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Quem trabalhou em sanatórios de tuberculosos, como foi o meu caso, conhece a
expressão “ouvido de tuberculoso” (...). Também se falava no “tesão do
tuberculoso”, o que causava grande aflição nas freiras que cuidavam do sana-
tório, e que, às vezes, passavam a madrugada vigiando as portas que separa-
vam as alas masculinas e femininas. (1992:11)
O peso da imagem do fimatoso como um indivíduo sexualmente pervertido ani-
mava os médicos, os religiosos e mesmo os pacientes a unirem esforços para localizar e
punir os eventuais transgressores de uma ordem que fundia num só caldo puritanismo
moral e chances de recuperação da saúde. É Dona Raquel quem narra um caso em que
a delação acionada por uma enferma somou-se ao rigor punitivo do médico e proprietá-
rio do Sanatório Ruy Dória:
Havia muita relação sexual escondida no sanatório; as pessoas saíam e iam se
relacionar no lugar certo, no hotel ou no mato... Uma vez houve um caso entre um
homem casado, vindo de São Paulo, e uma moça bonita e solteira. Ele se apaixo-
nou por ela, foi uma paixão violenta. A moça repartia o quarto com uma outra
doente e, numa madrugada, esta companheira acordou e viu o casal junto, na
cama. Imediatamente o homem pulou a janela do quarto – que ficava sempre


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aberta – e a enfermeira de plantão não viu nada. Na manhã seguinte, nossa!, foi
um escândalo. A colega que viu tudo foi cedinho no consultório do Dr. Dória e
contou tudo, exigindo que o doutor fizesse alguma coisa. O Dr. Dória ficou tão
brabo que na mesma hora mandou chamar os dois namorados e deu um prazo de
24 horas para eles abandonarem o sanatório, dizendo que enquanto eles não
saíssem, ele não cuidaria de mais ninguém que estivesse internado lá. A moça
começou a chorar muito e o moço pediu pelo amor de Deus para que o Dr. Dória
não fizesse aquilo. Aí o Dr. Dória falou: ‘Não, eu não posso deixar vocês ficarem,
eu acho que vocês foram ao extremo. Se vocês quiserem continuar o tratamento
comigo, pode, mas só no consultório; morar aqui, nunca mais’. Aí os dois saíram,
foram morar numa pensão e continuaram o tratamento com o Dr. Dória. No final,
ele morreu e ela sarou e casou com outro.
A seqüência de casos de exclusão contribuía ainda mais para sustentar os antago-
nismos que impregnavam os ambientes de cura, ditando os limites da convivência entre
os doentes do peito e destes com os profissionais da saúde. Em resposta ao ordenamento
institucional, os tísicos tendiam a burlar os aparatos de vigilância, identificando os
médicos, os enfermeiros e os religiosos que serviam nos sanatórios como responsáveis
exclusivos pelas exigências muitas vezes destituídas de valia para o processo terapêutico.
Ao mesmo tempo, a ambição pelo restabelecimento da saúde coagia os enfermos à
passividade frente ao norteamento clínico, conferindo intensidade às contradições que
marcavam a relação entre os pacientes e os funcionários dos nosocômios.



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