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A A
NTROPOLOGIA
 
DA
 D
OENÇA

VERSÕES
 
PESSOAIS
Dentre tantas histórias confidenciadas na mansão da saúde localizada na zona
norte de São Paulo, encontra-se o resumo de vida elaborado por Herminio Francisco da


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Silva (P. 15), um chauffer procedente de Belo Horizonte e filho solteiro de uma família
composta por 11 pessoas trabalhadoras. Em um domingo de dezembro de 1931, quando
contava 22 anos de idade, o motorista foi convidado pelos seus colegas da vizinhança
para “jogar bola” em um “campinho” não muito distante da vila onde a rapaziada mora-
va. Durante a peleja, Herminio sentiu pontadas no hemitórax esquerdo e forte cefaléia,
padecimentos estes que não o impediram de continuar no jogo, não se sabendo qual
dos times saiu-se vitorioso.
De qualquer maneira, quando a disputa finalizou, ele e seus colegas, “ainda
soados” comemoraram o encontro tomando “varios copos de cerveja gelada”, certa-
mente discutindo os principais lances da partida que havia terminado. Logo depois da
confraternização, Herminio tomou o rumo de casa, sendo surpreendido no meio do
caminho por uma “chuva abundante que o deixou completamente molhado”.
Já em sua residência, quando se banhava, o atleta de fim de semana sentiu as
mesmas dores que o importunaram durante a partida de futebol, tendo, na seqüência, um
“vomito de sangue calculado em uma chícara de chá”. Socorrido pela mãe com aspirina e
um composto de alho e cebola, mesmo assim o jovem mineiro manteve-se em estado
enfermiço, fato que o obrigou a procurar assistência médica numa clínica belorizontina,
onde um facultativo diagnosticou “uma grippe forte”, prescrevendo xarope e descanso.
O doente fez uso do remédio indicado e não cometeu qualquer imprudência que
pudesse comprometer a recuperação de sua saúde. Com isso, as dores no peito e na
cabeça cessaram, permitindo que Herminio esquecesse o incidente que marcou aquela
tarde de futebol e chuva. Transcorridos dois meses, quando por força de trabalho foi
obrigado a dirigir um caminhão até a cidade de Uberaba, o chauffeur tomou nova chuva,
logo após a “ingestão de 20 morangos”. Poucas horas depois, o motorista mineiro
sentiu a mesma indisposição que o importunara tempos passados, acompanhada desta
vez de “enfraquecimento, anorexia e muita dispnéa” que, por se mostrarem contínuas,
obrigou-o a interromper suas atividades de trabalhador e a novamente buscar atendi-
mento médico, sendo então informado que estava “fraco dos pulmões”.
Foi assim que Herminio explicou as origens de sua moléstia para os tisiologistas
e para os companheiros de infortúnio que conheceu nos vários sanatórios que per-
correu antes de chegar ao Hospital São Luiz Gonzaga. Mas a história do pectário não
termina por aí. No decorrer da anamnese, o fimatoso informou que não fumava, não
bebia e que não tinha sido atingido pelo contágio venéreo; era motorista desde os 16
anos de idade e trabalhava intensamente, chegando a cumprir jornadas de até 20
horas consecutivas.
Herminio também declarou que inexistia casos de tuberculose em sua família e
que sempre gozara de boa saúde até aquele domingo negro, data da primeira hemoptise.
Mais ainda, quando interrogado sobre “outras doenças”, o paciente lembrou que seus
poucos anos de vida haviam sido marcados por uma sucessão de patologias, que iam
desde os males próprios da infância até “defluxos”, “angina purulenta”, “grippe epidemica
de 1918”, “maleita”, “fraqueza” e “bichas”, além de vários acidentes de trabalho.
As confidências feitas por Herminio Francisco da Silva foram narradas em deta-
lhes porque se constituem em uma espécie de paradigma reproduzido, com pequenas
variações, em uma infinidade de prontuários elaborados pelos médicos do nosocômio


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paulistano. Os pectários que buscavam assistência especializada apresentavam um perfil
bem distanciado das observações apregoadas pelos filhos de Hipócrates como marca
dos consuntivos, sendo que os infectados raramente informavam sobre o que os médicos
esperavam ouvir: noites de orgias, vícios depravados, taras hereditárias e também exage-
ros físicos e morais causados por outros motivos que não o trabalho estafante.
O analista cético pode argumentar que nas centenas de prontuários analisados,
os pacientes se empenharam em oferecer àqueles que os inquiriam uma auto-imagem
purificada, não confessando seus ‘pecados’ por pudor ou ainda pelo receio de perder a
chance de se tratar em um sanatório regido pelos princípios religiosos. Entretanto, acredi-
ta-se que, se distorções ocorreram, estas restringiram-se a um número pequeno de casos.
A leitura dos depoimentos registrados pela mão clínica alinham os mais diferentes tipos
sociais, de padres a presidiários, de professoras a domésticas, sendo improvável que
todos esses personagens tenham participado de um mesmo pacto da mentira.
O que era apregoado clinicamente como o modus vivendi típico dos doentes do
peito dificilmente encontrava respaldo nos depoimentos sanatoriais. No lugar dos com-
portamentos desregrados, o que pontuava a existência dos tuberculosos era o trabalho
estafante e as precárias condições de vida, sendo a incapacidade para a tarefa produti-
va o elemento definidor do estado enfermiço. “Eu trabalhava bem”: era esta a frase
empregada pelos doentes para responder à interrogação médica sobre o estado de
saúde anterior à moléstia pulmonar, sendo repetida inclusive pelo “artista e garimpeiro”
Ciciliano de Araujo (P. 551), pouco antes de falecer, em abril de 1937.
Nesta linha narrativa, compunham-se ‘histórias sanitárias individuais’ que, de-
finidas pela sucessão de pequenas e grandes enfermidades, eram geralmente
desqualificadas pelos médicos e pelos próprios pacientes, porque pouco limitadoras
do potencial de trabalho. Percebe-se que a tendência predominante entre os doentes
pulmonares era associar o evento fimatoso com os desarranjos que afetavam direta-
mente o aparelho respiratório, situando-os como raízes primeiras do Grande Mal.
O condicionamento cultural e as poucas décadas que separavam os débeis do
peito das descobertas de Pasteur e Koch impunham que raros fossem os personagens
leigos que tecessem elos entre a Peste Branca e a ação microbiana. O pressuposto do
contágio íntimo era apanágio quase que exclusivo do raciocínio clínico-epidemiológico,
sendo exceção casos como o do açougueiro Odilon Orlanch (P. 1737) que, receando a
convivência diária com o pai tuberculoso, apresentou-se espontaneamente ao exame
radiológico, quando descobriu estar com “mancha discreta no pulmão direito”.
A regra fazia buscar em outros quadrantes a causa primeira da tísica. Tanto entre
os fimatosos analfabetos quanto entre os intelectualizados, a operação explicadora do
estado infectado encontrava suporte em motivos afastados da idéia de contágio. O
sacerdote italiano Paulo Rizzi (P. 543), por exemplo, assim relatou os pretensos ‘moti-
vos’ de sua enfermidade pulmonar:


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