estigmas ajustados aos doentes do peito, esclarecendo:


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