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Andam de cama em cama, os doentes fazem-nas dormir, dão-lhes banhos, ra-
lham com elas e, às vezes surgem brigas e rusgas na ‘Dorcas’ por causa das
reinações das crianças.
Madalena se desvela com seus filhos. Pudera! É mãe! Se uma doente está pas-
sando melhor e pode levantar-se, vai logo carregar o Rubinho. Outras doentes
protestam contra o desdém que estão votando à Juditinha. Madalena diz que não
quer que façam distinção entre os filhos, para êles não crescerem cheios de...
vontades.
E quando discutem as doentes? Não tarda a surgir a mãe das bonecas a recla-
mar silêncio, porque as crianças estão dormindo. (...) E na hora do repouso
absoluto, dá gôsto ver aquela mulher gorda, corada, de seios fartos, estendida
em seu leito, apertando nos seus braços roliços o Rubinho e a Juditinha, que dão
a idéia exata de duas criancinhas dormindo sossegadamente, ao passo que ela
as afaga com tanto desvêlo, entoando baixinho uma canção que mais parece um
gemido de rôla. (1944:59)
Paralelamente às divagações solitárias, os tuberculosos tentavam se ajudar
mutuamente, centrando as conversas na experiência coletiva com o Grande Mal. O
contato estendido no tempo incitava o compartilhamento dos destinos, solidarizando-
se na confissão dos medos e das esperanças aqueles que se sentiam filhos da morte.
A ameaça do esquecimento familiar e do fim solitário coagia os enfermos a
falarem sobretudo do que a medicina sanatorial tentava coibir: a doença e suas con-
seqüências para a existência dos infectados. Nestes encontros, os indivíduos aproxi-
mados pela Peste Branca trocavam informações, comparavam as habilidades dos
clínicos e a eficiência das estratégias terapêuticas, tornando-se a tal ponto íntimos da
nomenclatura tisiológica que, passados tantos anos desde a experiência pessoal com
a enfermidade, ainda hoje os sobreviventes empregam os jargões médicos sem cair
em enganos.


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Nesses diálogos também se faziam presentes os fatos que agitavam o universo
hospitalar. A recordação oral ou escrita de casos que chamaram a atenção dos doentes
do peito sugere que tais eventos tenham sido contados e recontados, permitindo que
os detalhes das tramas não fossem relegados à penumbra do esquecimento.
As referências à imperfeição moral dos fimatosos são uma constante instrutora
das estórias guardadas na lembrança dos pectários, fazendo das debilidades humanas
as grandes personagens das narrativas. Neste processo, Nelson Rodrigues fez questão
de incluir em suas memórias o fato da morte de um infectado ter sido despudoradamente
comemorada pelo irmão do falecido que, também tuberculoso, ambicionava tomar pos-
se das roupas elegantes que o finado havia trazido para o sanatório.
A descrição deste caso delimita as situações aberrantes que ganhavam o inte-
resse dos asilados:
Oswaldo foi enterrar o irmão e voltou correndo do cemitério. Eu o vejo chegar,
com as ventas arregaladas. Arremessou-se para as roupas do morto e as pos-
suiu, ali mesmo, à nossa vista. Atracava os paletós, as calças, as camisas, como
um sátiro brutal; e dizia: — Foi Deus que mandou meu irmão para cá. Eu estava
sem roupa. Andava de calça furada. Virou-se e mostrou os fundilhos. O remendo
aparecia, deslavado. (Rodrigues, 1967:150)
Acompanhando esta tendência, a pesquisa realizada pela professora Nelly de
Toledo Cesco (1992) colecionou depoimentos de antigos contaminados, sendo que os
casos quase sempre deságuam na vala da ingratidão e do egoísmo imputados aos
consuntivos. Um dos casos mencionados envolve um capixaba que se transferiu para o
Sanatório Vicentina Aranha em conseqüência da tuberculose que corroía seus pulmões.
Na condição de pensionista da mansão da saúde, o enfermo exigiu que sua
esposa, mesmo que sadia, permanecesse residindo no hospital e inclusive partilhas-
se de seu leito, fato que em pouco tempo resultou no contágio íntimo. Quando o
marido viu-se livre da infecção, ele abandonou a mulher, partindo para destino igno-
rado, pouco depois de ter solicitado a transferência da companheira para o pavilhão
dos indigentes, local onde a paciente encontrou a morte, sem ter qualquer notícia
sobre o paradeiro do marido.
Para além da rememoração dos acontecimentos atribuídos à deformação dos
sentidos produzida pela tuberculose, as conversas entre os doentes do peito ganha-
vam prolongamento quando alguém passava a enumerar as curas milagrosas de pectários
que haviam sido diagnosticados como “casos perdidos” pela perícia hipocrática. A
fragilidade do arsenal tisiológico e os óbitos seriados fazia com que os consuntivos
buscassem amparos e esperanças nos ensinamentos religiosos, sendo que os próprios
servidores dos sanatórios incumbiam-se de fomentar o culto e as novenas em louvor
aos santos que haviam padecido da moléstia pulmonar.
A condição ‘liminar’ imposta aos tuberculosos permitiu que alguns deles fos-
sem reconhecidos como santos, tornando-se alvos de veneração pública e especial-
mente dos infectados. Alguns entrevistados lembraram-se que, nos anos 30 e 40, ga-
nharam intensidade as romarias ao túmulo de José Ezequiel Freire, localizado na cidade
vale-paraibana de Caçapava.


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Poeta, jornalista e professor da Faculdade de Direito de São Paulo, Ezequiel
Freire abandonou suas múltiplas atividades na capital dos paulistas para tentar a recu-
peração da saúde na Serra da Mantiqueira, falecendo no ano de 1891. Enterrado à
sombra de um salgueiro, a árvore começou a verter água, atraindo as primeiras atenções
para o túmulo do poeta. Anos mais tarde, quando a família mandou erguer uma lápide
marmórea junto ao túmulo, esta também começou a ‘chorar’, resultando na ‘santificação’
popular de Ezequiel Freire, consagrado como protetor dos tuberculosos.
Apesar da fama milagrosa alcançada por Ezequiel Freire, ninguém destacou-se
mais que o menino Antonio da Rocha Marmo que, apesar de nunca ter sua santidade
reconhecida pela Igreja Católica Romana, constituiu-se no principal e mais duradouro
alvo nacional das prédicas dos tuberculosos. A ampla aceitação do poder miraculoso
do ‘santinho’ propiciou a continuidade do culto em sua homenagem, sendo que a
versão popularizada da vida do ‘virtuoso servo de Deus’ era assunto de referência
obrigatória durante os encontros que aproximavam os hóspedes das casas de saúde.
O que guarda de peculiar a biografia do Santo Antoninho para colocá-lo como
vulto cristão adorado pelos infectados? Antonio da Rocha Marmo veio à luz no dia 19
de outubro de 1918, em um sobrado localizado no centro da cidade de São Paulo. A
sobrevivência da mãe e do recém-nascido parecia incerta, ainda mais porque o parto
aconteceu prematuro e não havia facultativo disponível na Paulicéia que, naquele perí-
odo, lutava contra uma epidemia gripal que vitimara não menos do que duas terças

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