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A V
IDA
 C
ONJUNTA

A
 
ROTINA
 
SANATORIAL
Ainda nos primeiros instantes da presença no sanatório, o recém-chegado ten-
dia a rejeitar a convivência com outros tísicos. As mensagens que alertavam sobre a
periculosidade física e moral dos consuntivos induzia os novos hóspedes a tentarem se
manter afastados dos seus ‘colegas’ de enfermidade, temendo dar nova e mortal dimen-
são à sua doença, assim como deixar-se contaminar com os pretensos vícios imputados
à condição fimatosa.
Vários depoentes informaram que, na primeira vez que receberam internamento
hospitalar, inicialmente se apresentaram pouco receptivos à companhia dos demais
pectários, evitando fazer perguntas e dar respostas, principalmente quando a tentativa
de conversa tomava a infecção kochiana como assunto.
Mais do que isto, os novatos mostravam-se temerosos em utilizar os recursos
oferecidos pelos sanatórios, julgando que a recorrência aos itens de emprego coletivo
poderia resultar numa ‘superinfecção’ que conduziria rapidamente à morte. Por isso era
comum a existência de um medo indisfarçável dos recém-chegados que, mesmo marca-
dos pela pobreza, esforçavam-se para levar ao abrigo hospitalar o maior número possí-
vel de utensílios necessários no cotidiano, tais como talheres, pratos, copos,
escarradeiras, pentes, roupas de cama e até mesmo agulhas de injeção.
A sensação de abandono e o cotidiano padronizado impunham a presença cole-
tiva, abrindo oportunidades para o processo de acomodação dos temores individuais e
favorecendo os elos de sociabilidade entre os reféns da solidão. Mais do que isto, as
‘mansões da saúde’ – designação institucional fartamente empregada pelos adminis-
tradores sanatoriais – orientavam a integração entre os enfermos, aplicando sobre seus
hóspedes múltiplos dispositivos regulamentadores do cotidiano, todos eles calcados
no compromisso de cura e de ‘purificação’ moral dos fimatosos.
O livro de reportagem elaborado pelo jornalista José Dias Leme (1944) e as
informações registradas nos relatórios hospitalares oferecem elementos que, somados,
permitem a recomposição da rotina diária das entidades de cura. Pai de uma tuberculosa
que usufruiu seus últimos anos de vida no Sanatório Vila Samaritana, localizado em São
José dos Campos, o jornalista quebrou a regra que mantinha os sãos afastados das
casas de saúde especializadas, conseguindo autorização para permanecer longos perí-
odos no nosocômio, acompanhando a lenta agonia da filha valetudinária, situação que
favoreceu o conhecimento minucioso do cotidiano institucional.


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Segundo as observações deste repórter e das notas computadas na documenta-
ção nosocomial, sabe-se que os momentos do dia hospitalar eram anunciados pelos
toques de uma sineta, devendo ser respeitados por todos os pacientes que reunissem
condições físicas suficientes para deixar a cama. Sendo assim, os asilados eram coagi-
dos a abandonar o leito às 7 horas da manhã, dispondo de 30 minutos para se prepara-
rem para o desjejum e para as preces. O período das 8 às 9 horas era reservado para
passeios nas áreas vizinhas do hospital, sendo que, esgotado este tempo, todos os
doentes deveriam obedecer repouso obrigatório, permanecendo confinados a cadeiras
ou camas até às 11 horas, quando se iniciava o almoço. Após a refeição, novo intervalo
de descanso acontecia, seguido de lanche às 15 horas e de atividades de lazer e pas-
seio, isto se não houvesse inspeção médica a ser realizada. No final da tarde, ocorria
outro momento de repouso, encerrando-se às 19 horas, quando era servida a janta. às
21 horas, logo após as últimas orações do dia, era exigido silêncio absoluto, sendo que,
ao soar o último toque da sineta, todos os consuntivos deveriam guardar leito, até a
manhã seguinte.
Condicionada a uma marcha lenta e tediosa, a vida dos tuberculosos era
normatizada também por disposições nosocomiais que, idealisticamente, deveriam ser
obedecidas igualmente por toda a colônia de enfermos, confirmando os estreitos limites
de convívio entre os infectados e destes com o mundo exterior. Dentre a infinidade de
artigos principiados com a advertência ‘é expressamente proibido’, os agentes hospita-
lares arrolavam detalhes padronizadores da existência coletiva, observando que qual-
quer ato infrator poderia gerar sanções disciplinares que flutuavam entre a admoesta-
ção verbal e a expulsão sumária da instituição.
Dentre os atos passíveis de punição, alinhavam-se: escarrar fora do recipiente
apropriado, fazer uso de bebidas alcoólicas, dançar sem autorização, jogar a dinheiro,
conversar em voz alta ou empregar termos de ‘baixo calão’, abordar assuntos conside-
rados inconvenientes, perturbar o silêncio nos períodos de descanso comum, apresen-
tar-se de pijama fora dos quartos e das enfermarias, visitar cômodos privativos ao sexo
oposto, perambular pelas áreas de serviço do sanatório sem permissão superior, invadir
o perímetro residencial dos empregados ou o alojamento dos eventuais visitantes,
conservar luzes acesas sem necessidade, depredar as dependências ou os móveis de
propriedade da instituição e sobretudo ausentar-se do sanatório sem a anuência clínica
ou sem contar com a companhia de um funcionário ou de um colega enfermo designado
pela casa de saúde.
A estas cláusulas juntavam-se ainda outras recomendações que davam ritmo
próprio a cada uma das atividades desempenhadas pelos tuberculosos. Quanto ao
banho, por exemplo, os tísicos tinham direito a uma ou no máximo duas oportunidades
por semana, as quais deveriam ser breves e com água morna, sob a alegação de que a
higiene íntima prolongada ou excessivamente quente ou fria poderia facilitar a ocorrên-
cia de resfriados comprometedores da recuperação da saúde. Os horários de banho,
como de resto, eram agendados pelos chefes das enfermarias, acrescentando-se que os
pacientes perderiam o direito à ablução, caso faltassem ou se atrasassem para o com-
promisso marcado.


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Regras gerais divulgadas nos folhetos de propaganda de praticamente todas as
mansões da saúde, a condição de pensionista – isto é, de hóspede pagante – parecia
abrir oportunidades flexionadoras do ordenamento imposto. Enquanto os sanatórios
que assistiam a pobreza deixavam poucas chances de quebra da mesmice cotidiana, os
nosocômios que atendiam tísicos abonados permitiam que seus clientes resguardas-
sem um pouco de sua individualidade.
Nestas circunstâncias, os fimatosos de posses tinham a regalia de fazer-se
acompanhar de serviçais ou mesmo dos cônjuges, assim como estas instituições
ofereciam alojamentos exclusivos, automóveis e motoristas para que seus privilegia-
dos hóspedes pudessem passear pela cidade e fazer compras, fomentando a fantasia
de que a Peste Branca havia pouco comprometido os afazeres diários que animavam
a vida anterior ao evento infeccioso. Ainda mais, os pensionistas ricos poderiam
desfrutar de shows dançantes, cursos de línguas estrangeiras e de pintura, palestras
e excursões turísticas organizadas pelos hospitais, que se esforçavam em trazer dos
grandes centros urbanos artistas e intelectuais que, de regra, também compartilha-
vam da condição consuntiva.
Mesmo quando o regimento hospitalar era declaradamente infringido, as san-
ções institucionais tendiam a ser amenas ou mesmo inexistentes para os pacientes
seletos. O enfermeiro tuberculoso José Antonio Duarte, que prestou serviços em
vários sanatórios particulares de Campos do Jordão, informou ao autor que os doen-
tes pensionistas eram “perdoados de muitos deslizes”, inclusive de ausências
desautorizadas e prolongadas, sendo que, ao retornarem, eram recebidos sem qual-
quer admoestação clínica.
Em contraposição, para os tísicos pobres sobravam poucas atividades que pu-
dessem amainar a terrível repetição dos dias. A escassez de verbas e o pouco empenho
das casas de saúde filantrópicas faziam com que os tuberculosos usufruíssem de raros
motivos para julgar agradável a permanência reclusa.
Além da audição conjunta de rádio, das projeções de películas que eram previ-
amente censuradas pela equipe hospitalar e dos jogos de salão, restava a leitura de
revistas cujas ilustrações consideradas ‘excitantes’ eram recortadas pela vigilância
hospitalar e a consulta de livros com teor moralista, de intrigas suaves ou de exaltação
nacionalista.
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 O pouco mais que favorecia a diversidade das tarefas corriqueiras con-
sistia nas festas de confraternização que ganhavam o sentido de solenidade, aconte-
cendo especialmente nas datas de aniversário dos integrantes da equipe médica ou
quando um dos pacientes era premiado com a ambicionada alta clínica resultante da
recuperação pulmonar.
A agitação também tomava conta dos sanatórios quando corria a notícia que um
doente famoso havia sido internado. Assim aconteceu com Paulo Dantas, que percor-
reu vários sanatórios de Minas Gerais e Rio de Janeiro antes de chegar ao Sanatorinho
jordanense e pouco depois ao Hospital São Luiz Gonzaga, período em que já angariara
fama de escritor laureado pela Academia Brasileira de Letras e que compunha um se-
gundo livro sobre a vida dos tuberculosos, sendo por isso insistentemente procurado
pelos doentes desejosos de confidenciar algum ‘caso’ ocorrido no hospital.


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No sanatório paulistano, Paulo Dantas (P. 2670) foi registrado como “autor e
publicitário”, recebendo atenção diferenciada inclusive do corpo médico, o que resul-
tou na composição de um prontuário bem mais completo do que aqueles produzidos
sobre os pectários indigentes.
Situação semelhante ocorreu com o então jornalista Nelson Rodrigues que,
internado como pensionista do Sanatorinho jordanense, ao chegar, foi imediatamente
reconhecido como repórter d’O Globo, sendo recepcionado festivamente pelos seus
companheiros de enfermaria. Para retribuir a acolhida afetuosa, Nelson tratou de com-
por sua primeira “peça teatral sem nenhuma seriedade” para ser encenada pelos próprios
tuberculosos, advertindo jocosamente que o ‘colega’ que tivesse hemoptise durante o
espetáculo pagaria em dobro o preço da entrada. Tanto para o dramaturgo estreante
quanto para seus parceiros de tédio, momentaneamente a vida ganhou um sabor espe-
cial: “foi uma farra louca”, lembrou o jornalista (Rodrigues apud Paulo Filho, 1986:429).



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