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A E
XPERIÊNCIA
 E
SCAMOTEADA
A necessidade de estabelecer as dimensões do contato íntimo com a infec-
ção coagiu vários intelectuais tísicos – ou que acreditavam ser a Peste Branca
condição futura inevitável de suas vidas – a refletirem publicamente sobre a enfermi-
dade, sem contudo deixar claras evidências de estarem compondo obras que beira-
vam o ensaio autobiográfico.
O acomodamento na terceira pessoa do singular consistia assim em estratégia
protetora contra o conhecimento coletivo da condição pessoal de contaminado ou
‘predisposto’, inibindo com isso as possibilidades estigmatizadoras. Em decorrência, a
literatura e as Ciências Sociais serviram de canais que foram utilizados pelos consuntivos
para discorrer sobre o Grande Mal, falando do ‘eu’ por meio da narrativa centrada nos
‘outros’, tributários da Peste Branca.


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Neste contexto dissimulador das averiguações pessoais da trama tuberculosa,
ninguém granjeou mais fama que Dinah Silveira de Queiroz. Filha, neta e bisneta de
consuntivas que tiveram seus anos de vida abreviados pela enfermidade, a escritora
nutria desde a infância forte obsessão pelo óbito fimatoso, acreditando que ela própria
tornar-se-ia herdeira do destino contaminado de suas ancestrais.
Porém, a condição supostamente fimatosa que levara Dinah a permanecer por
sucessivos períodos nas prefeituras sanitárias paulistas não chegou a público quando o
seu romance sobre os doentes asilados em Campos do Jordão apareceu nas livrarias, no
primeiro dia de setembro de 1939. A edição inaugural de Floradas na Serra esgotou-se
em pouco mais de um mês, despertando as atenções dos críticos que, ao interpelarem a
escritora quase estreante sobre os motivos que a entusiasmaram a compor a obra, recebiam
em resposta sentenças furtivas e curtas, nada ficando de concreto sobre o assunto.
Desfiando o novelo de suas dúvidas pessoais, Dinah Silveira de Queiroz percor-
reu seguidos sanatórios, pensões e consultórios médicos localizados na Serra da
Mantiqueira para traçar o perfil dos tuberculosos. Como resultado, floresceu a persona-
gem Elza que, no final da adolescência, partiu da capital dos paulistas em direção às
montanhas, levando para Campos do Jordão os pulmões avariados e a esperança de cura.
Apesar da opção de colocar Elza como personagem de destaque na trama posta
na pensão dirigida por Dona Sofia, a autora deixou-se apaixonar por um tipo secundário
que, pouco a pouco foi ganhando corpo na obra, sobrepondo-se em importância aos
demais tísicos criados pela escritora. Esta personagem recebeu o nome de Lucilia, “a
minha Lucilia – devoradora e complexa” segundo o depoimento que Dinah prestou,
pouco depois do lançamento editorial de Floradas na Serra. Mais ainda, a autora
confessou que entregou-se vorazmente à composição da vida de sua personagem
favorita, sendo que, no final, “para o equilíbrio da narrativa”, viu-se obrigada a destruir
“várias páginas, todas escritas sôbre Lucilia” e com isto sacrificou longos trechos do
“depoimento sincero de uma infeliz pensionista de Dona Sofia”.
2
A fascinação declarada de Dinah por Lucilia desdobra-se na composição do
romance. Representando o possível alter ego da escritora, esta personagem ganhou
autonomia no enredo, reunindo poder inclusive para dar nome a Bruno, um outro vulto
que povoa a cidade dos desesperados.
Assemelhada biográfica e fisicamente à sua criadora, Lucilia ‘saiu das sombras’,
elevando-se à condição de voz crítica da colônia dos ‘fracassados’, alguém que falava
o que cautelosamente era silenciado e que, por isso, chocava pela rudez de observar a
verdade que desconsolava. Mesmo assim, a incômoda consuntiva transitava entre o
universo dos sãos e dos enfermos como um fantasma onipotente que, ‘desprezando
o seu pequeno público’, sempre estava a salvo de qualquer admoestação, tanto de suas
colegas quanto de Dona Sofia e do tisiologista responsável pelo seu tratamento.
‘Menina impossível’, ‘doente rebelde’, ‘criatura detestável’, ‘sem juízo’ e ‘pe-
quena indecente’ são alguns dos atributos que marcavam Lucilia, segundo outros
personagens também reunidos em Campos do Jordão. Isso porque a tuberculosa
teimava em remar contra as águas do destino. Apesar da declaração de ser uma
“condenada” que não esperava obter cura, Lucilia opunha-se à “força cega e
inexorável” que rege o mundo.


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Lucilia se mostrava poderosa, marcando presença nas horas mais tensas da vida
do pensionato. Naqueles momentos, seu olhar desafiante fazia com que suas colegas
não caíssem em desespero, como no instante em que Belinha agonizava, cabendo então
a ela acudir silenciosamente a valetudinária e também amparar as demais testemunhas
do óbito que se anunciava.
A dimensão cínica e quase sobre-humana emprestada à Lucilia encontrou limi-
tes quando ela conheceu e se apaixonou por um ‘homem irreal’ que a própria infectada
incumbiu-se de batizar com o nome de Bruno. Sem história passada e sem projetos para
o futuro, Bruno enquadra-se modelarmente nas companhias imaginárias criadas pelos
doentes do peito. O súbito amor da enferma tinha um sentido claro: buscar um aliado
contra o destino tuberculoso. Não é por acaso que Bruno foi apresentado como um
escritor cuja meta diária era descobrir a potencialidade humana de lutar contra o fatum,
termo latino cuja tradução remete ao conceito de destino.
O desejo de se bater contra a rota que o Grande Mal teimava em impor à
existência fez Lucilia compartilhar das apreensões de Bruno. Verdadeira co-autora do
romance sobre os doentes do peito, a personagem também se tornou colaboradora do
livro de Bruno, acrescentando novas páginas ao texto que estava sendo elaborado
pelo amado:



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