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O doente diz que sua doença começou ha 1 mez, quando tendo respirado em um
bonde uma baforada de fumo forte teve um accesso muito forte de tosse secca que
durou mais ou menos 3 dias quando começou a ser acompanhado de grippe com
escarro branco e logo depois com laivos de sangue.


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O escritor Paulo Dantas (P. 2670) foi outro intelectual que preferiu localizar as
origens de sua tísica bilateral distanciada da disseminação do bacilo de Koch no ambi-
ente doméstico. No final de novembro de 1945, o pectário deu entrada na casa de saúde
do Jaçanã, sendo objeto de uma longa anamnese em que contara toda a sua vida,
informando inclusive que privara durante anos da companhia da mãe e de um irmão,
ambos infectados. No mesmo período, o literato estava finalizando uma novela em que
a doença que explodia em seu peito foi justificada como sendo conseqüência da “pre-
disposição familiar” (1946:20), nada mais do que isto.
Apesar dessas versões, a lógica garantida pela herança cultural impunha a pre-
dominância do postulado que explicava o evento tuberculoso como resultante do con-
traste entre o calor corpóreo e a temperatura do meio ambiente ou do alimento ingerido.
Nesse sentido, muitos enfermos confinados no Hospital São Luiz Gonzaga informaram
que a moléstia principiara pouco depois de terem desfrutado de banho em rios e lagos,
de serem surpreendidos pela chuva ou pelo sereno da madrugada ou ainda após a
ingestão de sorvetes e bebidas geladas.
Em continuidade, segundo os depoimentos que instruíram as anamneses, o
choque térmico experimentado pelo corpo resultava em disfunções orgânicas
identificadas como “gripe”, “constipação”, “resfriado” e “crupe”, as quais “evoluíam”
quando insuficientemente tratadas, ganhando então o curso consuntivo.
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Seguindo os termos deste direcionamento, foi assim que o comerciário Orlando
Baptista Campos (P. 727) explicou as origens de sua enfermidade, em agosto de 1936:
“O passiente julga que os seus males principiaram ha um anno apóz uma forte chuva
que o pôz de cama com grippe, febre alta, pouco escarro, mas escarros estes com
laivos sanguineos”.
Em outros momentos, o ‘resfriado’ ganhava complementos agravantes que,
para os doentes, clareava ainda mais as causas propulsoras da fimatose. Parece que se
tornou regra entre os consuntivos que lutaram na guerra paulista de 32 associarem as
chuvas, as baixas temperaturas típicas da estação e as agruras materiais impostas pela
beligerância como elementos determinadores da moléstia pulmonar. Foi com estas pala-
vras que o motorista negro José Luiz (P. 80) explicou o Grande Mal que o extenuava:
diz que a sua molestia iniciou em Setembro de 1932 durante a Revolução. Por
não gostar da comida passou 20 dias a banana e marmelada e apanhou muita
chuva na trincheira durante alguns dias, molhando roupa de cama e de uso
diario. Logo começou a sentir tosse, febre e fraqueza. Foi para Cachoeira onde
foi examinado por um medico q. deu-lhe baixa, nesta epoca tinha 40 de febre.
As mulheres contaminadas, por sua vez, tendiam a somar o ‘resfriamento’ do
corpo com as condições próprias da fisiologia feminina – principalmente à menstruação
e à gravidez – para explicar o fato fimatoso. Por isso, a paciente Vera Mariano (P. 20), de
25 anos, declarou ao médico que sua tísica fora resultado de ter “bebido um chopp
gelado quando estava incommodada, tendo na mesma hora uma hemoptise formidavel”.
O acentuado emprego desta linha de raciocínio para explicar o evento patológi-
co tinha, em contraposição, a quase total ausência de observações relacionadas com as
condições materiais de vida e de trabalho específicas do proletariado como elementos


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indutores da infecção kochiana. Apesar de inúmeros registros situarem a crise de
hemoptise no momento ou logo depois de consideráveis esforços físicos, a persistente
tendência desqualificadora do processo de trabalho como fator coadjuvante da tuber-
culose coloca em igualdade os doentes e seus médicos.
Assim aconteceu com o operário Juvenal da Silva (P. 1728), que “vomitou 1 litro
de sangue” numa manhã de maio de 1938, quando “carregava sozinho nas costas uma
caixa de louças com cerca de 60 kilos”. No seu depoimento ao tisiologista, Juvenal
concluiu que sua enfermidade fora motivada pelos fatos ocorridos na noite anterior à
crise hemóptica, quando “jogou ping-pong até altas horas e tomou muito sorvete,
percebendo logo ronqueira no peito”. Era a explicação que o doente tinha a oferecer ao
médico e a si próprio.
Os raros pectários que transpuseram o patamar elucidador oferecido pela tradi-
ção, criaram uma sintonia própria entre a Peste Branca e a atividade produtiva, resultando
em considerações nas quais garimpeiros, empregadas domésticas, peixeiros e emprega-
dos de frigoríficos aproximaram as origens da doença pulmonar com a umidade imperante
nos ambientes onde trabalhavam. Um dublê de lutador profissional de box e faxineiro do
Cine Coliseu (P. 203) foi um pouco além, informando de que a poeira sempre presente nos
locais onde ganhava seu sustento constituía-se no motivo de sua enfermidade, enquanto
um repórter santista (P. 2644) acusou o trabalho noturno e os muitos cafés e cigarros
que consumia no emprego como os elementos causadores de sua tísica miliar.
Na seqüência, o austríaco Carlos Debeus (P. 1387) talvez tenha sido o paciente
que melhor tentou articular a moléstia que o mataria em abril de 1941 com o seu trabalho
de licorista. Internado no Sanatório do Jaçanã, foi assim que o pectário esclareceu as
origens de sua enfermidade:
Diz estar doente desde o Natal de 1939, quando estava trabalhando na fabrica
de bebidas, fabricando uma substancia com cloreto de calcio e acido tartarico,
respirou os vapores desprendidos durante 10 minutos sem nada perceber, então
começou a sentir falta de ar procurando a rua para conseguir ar fresco. Esta
falta de ar durou 5 horas. Desde essa ocasião começou a tossir com expectoração
amarelo escura e a sentir muita fraqueza que foi aumentando gradativamente
até que o obrigou deixar o trabalho.
Os princípios ‘científicos’ e também as perspectivas ‘populares’ vigentes na-
quela época impediam que tanto os médicos quanto os pacientes oferecessem explica-
ções mais conseqüentes sobre a causação do Grande Mal. Somente muitos anos após
o término do isolamento hospitalar é que alguns antigos fimatosos puderam lançar
nova luz sobre as causas que os levaram ao enfermamento. Um quarto de século depois
de abandonar o Sanatorinho jordanense, Nelson Rodrigues (1967:189) reviu seu passa-
do de tuberculoso, concluindo:
Se me perguntarem por que fiquei doente, diria apenas: — fome. Claro que
entendo por fome a soma de tôdas as privações e de tôdas as renúncias. Não
tinha roupa ou só tinha um terno; não tinha meias e só um par de sapatos;
trabalhava demais e quase não dormia; e, quantas vêzes, almocei uma média e
não jantei nada? Tudo isso era a minha fome e tudo isso foi a minha tuberculose.


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Definiam-se assim os limites interpretativos da moléstia segundo os depoimen-
tos dos próprios contaminados. A incapacidade de articular a vida individual com os
processos coletivos induzia as averiguações que colocavam a doença como acidente
causado por pequenos ‘deslizes’ da vida cotidiana.


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