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S
ELANDO
 
O
 D
ESTINO
 
DA
 I
RMANDADE
O ‘exílio’ conjunto machucava cada um dos tísicos ao mesmo tempo que incita-
va os infectados a organizarem um espaço de sociabilidade próprio. A tendência ao
rompimento dos laços familiares – que muitas vezes não eram cultivados nem mesmo
por meio da troca de correspondência – assim como a marca dos múltiplos estigmas
favorecia a consolidação de um ‘espírito de corpo’, determinando que os próprios
tuberculosos se definissem como membros de uma ‘irmandade’ cuja condição ultrapas-
sava o estado infectado para se constituir na desoladora imagem do ‘fracassado’.
A reiteração destes termos, inclusive nos depoimentos prestados aos clínicos
do Hospital São Luiz Gonzaga, fazia com que os pectários cobrassem a existência de um
espaço geográfico e social exclusivo para eles próprios. O cerceamento da liberdade
dos fimatosos de peregrinar pelas áreas presumivelmente habitadas pelos sadios resul-
tava em constantes conflitos. No bairro paulistano do Jaçanã, um depoente informou
que eram corriqueiras as reclamações dos moradores da região que, apesar de terem
suas residências distanciadas por quilômetros do sanatório da Santa Casa, mesmo
assim protestavam junto à diretoria do nosocômio, exigindo que os enfermos fossem
mantidos presos no terreno hospitalar.
Parece que a situação era ainda mais tensa nas prefeituras sanitárias. Neste
contexto, os fracos do peito contrapunham-se aos moradores sadios e aos turistas
que freqüentavam as estações de cura, estabelecendo os limites de interação entre o
‘nós’ e os ‘outros’. Refletindo estes contrastes, uma consuntiva internada em um
hospital localizado na Serra da Mantiqueira assim se referiu à questão quando ques-
tionada pelo pesquisador:
Eu sinto isto aqui como uma coisa nossa. Tenho a impressão de que aqui o doente
nem tem obrigação de tomar o cuidado que tem lá em baixo. Para mim, a pessôa
sã que vem a Campos do Jordão não tem nenhum direito de exigir cuidado da


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