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participarem das tarefas de apoio ao funcionamento hospitalar, ocupando no máximo



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participarem das tarefas de apoio ao funcionamento hospitalar, ocupando no máximo
duas horas diárias com serviços que variavam desde o auxílio aos médicos e enfermeiros
até as funções de faxina, jardinagem e alimentação dos animais pertencentes ao nosocômio.


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Muitas vezes os próprios infectados encarregavam-se de motivar seus compa-
nheiros para a realização conjunta de trabalhos que demandassem pouco dispêndio de
energia. No Sanatório Ruy Dória, por exemplo, um depoente informou que os elogios
dirigidos a algumas tuberculosas que tricotavam cachecóis e pulôveres para presentear
os médicos da casa resultaram na montagem de uma espécie de linha de produção de
roupas. Com isso, as vestimentas passaram a ser vendidas à comunidade joseense, não
sem antes percorrerem um criterioso processo de esterilização.
A limitação do tempo diário para a realização de tarefas gratificantes fazia com
que os prisioneiros das mansões da saúde contassem ainda com muitas horas livres a
serem preenchidas de algum modo. Nestes longos períodos de espera da cura ou da
morte, pouca coisa podia ser feita, determinando que os doentes do peito se empenhas-
sem em driblar o tédio por intermédio da minuciosa verificação do cenário natural e do
ambiente social que os circundavam.
O regulamento institucional que impunha seguidos períodos de silêncio fazia
com que os tísicos flutuassem entre as recordações de um passado no qual a doença
não existia e a veneração dos eventuais transeuntes sadios. Talvez ninguém melhor
que o poeta tísico Rodrigues de Abreu tenha anunciado o voyeurismo que reinava
entre os infectados. Confinado às galerias de cura dos distritos sanitários, o escritor
compunha versos que se prolongavam na contínua repetição de quem passivamente
observa a vida:
A brasa do sol que caíu na montanha
accendeu o cachimbo de um deus solitario.
Vêm de lá espaçadas baforadas,
nuvens leves que se vão diluindo no ar. (1933:73)
Na seqüência de suas composições, o ‘poetinha’ – como Rodrigues de Abreu
era chamado pelos colegas modernistas – enriqueceu o foco de atenções, refletindo a
fascinação dos consuntivos pelos corpos belos, pois sadios:
Na manhã de Domingo
pela estrada illuminada
passa uma menina loura. (...)
Fico a olhá-la, feliz, curvando-me da grade.
Como é linda a menina loura!
Ella não tem receio algum dos pobres tísicos,
pois sabe que os pobres tísicos
é que dão vida a esta villa sombria.
Ainda de longe ella volta a cabeça e me espia.
Faz o gesto do adeus esquecido ainda ha pouco...
Linda menina loura!
Moeda doirada de saude,
fulgindo ao meu olhar cubiçoso de doente!
Ao mesmo tempo que verificavam a paisagem e os caminhantes à distância, os
exilados tentavam rememorar os momentos da vida que um dia fora saudável, lembran-
do das pessoas amadas, dos amigos que viraram as costas ao saber da presença


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tuberculosa e também daqueles que surpreenderam pela troca da apatia pela repentina
solidariedade ao serem informados sobre o estado contaminado de um conhecido.
Paulo Dantas, Paulo Setubal, Nelson Rodrigues e Antônio Olavo Pereira, dentre
outros entisicados, formam o grupo de memorialistas que narraram as doloridas divaga-
ções que assaltavam os fracos do peito nas horas de inércia passadas nas cadeiras de
lona e nos leitos das enfermarias, forçando os infectados a uma solidão que era difícil de
ser quebrada até mesmo pela companhia de outros colegas de desgraça.
A dificuldade de compartilhar os dramas e os medos mais íntimos incitava os
doentes a adotarem mascotes como queridos e cômodos confidentes. A presença de
cachorros, gatos e passarinhos é um referência constante nos depoimentos dos antigos
pectários, sendo que os animais eventualmente podiam ser substituídos por objetos que
favorecessem o resgate da ‘condição humana’ negada às vítimas da Peste Branca.
No Sanatório Vila Samaritana, por exemplo, a proibição das visitas infantis fez
com que uma tuberculosa assumisse um casal de bonecos como filhos, fato que logo
cativou todo o pavilhão de mulheres que passou a disputar com a doente Madalena –
‘mãe legítima’ de Rubinho e Juditinha – o direito de mimar as ‘crianças’, dando oportu-
nidade para que o jornalista Dias Leme registrasse cenas pungentes como as seguintes:


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