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[Os clínicos] são uns camaradas que não se dedicam às pesquizas. Êles aqui só
vêem no individuo dos pés a cabeça um pulmão. E assim mesmo um pulmão
como fonte de renda e não como fonte de pesquizas, de estudos cientificos. Veja
mesmo o caso do seu médico, o Dr. Aranha, que bem merece o apelido de Dr.
Cifrão. O homem de tanto ganhar dinheiro e se meter em negócios já adquiriu
até uma semelhança extraordinária com um judeu. Parece um cifrão em pé. Êle
é médico, dono de pensão, socio de padaria, alugador de casa, tudo enfim.
(Dantas, 1950:107)
Eram freqüentes também as situações em que os pectários buscavam burlar as
ordens impostas, encontrando cumplicidade nos iguais na doença, inclusive nos enfer-
meiros que, recebendo baixíssimos salários, comandavam verdadeiros mercados ne-
gros que funcionavam intramuros.
Segundo o depoimento de um antigo funcionário de vários sanatórios paulistas,
tudo era motivo de negociação entre os hóspedes das mansões da saúde e alguns
enfermeiros: saídas desautorizadas, remédios populares proibidos pela medicina oficial,
alimentos, bebidas alcoólicas, tabaco, morfina para aliviar as dores e para o uso dos


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viciados, roupas, companhia sexual, passes para a entrada em prostíbulos e cassinos e
até mesmo mandingas para recuperar a saúde.
Outro depoente informou ainda que um consuntivo que fora levado para São José
dos Campos por intermédio do amparo caritativo, tornou-se enfermeiro de um nosocômio
especializado e, aproveitando-se desta posição, acumulou uma razoável fortuna venden-
do secretamente penicilina aos desesperados tísicos, após tê-los convencido que a droga
curava a tuberculose. Em troca do ‘remédio’, o enfermeiro aceitava não só dinheiro como
qualquer mercadoria que os doentes pudessem oferecer: aparelhos de rádio, relógios,
jóias, ações de companhias, automóveis, enfim, qualquer coisa de valor.
Acredita-se que era grande o número de tísicos penalizados pela quebra dos
regimentos, especialmente no contexto dos sanatórios filantrópicos. Entretanto, a do-
cumentação analisada evita informar sobre os motivos que levavam a expulsões em
série e à aplicação de censuras ‘mais leves’ aos enfermos albergados, recobrindo de
sigilo tais acontecimentos.
As angústias acumuladas pelos hóspedes das mansões da saúde parece que os
coagiam a exponenciar os momentos de tensão que pontuavam o cotidiano das institui-
ções de cura, colocando em segundo plano os episódios confirmadores da relativa
segurança e do conforto proporcionados pelo viver no recinto hospitalar.
Repetindo com poucas variações o que foi denunciado por outras vozes, uma
tuberculosa entrevistada por Oracy Nogueira relatou uma situação punitiva testemu-
nhada num nosocômio paulistano não identificado, mas que provavelmente era o Sana-
tório do Jaçanã:
No hospital foi adotado o regime de colegio. As pobres doentes devem andar
sempre de fila, de braços cruzados. Si alguma doente chega atrazada, no refei-
tório, capela, etc., é admoestada publicamente e, quasi sempre, ou vá a verdade
por inteiro, é sempre com palavras bem pesadas. As cartas são censuradas,
tanto as que saem como as que chegam. Pobres doentes! Vivem num constrangi-
mento infernal! Eu vi, e alem de pôr isto aqui no papel, si fôr preciso, e si
encontrar ensejo para tal, eu direi a qualquer Diretor do Hospital o que vi, e
feriu meu coração profundamente. Vi uma sexagenária, de pé, no refeitório frio,
muito frio, em frente a um prato de comida... Tudo isso porque chegou atrazada...
Absurdo dos absurdos. Isso é deshumano.(1945:55)
As causas resultantes no desligamento dos enfermos aparecem escamoteadas
na documentação relativa ao sanatório da Santa Casa, sendo freqüente a localização de
fichas individuais que informam que o paciente recebeu “alta a pedido”, enquanto os
respectivos prontuários assinalam que o tísico fora punido com alta por “insubordina-
ção” ou “indisciplina”.
A tentativa de decifrar o enigma proposto pelos registros nosocomiais encon-
trou resposta no depoimento de um tisiologista que atuou no Hospital São Luiz
Gonzaga no transcorrer da década de 50. O clínico entrevistado foi um dos poucos
personagens que não se recusou a falar ao autor sobre as punições institucionais,
esclarecendo que havia uma espécie de “divisão das tarefas punitivas” entre os
médicos e as religiosas que serviam como enfermeiras do nosocômio e que pertenciam
à Ordem de São José de Chamberry.


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Aos facultativos cabia a decisão sobre a exclusão dos pacientes que se nega-
vam a aceitar as opções terapêuticas, principalmente no que se referia às intervenções
cirúrgicas, enquanto as filhas de São José eram responsabilizadas pela vigilância, julga-
mento e punição dos pectários que infringiam os princípios de sociabilidade assumidos
pelo Hospital.
Seguindo esta regra, existem evidências documentais que informam que o
comerciário Theodomiro da Silva (P. 714) “foi mandado embora” pelos cirurgiões do
Sanatório do Jaçanã porque se negou a aceitar a toracoplastia que lhe fora sugerida,
enquanto o pintor espanhol Gabriel Fernandes (F. 23) foi afastado do recinto de cura
pelas freiras devido o “abuso de alcool”.
Mas, quais ‘desregulamentos’ outros pontuavam o cotidiano desta casa de
saúde para fazer com que um em cada grupo de aproximadamente dez tuberculosos
tivesse como destino a expulsão? Segundo o mesmo médico depoente, existiam “dois
elementos informais” que levavam ao desligamento dos tuberculosos, sendo eles a
negativa do paciente em comparecer aos cultos religiosos programados pelas enfermei-
ras e também a descoberta de encontros secretos entre infectados de sexos opostos.
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Afastados de suas famílias e padecendo com a solidão, era natural que os tísi-
cos tendessem a buscar consolo no ombro amigo dos seus companheiros de isolamen-
to, frutificando em namoros que eram considerados ilegítimos e perigosos pelos agen-
tes hospitalares. O empenho em coibir intimidades maiores, mesmo um simples beijo,
encontrava sustentação na idéia de que os pacientes agiam sob comando da exaltação
erótica produzida pelo micróbio de Koch, sendo por isso tachados de infratores os
tuberculosos que fugiam às proibições. Para estes, aplicava-se uma pena única: o afas-
tamento da instituição de cura.
Clareando o assunto, o escritor e médico Moacyr Scliar assim se reportou à
atuação das religiosas na missão de inibir o encontro entre casais de consuntivos:


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