Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C


parte dos doentes. Si elas têm medo por que vêm aqui? Isto aqui é nosso. Aqui o



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página85/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
1   ...   81   82   83   84   85   86   87   88   ...   115

parte dos doentes. Si elas têm medo por que vêm aqui? Isto aqui é nosso. Aqui o
doente se sente à vontade, como se estivesse em casa.
Na mesma perspectiva de contraste, outro tísico acrescentou: “Algum dia ainda
vamos vêr, por aquí, doente meter faca na barriga de gente sã!” (Nogueira, 1945:32)
A consolidação da identidade grupal colocava em confronto mesmo os
tuberculosos que ocupavam diferentes lugares nas malhas sanitárias. Um antigo fimatoso
que recebeu tratamento em vários sanatórios localizados nas estâncias climáticas de
São Paulo afirmou que somente nas casas de saúde filantrópicas é que verdadeiramente
reuniam-se condições para a cura dos pulmões. Isso porque, enquanto as normas eram
‘rigidamente seguidas’ nos hospitais para indigentes, nos ‘sanatórios para ricos’ – e
neste ponto ele citou o joseense Sanatório Ezra, mantido pela colônia israelita – a vida
era tão agitada como se os doentes vivessem em um ‘hotel de grã-finos sadios’, não
oferecendo oportunidade para o necessário repouso dos pacientes.
Seguindo a mesma orientação, outro informante confidenciou que as pensões
que acolhiam os tuberculosos eram “verdadeiros clubes de cafajestes”, concluindo


188
que os hóspedes destas casas “não levavam a sério qualquer tipo de ordem médica,
fingindo-se de sadios para se divertir na cidade”.
Dando continuidade à operação classificadora dos vários segmentos que compu-
nham a irmandade, os consuntivos buscavam ainda se distinguir dos demais núcleos
de infectados por meio da divulgação de intensos elogios ao tisiologista responsá-
vel pelo tratamento dos pacientes de um determinado sanatório. A dependência nutrida
pelos doentes em relação aos seus médicos frutificava em louvores que convergiam
para a qualificação do facultativo como ‘o melhor de todos os especialistas’ atuantes
na região (senão do país) e que ele estava realizando pesquisas que um dia resultariam na
descoberta do agente curativo da tuberculose.
Esse tipo de falatório atingiu inclusive o Dr. Ruy Dória. Logo após a capitulação
italiana na Segunda Guerra Mundial, este médico visitou a cidade de Nápoles, onde
estagiou em vários hospitais e aprendeu a técnica de aspiração endocavitária, recurso
clínico desenvolvido a partir do ano de 1938 pelo médico Victorio Monaldi. Ao regres-
sar a São José dos Campos, o Dr. Dória deu início à prática de drenagem com aspiração
das cavernas pulmonares, fato que permitiu que muitos dos seus pacientes atestem até
hoje que o tisiologista brasileiro inventou tal intervenção, contribuindo definitivamen-
te para o esforço mundial de cura da Peste Branca.
Apesar das tensões e conflitos que agitavam a irmandade dos fracassados, a
idéia de agrupamento diferenciado prevalecia, dando consistência ao universo dos
tuberculosos. A perda diária de membros e a incorporação de novos ‘irmãos’ não
impedia a vigência de uma espécie de código ético entre os infectados, favorecendo
inclusive a composição de uma infinidade de gírias que tornava o diálogo travado entre
os fimatosos quase totalmente fechado para os ‘outros’, isto é, para os personagens
que não estivessem diretamente envolvidos com o cotidiano dos infectados.
A consulta à pesquisa elaborada por Oracy Nogueira (1945) e a conversa com
antigos pacientes de sanatórios permitiu o acesso a cerca de uma centena e meia de
gírias empregadas pelos pectários. Mais do que um código que permitia o sigilo das
conversas mantidas entre os doentes do peito, percebe-se o temor dos tísicos em
pronunciarem o nome de tudo o que se referia à condição enfermiça, como se a anulação
das referências diretas à doença e aos seus desdobramentos tornasse mais leve a pena
imposta pela corrupção pulmonar.
Nas conversas entre os fimatosos ‘micuim’ ocupava o lugar de bacilo de Koch,
‘arriar a asa’ ganhava o sentido de fazer toracoplastia, ‘mariquinha’ era referência pre-
ferida para escarradeira de bolso e ‘curado’ servia como sinônimo de morto.
Parece que os pectários evitavam a todo custo chamar a doença do peito e o
estado enfermiço pelas suas designações próprias, substituindo-as por uma pluralidade
de expressões. A doença, doença ruim, doença que não se fala o nome, a filha da puta,
o mal, insidiosa, lolose, magrinha, meu xodó e brasileirinha eram alguns dos nomes
emprestados à tuberculose.
O adjetivo tuberculoso, por sua vez, ganhava ramificações surpreendentes:
avenca, baleado, bichado, bicicleta, bombardeado, cabide, cagado, carunchado, caver-
noso, chumbado, chuveiro, colega, companheiro, condecorado, comunista, derrotado,
doente, dragão, estegomia, fariseu, fibroso, ficho, fracassado, fundo, granfino, guarda-


189
chuva, girassol, goiaba, imprestável, inocente, irmão, jacobino, metralhadora, nazista,
pêssego, palito de fósforo, patrício, pinhão chocho, pinhão cozido, réco-réco, spitfire,
ter somente o chassis, tepê, trinta e três e turista.
As consuntivas consideradas bonitas e volúveis recebiam ainda uma outra
designação: Vivien Leigh. E isto porque, segundo um depoente, a atriz norte-americana
estava no “auge da infecção quando atuou esplendidamente em  ...E o Vento Levou”,
sucesso cinematográfico no ano de 1939.
Neste contexto, os contornos da irmandade ganhavam dimensão nova, fazen-
do de todos os sanatórios a nação dos fracassados que trocavam informações e
angústias. A rotina da busca da saúde impunha que um mesmo enfermo percorresse
seguidos hospitais especializados, até que a morte, a cura ou o desânimo colocasse
fim à sofrida peregrinação.
As imagens igualadoras dos consuntivos resultavam na concepção da existên-
cia de um território descontínuo no espaço, mas abrangente como rede. Isso permitia
que, independentemente das trajetórias sociais e das reações individuais frente à mo-
léstia, os infectados vislumbrassem a participação em um grupo uniforme, composto
sob a égide da peste:
Um tuberculoso é um elemento sem pátria, nem fronteiras (...). Um ladrão
chinês é um ladrão chinês, diferentíssimo do ladrão turco, brasileiro, norte-
americano, a começar pelas coisas que furta, como furta, etc... Um sujeito ho-
nesto é também diferente em cada país, como o gigolô, o político, o funcionário
público, o vendedor ambulante. Mas um tuberculoso é o mesmo em qualquer



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   81   82   83   84   85   86   87   88   ...   115


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal