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A R
ONDA
 
DA
 M
ORTE
O cotidiano hospitalar tinha como gerador máximo de tensão as ocasiões de visita
do Ceifeiro Implacável. Nestes instantes, tornava-se impossível para os médicos encena-
rem otimismo, assim como as relações jocosas que buscavam animar o exílio dos infectados
ganhavam as cores do mau gosto. O silêncio que imperava nestas horas de desespero
dava vez para que o valetudinário revelasse todas as suas dores físicas e morais, por meio
de palavras desencontradas e dos gemidos que denunciavam a agonia feroz proporcio-
nada pela respiração deficiente e pelo dilaceramento do tecido pulmonar.
O medo da morte prometida aos fimatosos encontrava como elemento dissimulador
os reiterados pedidos feitos aos médicos e aos enfermeiros para que falassem um pouco
mais sobre o estado dos pulmões do interpelante. A piedade exigida pela profissão da
saúde impunha que as respostas convergissem irremediavelmente para as “boas possibi-
lidades” de cura do paciente, principalmente quando o avalista fosse ele próprio vítima da
Peste Branca. Foi com estas palavras que o enfermeiro Duarte tentou iludir uma paciente
que, próxima da morte, suplicava algumas sentenças de conforto:
A senhora tenha paciência, a senhora vê, eu também sou doente e estou me
recuperando. A senhora vai ficar boa e voltar a viver com sua família. Tenha
coragem, muita coragem... Nossa Senhora vai ajudá-la a sarar...
A suspeita de que os profissionais da saúde falseavam as respostas pedidas
pelos tísicos incitava os asilados a elaborarem avaliações próprias sobre o estado em
que se encontravam suas cavernas pulmonares, buscando indícios comprovadores da
marcha infecciosa. A insistente presença de tuberculosos nos recintos onde permane-
ciam engaiolados os animais que serviam como cobaias revelava-se como estratégia
tranqüilizadora dos doentes que queriam saber se não estavam sendo enganados pelos
especialistas na doença pulmonar.
A inspeção contínua e apaixonada das cobaias era prática corriqueira entre os
enfermos que torciam para que os indicadores vivos não apresentassem sinais da
infecção, pois o óbito do animal era o mais flagrante alerta de que a morte rondava os
tísicos. A depoente Raquel Pereira retratou vivamente a ansiedade que tomava conta
dos pacientes que visitavam os laboratórios, ambiente que formalmente era privativo
dos técnicos sanatoriais:


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A gente fazia exames de inoculação na cobaia. Extraíam da gente suco gástrico e
inoculavam a substância nos bichinhos. Se a cobaia não morresse dentro de três
meses, os médicos matavam a cobaia e a examinavam. Se a cobaia estava boa de
saúde, então a gente estava praticamente curada. No começo eu inoculava cobaia
e elas morriam em pouco tempo. Era porque o bacilo de Koch estava presente. Eu
ficava desesperada...
O sentimento de salvação também encontrava fundamentos na reação do animal
utilizado nos testes:
Eu fiz o suco gástrico, inocularam a cobaia e ela foi engordando, ficando boniti-
nha. A gente já sabia antes do médico que a gente estava melhor. Eu e minhas
amigas íamos muito visitar nossas cobaias, isto é, os bichinhos que tinham rece-
bido nosso material. Se a cobaia continuasse normal, comendo direitinho, engor-
dando, era porque a gente estava negativo. Minha última cobaia estava bonitinha.
Ela corria na gaiolinha, assim, disposta e gordinha, comia bem tudo o que era
dado... Daí eu fiquei convencida que tinha sarado. No fim dos 3 meses mataram
a cobaia e ela e eu estávamos negativo...
A constatação do desaparecimento do germe tuberculoso no corpo do paciente
não afastava de todo o temor do fim iminente. A consciência de que a Peste Branca era
‘doença caprichosa’ alimentava o sentimento de insegurança de todos os enfermos. A
qualquer instante, o curso da enfermidade poderia reverter marcha, arrebatando inespe-
radamente a vida.
Se a anorexia progressiva deixava claro que o óbito ocorreria em breve, a
hemoptise repentina e mortal poderia ganhar espaço, mesmo naqueles que a tisiologia
diagnosticava como próximos da cura. As anotações clínicas e a lembrança dos
infectados acumulam registros semelhantes ao que aconteceu com a pectária Laura
Peres (F. 343): “Quando se pensava que o caso ia ter desfecho favoravel, teve hemoptyse
fulminante, fallecendo em 5 minutos, na manhã de 27 de novembro de 1935”.
Nesse ambiente contaminado pela morte, os sanatórios criavam situações
dissimuladoras da agonia dos pacientes terminais, fazendo uso de um conjunto de
artifícios que tentavam minimizar a série contínua de óbitos. Principalmente nas casas
de saúde que acolhiam os tísicos mais abonados, existiam grupos de servidores
especializados em retirar dos quartos os pacientes em estado agônico ou já falecidos,
numa discrição tal que muitos enfermos nem se davam conta do ocorrido, fechando
silêncio sobre o súbito desaparecimento do hóspede adoentado.
Se a engenharia hospitalar aconselha até hoje que os necrotérios devem ocupar
espaço isolado na planta dos nosocômios, a arquitetura sanatorial levava esta orienta-
ção ao extremo, posicionando as morgues e os pavilhões para os valetudinários em
áreas muito afastadas dos centros de vivência dos infectados. Sob a alegação de que a
morte de um dos fimatosos ampliava os medos e agravava o estado da saúde dos
demais tuberculosos, os hospitais chegavam até mesmo a proibir a presença dos pectários
nas cerimônias fúnebres em memória dos seus colegas, impedindo que se prestasse as
últimas homenagens ao falecido. Solitários em vida, mesmo depois do óbito os
consuntivos sofriam da dolorosa ausência de companhia.


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Mais uma vez é Dona Raquel quem fala sobre o encaminhamento da morte na
mansão da saúde capitaneada pelo Dr. Ruy Dória:
A gente ficava triste quando sabia que uma amiga estava mal, que não tinha mais
condições para sobreviver. Então um dia, quando chegava a ponto que tiravam
aquela pessoa do convívio da gente, porque o Dr. Dória não queria que a gente
visse ela morrer. Então, eles levavam a pessoa para um pavilhão que ficava bem
no fundo do terreno do sanatório, onde a gente nunca podia entrar. O pavilhão tinha
até um apelido que não era muito agradável: ‘Vai’. Quem ia para lá, ia mesmo. Vai...
‘Ah, fulano foi para o Vai’. Então a gente sabia que a pessoa ia morrer. A gente
ficava muito triste...
Porém, a escassez de equipamentos e funcionários e a exigüidade das acomodações
– características das casas de saúde mais pobres – permitia que freqüentemente o óbito se
desse em espaços coletivos dos sanatórios, sendo presenciado por todos os doentes.
A progressão da moléstia pulmonar fazia com que, eventualmente, os grandes
vasos sangüíneos fossem dilacerados, abrindo possibilidades para que o enfermo se
engasgasse pela continuidade dos vômitos vermelhos. Nestas ocasiões, medo e soli-
dariedade, tristeza e repugnância, angústia e nojo se confundiam, dando forma ao
comportamento das desesperadas testemunhas que receavam estar presenciando o
que – mais dia, menos dia – a tísica lhes estava reservando.
Um longo trecho assinado por Nelson Rodrigues (1967:192) relata os momentos
de agonia e morte de um cantor de tango que, nascido em Jaboticabal, tornou-se famo-
so nos bordéis do cais santista. Contaminado pela tuberculose, o artista perdeu tudo,
da voz à esposa, encontrando a morte no Sanatorinho jordanense:



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