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partes dos habitantes da urbe



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partes dos habitantes da urbe.
Na confusão produzida pela crise sanitária, um médico bateu por engano na
porta da residência da família Marmo, salvando a vida da parturiente e de seu fruto,
assim como socorreu alguns vizinhos que tinham sido assaltados pela ‘gripe espanho-
la’. Este foi o primeiro milagre creditado ao menino santificado (Barata, 1938).
A infância de Antoninho foi marcada por acontecimentos surpreendentes. Para-
lelamente a um conjunto de enfermidades que colocaram em risco a vida da criança
franzina, o menino demonstrava profundo apego religioso, tornando-se íntimo de várias
ordens religiosas, inclusive daquela que agregava as freiras que atuavam como enfer-
meiras nos hospitais administrados pela Santa Casa de Misericórdia paulistana.
Aos 5 anos de idade, uma nova provação marcou a trajetória do pequeno: a
tuberculose. Por exigência do pai – que ocupava o cargo de chefe da polícia política de
São Paulo – Antoninho foi assistido por médicos em sua própria residência, decisão
que perdurou até 1925, quando o infectado foi proibido de comparecer às aulas no
Grupo Escolar Prudente de Morais. Na seqüência, o tísico foi enviado para continuar o
tratamento no município de São Roque e, logo depois, para a cidade de Santos, sendo
que o agravamento de seu estado de saúde tornou inevitável o isolamento nas esta-
ções de cura de Campos do Jordão e São José dos Campos.
A permanência de Antoninho nas estâncias climatoterápicas contribuiu para a
vulgarização das qualidades singulares que seriam exploradas para justificar a santida-
de do fimatoso. Mesmo padecendo com o contínuo depauperamento do físico, o meni-
no nunca se queixou do desconforto produzido pela consunção, preferindo ocupar
seus últimos anos de existência pregando o nome de Deus, visitando os tísicos, ampa-
rando os indigentes, diagnosticando casos de tuberculose inaparente, aconselhando


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os desesperados, servindo de advogado aos réus destituídos de defensores, predizen-
do o futuro, localizando pessoas e objetos perdidos, encenando a celebração de missa
e sobretudo adorando a Deus e ao Papa Pio XI, que do Vaticano comandava os rumos
da comunidade cristã.
Seguindo o encaminhamento biográfico calcado na trajetória de vários santos e
mesmo na de Jesus Cristo, dizia-se que o menino analfabeto fizera-se mestre, corrigindo
e ensinando a todos, inclusive aos tisiologistas que aprenderam com o ‘prodigioso
doentinho’ diversas maneiras de identificar precocemente os casos de infecção kochiana.
Mesmo que soubesse da brevidade de sua existência e da incapacidade médica em
resgatá-lo das garras da morte, o ‘santo heróico’ submetia-se passivamente à orienta-
ção clínica, sem nunca se indispor contra a junta de especialistas recrutada para prolon-
gar-lhe a vida.
A morte por caquexia colheu Antonio da Rocha Marmo no dia 22 de dezembro
de 1930, momento em que já estava estruturado o culto em louvor do pequeno
tuberculoso. Como modelo comportamental, a biografia idealizada para o Santo
Antoninho mostrava-se conveniente para aceitação tanto pelos médicos quanto pelos
enfraquecidos do peito.
Os profissionais da saúde instigavam a devoção ao menino inclusive porque
Antoninho servia de paradigma do ‘bom paciente’, sabendo perdoar as lacunas médi-
cas e, mais do que isto, seguindo com rigorosa obediência os ensinamentos sanitários
que evitavam a disseminação do bacilo de Koch.
Os tísicos, por sua vez, uniam-se na adoração do ‘mártir da peste’, sobretudo
porque a trama de vida do santo aflorava como uma das raras histórias em que o
tuberculoso não despontava como fruto pervertido e perversor da sociedade, mas sim
como um ‘puro’, que pela dor ganhou sublime dignidade. Num ambiente no qual o
próprio Papa Pio XI insistia em proclamar a enfermidade como forma divina de punição
aos pecadores, a constante invocação dos feitos do Santo Antoninho apresentava-se
como um dos poucos consolos aos contaminados, sendo que o culto ao ‘santinho’
ramificou-se tanto nas capelas da cristandade quanto nos centros espíritas.
No ambiente ferido pela solidão, pelos temores e pela fé coletiva, a tuberculose
tendia a ser redefinida como uma entidade lúdica, passível até mesmo de abordagens
humorísticas. Os doentes que ‘viviam escarrando os pulmões a prestações’ riam da
doença e da morte para exorcizar o sentimento de exclusão e o terror ao fim dolorido.
Nos momentos em que a euforia tomava os recintos de tratamento, a ‘bruxa chu-
pada’ era empregada como tema inspirador de paródias que faziam as lágrimas cederem
vez ao sorriso encabulado. Nestes instantes, os versos lamurientos e desesperados dos
fimatosos Auta de Souza e Augusto dos Anjos eram substituídos pela ironia improvisada
e cantada em grupo. O estatístico Tulo Hostílio Montenegro (1971), membro de uma
família dizimada pela Peste Branca, preservou os seguintes versos de autoria coletiva:
Cidade tuberculosa,
Cheia de micróbios mil,
Cidade tuberculosa,
Sanatório do Brasil.


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A alegria postiça instigava os compositores de ocasião a apurarem ainda mais
suas ousadias, dando versão surpreendente à letra de um conhecido tango argentino:
Besame, besame mucho, pero aquí en la frente,
No, no, ne la boca no mes beses no!
Quiero que vivas aunque yo me vaya,
Quiero que vivas, aunque muera yo.
O medo e a dor, quando vividos continuadamente, acabaram sendo requalificados
como sinistros e inevitáveis companheiros dos pectários.


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