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A Irmandade dos Fracassados



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A Irmandade dos Fracassados
O trem era o veículo que, de costume, conduzia os tísicos para o ‘exílio’ forçado
pela doença. Superado o perímetro dos maiores centros urbanos, os doentes iam perce-
bendo a paulatina alteração da paisagem que, quanto mais se aproximava das áreas de
tratamento, mais abria espaço para extensas glebas de mata e terrenos de geografia
acidentada. Símbolo maior do desterro prometido, os contrafortes da Mantiqueira re-
presentavam o selo da exclusão, ganhando o sentido de majestosos portais de entrada
para um universo que resistia em devolver a liberdade para os viajantes tuberculosos.
Desembarcados no destino sanitário, os doentes do peito chocavam-se com o
fato de serem acolhidos com todas as reticências alimentadas pelo horror ao contágio.
Tanto nas prefeituras sanitárias quanto nas áreas avizinhadas dos sanatórios isolados,
eram freqüentes os cartazes que alertavam sobre a proibição da presença dos reféns do
Grande Mal em muitas lojas, bares, restaurantes, clubes, hotéis, pensões e até mesmo
nas chácaras e moradias. De imediato, os tísicos reconheciam que, mesmo no território
do confinamento, vigorava um meticuloso conjunto de prescrições que estabeleciam
estreitos limites para a existência infectada.
As disposições preventivistas impunham que os hospitais fossem erguidos em
vastos lotes protegidos dos caminhos públicos por extensos bosques de eucaliptos ou
por muros de segurança. O silêncio e o isolamento exigidos dos doentes e dos funcio-
nários sanatoriais faziam com que a maior parte dos dramas e dos segredos compartilha-
dos nestas instituições fossem vedados ao conhecimento da sociedade mais ampla.
Os sadios, por sua vez, preferiam tomar ciência de detalhes sobre a vida dos
pectários por meio do filtro literário e pelas raras notícias e imagens que propositalmen-
te escapavam do sigilo nosocomial para sensibilizar o tecido coletivo e, com isso,
garantir as necessárias esmolas para as entidades caritativas. O Abrigo São Vicente de
Paulo, por exemplo, vendia ‘cartões-postais’ cujas ilustrações compunham-se de fotos
de seus pequenos hóspedes infectados, esperando angariar algum dinheiro com a
exposição pública dessas crianças abatidas pela enfermidade pulmonar.
Sob o véu da filantropia ou do declarado interesse econômico, os sanatórios
revelavam-se como o que as Ciências Sociais definiram como ‘instituições totais’
(Goffman, 1974). Se em geral os nosocômios cumprem as tarefas de cuidar dos corpos
enfermos e corrigir o comportamento dos pacientes, as casas de saúde que acolhiam os
tísicos deram nova amplitude a esses compromissos. Territórios panópticos de extre-


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mada vigilância, os sanatórios buscavam apresentar-se aos seus pacientes como espa-
ço praticamente fechado ao mundo exterior, tecendo estratégias que objetivavam apro-
priar-se não só do tempo, mas também dos pensamentos e dos desejos de seus hóspe-
des, oferecendo elementos que favoreciam a redefinição do ‘eu’.
Representando símbolos anacrônicos da peste, os infectados eram definidos
como personagens incapazes de aceitar espontaneamente as orientações prestadas
pela clínica e, em continuidade, eram tidos como inimigos mortais da sociedade. Redu-
zidos a valores estatísticos na maior parte da documentação hospitalar, a frieza dos
dígitos de identificação desdobrava-se na face colada ao rosto único imposto aos
fimatosos: uma legião a ser tratada do corpo e da moral pela medicina, consolada pela
religião e pranteada a distância pelos familiares e pelos amigos.
A situação de confinamento imposta aos tísicos albergados fomentava a exis-
tência de um mundo apartado e misterioso, legalizando a funcionalidade das casas de
saúde. Refletindo a operação segregadora, era comum os médicos dos sanatórios utili-
zarem uma terminologia espacial para reiterarem o princípio isolacionista, como aconte-
ceu nas anotações feitas pelo tisiologista que examinou o mecânico Humberto Chiadotto
(P. 728): “O passiente tendo uma phistula e andando a se tratar della os medicos fizeram-
no examinar dos pulmões que deu positivo, faz dois mezes mas tambem se queixa da
perna direita que doi muito ao levantar e tratava-se lá fora”.
A constatação de um mundo ‘lá fora’ – em contraposição ao ambiente hospitalar
– definia os limites dos possíveis contatos sociais mantidos pelos fimatosos, asseve-
rando a solidão que, talvez mais do que a própria patologia, abatia-se sobre os fracos do
peito. A variedade de disposições médicas que impediam o livre e ininterrupto acesso
da maior parte dos enfermos ao ‘mundo exterior’ confirmava o sentimento de exílio que
aflorava entre os pacientes consuntivos, fazendo com que, também por isso, os pectários
temessem o confinamento nosocomial.


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