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— Acho que foi Voltaire... É sim, foi Voltaire que disse assim, mais ou menos, não
é Bruno? ‘Se pudesses modificar o destino da môsca, nada poderia impedir que
realizasses o destino de tôdas as outras môscas, de todos os animais, de todos os
homens, de tôda a natureza. Sereis, então, mais poderosos que Deus...’ É engra-
çado, Bruno, como foi que guardei isto? (Queiroz, 1939:123)
A luta contra a sina pectária confundia-se com a paixão por Bruno, combinação
perigosa que roubava o resto de energia e a beleza de Lucilia. Apesar dos conselhos
clínicos para que a tuberculosa interrompesse as noites de vigília amorosa com Bruno,
ela se entregou sofregamente ao homem que lhe oferecia companhia e esperanças de
fugir ao destino dos contaminados.
Parece que Dinah concluiu que nenhum tísico, nem mesmo sua querida persona-
gem, reunia forças suficientes para alterar o rumo da vida que fora assenhoreada pela
Peste. A opção sentimental assumida por Lucilia condenou-a à decadência física e
moral. O repentino desaparecimento de Bruno marcou o agravamento do estado de
saúde de Lucilia que tornou-se demasiadamente frágil para se manter avessa ao destino
e para reagir contra a decisão médica que apontava a toracoplastia como recurso único
para arrancá-la das garras da morte.
A operação mutiladora fez surgir uma nova Lucilia, bem diferente daquela que
lutava contra a fatalidade da vida. Redefinida em condições de igualdade às suas com-
panheiras de enfermidade, a personagem ofereceu então oportunidade para que Dinah
anunciasse os desarranjos dos sentidos que eram proclamados como exclusividade
dos doentes do peito.
Se desde o início do romance a autora recobriu os tipos construídos com delica-
dos comportamentos que apenas sugeriam o funcionamento da deformação espiritual
atribuída ao bacilo de Koch, o processo de derrota de Lucilia frente ao destino e à


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enfermidade fez com que o roteiro da obra se desviasse para o tenebroso terreno das
pretensas anormalidades resumidas na ‘psicologia do tuberculoso’.
A ruína de Lucilia significou também a queda de todos os fimatosos. Em conse-
qüência, a parcela final do livro de Dinah assemelha-se a uma súmula das distorções
‘causadas’ pelo micróbio da Peste Branca: Turquinha revela-se mística exaltada, entre-
gando-se à crença espírita; Elza, já em estágio avançado de recuperação da saúde,
rejeita os seus companheiros de infecção e a própria Lucilia mostra-se hipersexualizada,
sentindo voluptuosos arrepios até pelo roçar do corpo com as roupas de cama.
Para além destas alterações morais imputadas à toxina bacilar, Dinah Silveira de
Queiroz emprestou tensão às últimas páginas de sua obra mediante a exploração da
idéia de que os tuberculosos nutriam amarga inveja dos colegas que recebiam alta em
razão da cura pulmonar. Seguindo este viés, tanto Lucilia quanto Flávio – personagem
apagado e namorado de Elza – mostraram-se declaradamente rancorosos ao saberem
que Elza estava livre da infecção e do isolamento nas montanhas. Sentindo-se distanci-
ado da ex-infectada, Flávio anunciou seu descontentamento com a recuperação da
saúde da amada, queixando-se: “— Agora... vejo as coisas friamente. Você curada,
pronta a retomar o fio interrompido das suas relações, das suas amizades e eu aquí...
prêso para sempre” (Queiroz, 1939:252).
O escritor Paulo Dantas, por sua vez, não fazia segredo do seu estado consuntivo,
apesar de se proteger atrás da composição literária na terceira pessoa do singular.
Ganhador de um prêmio ofertado pela Academia Brasileira de Letras pelo seu livro de
estréia, no qual retratou a vida dos presidiários, o autor continuou na senda dos exclu-
ídos, escrevendo um conto e uma novela onde explorou o cotidiano dos infectados
reunidos em Campos do Jordão.
A novela As Águas Não Dormem... contou com o patrocínio editorial de Monteiro
Lobato, que reunia a autoridade de crítico literário com a dor do pai que havia tido, por
duas vezes, filhos roubados pela Peste Branca. Apresentado pelo seu padrinho intelec-
tual como escritor da “mais corajosa sinceridade”, Paulo Dantas fincou a coluna mestra
de seus livros referentes aos enfraquecidos do peito no pântano afirmador de que a
toxina do micróbio de Koch somava-se à febre para perverter o comportamento dos
pectários, resultando na licenciosidade sexual dos contaminados.
Em decorrência, desde as páginas de abertura do seu primeiro texto sobre os
fimatosos, o autor expôs claramente sua proposta purificadora dos seus companheiros
de sofrimento:



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