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E a terceira com a voz entrecortada
Repleta da maior das tristezas deste mundo,
baixinho segredou: ‘Meu filho é poeta...’
E não disse mais nada...
Fez-se o silêncio mais profundo...
E as outras duas soluçaram comovidas... (1943:128)
A ‘confissão pública’ assinada por Paulo Setubal (1949) buscou afastar-se do
pendão romântico para, no seu lugar, dar vez a uma versão sintonizada com os
posicionamentos da moral e da medicina. O fato de verificar o passado como uma
seqüência ininterrupta de “tontices” e seu comportamento como “excessivo em tudo”,
“assombrado”, “mesquinho”, “carnal”, “chafurdado na torpez” e sobretudo “afastado
de Cristo”, permitiu que o intelectual concluísse que sua “vidazinha” não poderia ter
outro desfecho a não ser o encontro com a mortal infecção.
No desdobramento das avaliações realizadas pelos pectários, o significado das
etapas da vida ganhava um sentido sinistro. O pretérito saudável fizera-se éter, coagin-


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do Paulo Sérgio a identificá-lo ao ‘nada’, enquanto o futuro se transformava em apenas
uma ‘abstração’. Suspenso entre o passado e o porvir, os doentes fantasiavam um lugar
onde não existisse nem a dor, nem o vômito sangüíneo, nem a solidão, nem a morte,
conferindo versões pessoais à Pasárgada bandeiriana.
Enquanto o convertido Paulo Setubal localizava a pátria da redenção como sendo
o próprio reino celestial dos católicos, o tísico Almansur buscava a terra prometida na
“Cidade Branca” dos cemitérios. Dentre tantas variações elaboradas por este poeta sobre
o tema, uma impressiona, pois ritmada pelo trote assustador da tuberculose galopante:
É um país sossegado
que não tem hemoptise;
é uma terra decente,
sem escarros no chão,
putupum, putupum.
País sem suores frios,
putupum, putupum,
sem cadeiras de lona,
putupum, putupum,
sem bacilos de Koch
putupum, putupum,
e onde o vil pneumotórax
por certo é ignorado,
putupum, putupum,
putupum. (Almansur, 1943:114)
Mas, enquanto o passado se esvaía e a morte não apresentava sua terrível face,
o cotidiano do isolado nas prefeituras sanitárias era acima de tudo o cenário do tédio.
Em Campos do Jordão e em São José dos Campos, os autores tísicos viviam a vida
estancada num limbo que beirava a eternidade, tendo como espelho maior o ‘ruço’ que
cobria a Serra da Mantiqueira e se espalhava pelo Vale do Paraíba. O sentimento de
impotência e a solidão imposta fazia com que todos ansiassem pela novidade que
nunca chegaria. A existência sem rumo certo roubava a vontade de traçar planos,
fazendo com que Paulo Sérgio (1950:21) desabafasse:
Ah se eu tivesse um desejo
nesta tarde de verão...
Um desejo de mulheres
de carinho, de ilusão
de um beijo de compreensão
de amizade ou de dinheiro,
Ah se eu tivesse um desejo...
A repetição diária do mesmo a nada levava, a não ser ao desalento dos ‘fracassados’.
O desespero nutrido pela mesmice exigia a procura de estimulantes que, no final de contas,
a malvada doença teimava em proibir. Ainda é Paulo Sérgio (1950:22) quem fantasiava:
Penso em entrar num bar
fumar ópio, tomar coca
e beber cerveja muita.


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Queimar uma ‘herva’ bem forte
– Maconha
Liamba-diamba
Cabelo de Negro baseado
a herva do sonho e da morte.
O ‘desejo de alguma coisa’ fazia brotar a urgente necessidade da presença do
outro, alguém que pudesse oferecer amor e companhia, repartir o calor do corpo nas
madrugadas frias e tornar-se cúmplice de um sofrimento que não tinha mais palavras
para expressar intensidade. Nas noites de solidão, o pretenso ‘tesão de tuberculoso’
ganhava o rumo do devaneio que flertava com a ‘vida que não fora’.
Excetuando-se Paulo Setubal – que desfrutou seus últimos anos de vida na
companhia da esposa, numa chácara que lhe fora presenteada pela sogra Vicentina
Aranha e localizada nas imediações do sanatório joseense da Santa Casa de São Paulo
– os autores tísicos convergiam para a ilusão da presença de um sem-número de tipos
femininos que ofertavam, sem qualquer receio, o solidário carinho que, de regra, era
negado aos doentes do peito.
Do leito situado num hospital da Vila Abernéssia, Almansur (1943:173) lutava
contra o vazio de pessoas, versejando longamente sobre a acompanhante ideal:


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