Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página88/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
#16766
1   ...   84   85   86   87   88   89   90   91   ...   115
Vozes da Tuberculose
“Eu me sentia só. Depois que fui internado, parece que não conseguia mais
saber quem era eu próprio. Nem mesmo as brincadeiras dos colegas do sanatório con-
seguiam me dar um pouco de alegria. Eu era solitário.”
Esta confidência feita por um sobrevivente da tuberculose anuncia que nem
mesmo a solidariedade tensa e fraternal que animava a colônia dos infectados oferecia
amparo suficiente para atenuar as angústias geradas pela experiência pessoal com a
moléstia pulmonar.
Desde que o enfraquecido do peito se vira arrebatado da segurança cotidiana da
saúde, sua privacidade fora-lhe pouco a pouco confiscada. Em busca de explicações
para o estado infectado, a família, os amigos, os vizinhos, os religiosos e os médicos
uniam esforços esmiuçadores da vida do tuberculoso, reduzindo-a a objeto de indaga-
ções públicas que tentavam elucidar o processo existencial que transitara da saúde
para a enfermidade.
O isolamento sanatorial constituía-se no momento consagrador de um rito de
passagem que confirmava a descaracterização individual dos tísicos. A padronização
exigida pelas teias hospitalares encontrava desdobramento na ética comportamental
cobrada pela irmandade dos fracassados, colocando em questão a identidade pessoal
dos fimatosos.
Impregnados pela multiplicidade de códigos fomentados pela segregação
institucional, os asilados tendiam a perder os parâmetros de reconhecimento da própria
vida. Os sentimentos de abandono e desalento ganhavam dimensões ainda mais fla-
grantes quando os pacientes mais pobres eram enquadrados na categoria da indigên-
cia. A surpresa dolorida de se ver reduzido a tal rótulo levava os contaminados a se
insurgirem, procurando ao máximo fugir da degradação social resultante da sinistra
combinação entre moléstia e miséria.
Após ter testemunhado a dilapidação da riqueza familiar e de acompanhar as
mortes do irmão e do pai, o jornalista Nelson Rodrigues defrontou-se com a tísica,
sendo sustentado pelo salário simbólico que lhe era dado pelo seu patrão, Roberto
Marinho. A escassez de dinheiro levou o futuro dramaturgo a buscar tratamento gratui-
to na Serra da Mantiqueira, sendo que a classificação de paciente financiado pela
filantropia foi assim recebida pelo memorialista:


192
— O Brown diz que você não pode pagar nada. Você não pode pagar? Um
escrúpulo doeu em mim; mas tomei coragem e respondi, vermelho, mas firme:
— Não posso pagar’. [O tisiologista] Hermínio enfiou as duas mãos nos bolsos
do avental: — Você vai ficar na enfermaria de indigentes. Acho que fiquei bran-
co. No Rio, ouvira falar em ‘indigente’. Mas a palavra me soara impessoal;
havia entre mim e ela uma distância; não me sentira ‘o próprio indigente’. Agora
a indigência me tocava, e comprometia, e feria. (1967:194)
Neste processo descaracterizador, a vida dos infectados tornava-se mais e mais
marcada pela íntima angústia. A sensação de que nada poderia ser feito para corrigir o
rumo que a existência tomara coagia os fimatosos a buscarem relacionar o tempo preté-
rito vivido com o presente infectado, traçando pistas esclarecedoras dos motivos que
os haviam confinado no território desolador da peste. Era o momento em que cada um
dos infectados se defrontava, solitariamente, com a pergunta: “quem sou eu?”.
‘Quem sou eu?’ Terrível equação a ser resolvida pelos tísicos. Nos depoimentos
orais e escritos, essa pergunta aflora como enigma sempre presente, impondo aos
consuntivos a busca de respostas avaliadoras de suas tramas de vida e da própria
condição de pectário.
A necessidade de comparação entre as condições físicas e morais do tuberculoso
e a de outros membros do grupo infectado é uma constante, pontuando as declarações
dos antigos fimatosos. Um ancião, que esteve internado no Sanatório do Jaçanã, ao ser
entrevistado, negou-se polidamente a falar da experiência vivida há mais de meio século
no hospital especializado, limitando-se a uma única observação:
Eu não era igual ao resto dos doentes. Eu era limpo, educado, seguia as regras.
Minha doença era leve, nem precisava ficar internado, mas fiquei. A gente que ia
para o Jaçanã era terrível. Gente suja, desbocada, que não sabia obedecer... A
maior parte daquele pessoal já estava próximo da morte. Eu me curei porque
sabia me cuidar, era esperto.
Os estreitos limites hospitalares ofereciam poucas chances esclarecedoras do
‘eu’, acumulando padecimentos que, se não fossem minimizados, resultariam na morte
provocada como desfecho da trama da vida adoentada. A impossibilidade de articular
a nova identidade reclamada pelo tratamento estigmatizador e pelo cerceamento
institucional favorecia a sucessão de suicídios que feria as mansões da saúde.
Apesar da observação hipocrática que ensinava ser a ‘psicologia do
tuberculoso’ incompatível com a tendência suicida, o número de situações nas quais os
albergados colocavam deliberadamente fim à existência ganhou dimensões significati-
vas no período anterior a 1945, chamando a atenção inclusive do Dr. Napoleão Teixeira.
Em sua tese de cátedra, este médico declarou que, não obstante o silêncio clínico e a
ausência de apoios estatísticos, “são, na verdade, numerosos os suicídios nesta classe
de doentes” (1947:105).
O alerta de que “A limpeza Deus ama”, gravado em placa há décadas fixada
numa das paredes do Arquivo Central do Hospital São Luiz Gonzaga parece exigir
cautela dissimuladora nas anotações médicas referentes aos pectários que se decidiram
pelo abreviamento voluntário da vida. Sentença aberta para múltiplas interpretações,


193
possivelmente também servia como aviso para os clínicos empenharem poucas pala-
vras no registro das situações que poderiam colocar em dúvida a ‘solidariedade cristã’
que, formalmente, direcionava o cotidiano institucional. Mesmo assim, na coleção de
prontuários consultada, foi possível localizar 11 casos de pacientes suicidas, sendo
que na maioria destes registros não houve qualquer tentativa de preservar detalhes
sobre as circunstâncias em que ocorreram tais óbitos.
A única exceção encontra-se na documentação referente à paciente Idalina Galvão
Guimarães (P. 692), uma “dona de casa” oriunda do município de Avaré. Sentindo-se
adoentada há cerca de quatro anos, Idalina primeiramente buscou tratamento com um
“dono de farmacia”, recebendo remédios contra “lombriga”. Como seu estado de saúde
não melhorasse, a mulher procurou um clínico que exercia em Avaré, sendo então
diagnosticada como “doente do figado” e, pouco meses depois, como estando grávida.
Como o farmacêutico e também o médico enganaram-se em suas conclusões,
Idalina permaneceu em casa, perdendo peso e vida até que “um amigo motorista de
caminhão” compadeceu-se de seu estado, encaminhando a doente até a Santa Casa
de São Paulo, onde a paciente soube estar tuberculosa, situação que lhe abriu as portas do
Sanatório do Jaçanã. Nos 11 meses de permanência no nosocômio paulistano, a mulher de
1,74 m. de altura teve seu peso reduzido para menos de 40 quilos, sendo durante todo esse
tempo acometida por pequenas e grandes hemoptises, fato que não impediu que os
tisiologistas declarassem que a pectária “havia melhorado muito desde a sua internação”.
Na noite de 16 para 17 de janeiro de 1937, o sono da tísica certamente foi roubado
pela tosse, pela dor e pelos soluços próprios e alheios, exigindo que a asilada questionasse
a rede de sentidos que a ligara ao universo da infecção. Naquelas horas escuras e assaltadas
pelo desespero, a fimatosa defrontou-se com uma multidão de interrogações irrespondíveis,
resultando na única certeza de que a tuberculose arrebatara-lhe bem mais do que a saúde.
Na manhã seguinte, Idalina sorrateiramente afastou-se dos olhares vigilantes
de suas colegas e dos funcionários da Santa Casa, atirando-se em um poço localizado
em parte erma do terreno hospitalar, perecendo por afogamento. Considerada suja de
corpo e alma e reduzida a um número de inscrição, a escolha da morte pela água
ganhou um sentido purificador. Idalina não precisava mais procurar a identidade da
existência consuntiva.
O suicídio, contudo, não era opção disseminada entre os pacientes que, pelo
contrário, lutavam pela multiplicação dos dias de vida. As tentativas de compreender a
tragédia pessoal incitavam os fimatosos a examinarem suas trajetórias, procurando as
possíveis ‘causas’ para o advento da infecção. Uma pequena parcela de como os
doentes do peito explicavam o encontro individual com a Peste Branca acha-se preser-
vada nos registros das anamneses realizadas pela clínica.


Baixar 1.56 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   84   85   86   87   88   89   90   91   ...   115




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal