Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página71/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
#16766
1   ...   67   68   69   70   71   72   73   74   ...   115
Sofria de bronchite desde a infancia, porem desde maio de 1932, no puerperio de
seu ultimo filho, a tosse peiorou e teve hemoptise (2 litros de sangue). Nesse
periodo seu marido falleceu de accidente e a passiente foi morar com outro homem,
que logo mostrou interesse de se relacionar com a filha da doente. Em julho de
1933 foi para Londrina, no Paraná. Aumentou de peso e força e quasi desapareceu
o catarro. Voltou para S. Paulo em janeiro de 1934, tomando então injecções de
Tisiocrysina e xaropes e ficou fraca da ideia e da memoria (sic). Em janeiro ultimo
sofreu forte abalo em casa porque o marido matou a enteada e suicidou-se; desde
aí recaiu, pois teve de ficar a noite na rua, ao lado de um fogão, onde vende pasteis.


160
A descrição dramática repartiu o espaço do prontuário com as informações sobre
as condições de saúde da paciente para que, no final, o raciocínio médico pudesse emitir
a avaliação clínica da fimatosa. A sentença “hábitos promíscuos” foi inscrita na docu-
mentação institucional como resultado articulador da biografia individual e familiar da
enferma com a tuberculose bilateral que roubava a vida da infeliz Leoncia Rosa.
A caracterização do doente como indivíduo socialmente pervertido favorecia a
instrumentalização dos códigos que deveriam viger nos ambientes sanatoriais. Questi-
onada a lógica do rígido regramento fomentado pelos hospitais especializados, os
médicos tendiam a responder por meio de referências caricaturais e generalizadoras
sobre a trajetória social e a ‘psicologia’ dos albergados, reafirmando a necessidade de
controle intensivo das vidas infectadas.
Os pronunciamentos médicos que seguiam esta linha de entendimento davam
novas dimensões às propostas alimentadas pela tisiofobia. Na década de 40, o adminis-
trador de um sanatório jordanense idealizou um projeto sanatorial aterrorizante:
Pra mim, o regime sanatorial tinha de ser o seguinte: a pessôa que sofre desta
moléstia deveria ser isolada de tudo e por tudo; tinha de ser celado numa cela
como um cavalo de corrida. O sanatório deveria ser construido do seguinte
modo: cada quarto teria, no fundo, as necessárias instalações sanitárias; mais
no fundo haveria um corredor que levaria ao consultório médico. Quando
chegasse, o doente entraria diretamente no consultório e, depois de examina-
do, passaria por esse corredor e iria para sua cela, onde ficaria completamen-
te isolado. Na frente das celas haveria outro corredor que conduziria ao
refeitório. Na hora da refeição, cada doente passaria por esse corredor, diri-
gindo-se para o refeitório; no corredor, duas ou três freiras estariam de vi-
gilância, para evitar que êles se comunicassem, a fim de não haver qualquer
‘diz-que-diz-que’. (Nogueira, 1945:104-105)
O afã de conhecer a intimidade dos consuntivos mostrava-se uma missão
arriscada porque poderia conduzir o médico para o território do inesperado. A tarefa
de ouvir sucessivas histórias trágicas freqüentemente levava os discípulos de
Hipócrates a se afastarem da cirurgia coisificadora do paciente e da patologia. Nestas
ocasiões, a ‘objetividade científica’ perdia força, revelando os laços de terna humani-
dade que faziam o profissional de saúde e o enfermo fundirem suas indignações e
seus prantos.
Quando em um dia de maio de 1944 Maria de Lourdes Gomes (P. 2511), uma
adolescente parda de 19 anos, 1,71m de altura e pesando 40 quilos sentou-se à frente da
escrivaninha de um anônimo tisiologista, este provavelmente sentiu-se constrangido
com a aparência depauperada da cliente.
Ao pedir informações sobre a vida da enferma, a quase-menina confidenciou-
lhe sua história: durante seus 13 primeiros anos de vida, ela viveu sob a tutela do
Juizado de Menores, sendo então ‘adotada’ por um casal residente na Vila Mariana, que
a colocou em casa para servir como empregada doméstica. Há seis meses, Maria come-
çou a tossir e a expelir escarro amarelo, fato que a ‘patroa’ considerou sem importância,
mesmo depois que o escarro passou a vir acompanhado de laivos sangüíneos. Nem o
aparecimento de forte febre ao entardecer, de suores noturnos, da rouquidão da voz e


161
do emagrecimento acentuado fizeram a ‘patroa’ mudar de atitude, continuando a cobrar
da empregada jornadas de trabalho que se estendiam por até 16 horas consecutivas.
Somente quando Maria começou a padecer de sucessivas crises de hemoptise
foi que a ‘patroa’ levou a serviçal até o Instituto Clemente Ferreira, onde, além de
diagnosticar a tuberculose, um especialista prescreveu a rápida transferência da do-
ente para Campos do Jordão. Contrariando a recomendação, a ‘patroa’ acompanhou
a enferma até o bairro do Jaçanã, abandonando-a no portão de entrada do Hospital
São Luiz Gonzaga.
Além da tragicidade dos acontecimentos, este relato clínico chama a atenção
pelos indícios do horror e reprovação do médico em relação às atitudes tomadas pela
‘mãe adotiva’ da pectária, que chegaria a óbito três meses depois de contar a sua
história. A palavra patroa foi repetida quatro vezes no documento hospitalar, sempre
entre aspas e, mais do que isto, em letras garrafais e destoantes do resto da composi-
ção, deixando a sensação de que o facultativo, solidarizando-se com a paciente, conde-
nava a desalmada moradora da Vila Mariana.
No encadeamento das angústias, os depoimentos de alguns tísicos sensibilizavam
os clínicos interpelantes que, por um momento, pareciam rejeitar o perfil psicológico do
consuntivo calcado no modelo que lhes havia sido ensinado na Faculdade de Medicina.
Em maio de 1945, o operário Mario Egydio Pereira (P. 4018), acometido por uma
tuberculose bilateral escavada, narrou parcela infeliz de sua biografia: estava doente há
três anos, época em que sua mãe e sua noiva faleceram, coincidentemente no dia marca-
do para a realização do seu casamento.
Acometido por ‘febre de delírio’, Mario foi removido para o Manicômio do
Juqueri logo após o duplo enterro, recebendo alta poucos meses depois, quando já
apresentava sintomas evidentes da infecção kochiana. Acolhido na enfermaria da casa
de saúde do Jaçanã, o paciente novamente foi diagnosticado como ‘portador de proble-
mas mentais’, sendo uma vez mais encaminhado ao hospital psiquiátrico e de lá para o
sanatório paulistano, onde permaneceu até 1949, ano em que foi transferido para o
pavilhão dos tísicos existente no hospício de Franco da Rocha.
No final destas anotações, o tisiologista que preencheu o prontuário referente
à segunda internação de Mario Egydio não se conteve, acrescentando no documen-
to: ‘historia triste demais’, e isto com letras trêmulas, talvez disfarçando lágrimas de
solidariedade.
Mas, muito mais do que todas estas expressões, a angustiada ternura médica redo-
brava seu espaço no momento próximo da morte do infectado. Vários depoimentos denun-
ciam os esforços dos clínicos em iludir o paciente sobre seu estado de saúde quando
todos pressentiam o desfecho do caso, até mesmo o próprio tuberculoso. A situação
tornava-se mais tensa ainda quando o valetudinário – ou a pessoa por ele responsável –
pedia alta hospitalar para encontrar o Ceifeiro Implacável no aconchego familiar.
Em dezembro de 1941, a paciente terminal Elizabeth Augusta (P. 2907) rogou, ela
própria, liberdade para morrer em sua residência, localizada no bairro proletário do
Carandirú, zona norte paulistana. O Dr. Fleury de Oliveira prontificou-se em acompa-
nhar a tuberculosa até a sua residência, permanecendo ao lado da pectária até que ela


162
chegasse a óbito, fato que foi registrado na documentação do Sanatório do Jaçanã
como tendo ocorrido “no instante em que os sinos das igrejas festejavam o nascimento
do Menino Jesus”.
Mas não era só a dor que pautava o cotidiano sanatorial. Os eventos que passo
a contar baseiam-se em um prontuário sem número de identificação e em um depoimen-
to de um clínico aposentado, parente de um dos envolvidos no que se relatará, que o
acaso me fez conhecer e que me confidenciou fatos sob a condição de o pesquisador
preservar o verdadeiro nome dos envolvidos.
Tudo parece ter começado na manhã de 5 de janeiro de 1933, quando deu entra-
da no Sanatório do Jaçanã uma moça parda, de 24 anos, chamada Eunice. Sua presença
imediatamente chamou a atenção de todos – profissionais da saúde, hóspedes e visi-
tantes – pela “beleza de seu corpo e pelo andar felino”. A tuberculose que reinava em
seu pulmão direito “parece que tinha dado um encanto suplementar” àquela mulher de
1,71m de estatura e 54 quilos de peso, conferindo-lhe uma palidez que destacava ainda
mais seus olhos cor de mel, fazendo-a parecer, segundo as palavras do médico entrevis-
tado, “uma artista de Hollywood”.
O aspecto singular da tísica contrastava com a aparência desoladora dos demais
pacientes assolados pela Peste Branca e, antes dela, pela miséria. A esfuziante beleza
da recém-chegada despertou o interesse inclusive do Dr. Carlos, um dos principais
tisiologistas do hospital e que estava de plantão naquele dia. Contrariando sua
indisfarçável aversão de tomar a história clínica dos pacientes novatos, o médico exigiu
para si a tarefa de interrogar Eunice, trabalho que todos os seus auxiliares tinham
certeza de que não era tarefa, mas sim privilégio.
Na mesma hora, o Dr. Carlos convocou a pectária para interrogatório, não dando
tempo nem mesmo para que ela desfizesse a mala que trouxera para a enfermaria. No
consultório, Eunice respondeu às perguntas de praxe, abrindo oportunidade para que o
médico se inteirasse de sua trajetória de vida e de sua enfermidade, que, no essencial,
pouco destoavam do que tantos outros pacientes apresentavam.
A mão do Dr. Carlos anotou no prontuário que Eunice era a filha mais velha de
um total de oito irmãos, tendo vindo à luz no sertão baiano e sido transferida, ainda
menina, para a capital daquele estado. No ano de 1929, logo após o falecimento do pai,
a paciente disse adeus aos seus e embarcou em um vapor que partia em direção ao sul,
mais precisamente para a cidade paulista de Santos. Nesta localidade, Eunice encon-
trou colocação de doméstica na casa de uma família abonada e logo depois começou a
perceber que alguma coisa estava funcionando errado no seu organismo.
O “forte mal-estar” que Eunice sentia foi se tornando cada vez mais torturante,
sendo que estes “incommodos” eram interrompidos quando ela permanecia em repou-
so por longos períodos. Em 1931, o estado de saúde de Eunice piorou, juntando-se aos
padecimentos anteriores “forte dor de cabeça e perda de peso”, acompanhados de
“tosse, febre, falta de appetite, dôres nas pernas e falta de vontade para trabalhar” e,
dois meses depois, “pontadas no hemitorax direito, face posterior, não sendo fortes,
nem continuas e sem hora certa para apparecer”. Nestas condições, seu patrão acompa-
nhou-a até o gabinete do clínico geral Manoel Gonçalves, profissional que localizou
uma discreta mancha no pulmão direito de Eunice. Diagnosticada a infecção kochiana,


163
a tuberculosa foi enviada para o município sanitário de São José dos Campos, onde o
bondoso empregador custeou sua permanência em uma pensão e também o tratamento
comandado pelo Dr. Nelson D’Avila.
Eunice ficou apenas três meses na estação de cura do Vale do Paraíba. Neste
período, apresentou sensível melhora, o que permitiu à pectária receber autorização
para voltar a servir na mesa da família santista. Entretanto, pouco tempo depois de
regressar ao trabalho, os “antigos incommodos” voltaram a se pronunciar, fazendo com
que uma vez mais o patrão de Eunice despendesse recursos, desta vez para financiar as
consultas realizadas no consultório particular do Dr. Clemente Ferreira. Como a pacien-
te não apresentasse indícios de recuperação da saúde até fins de 32, o tisiologista
concluiu que só havia um encaminhamento para o caso: o isolamento sanatorial, conse-
guindo ele próprio uma vaga para Eunice no Hospital São Luiz Gonzaga.
O Dr. Carlos ouviu atenciosamente o depoimento da tuberculosa, anotando
cada um dos detalhes que lhe era dito e, com esta ação, teceu um texto que provavel-
mente constitui-se na mais longa e detalhada história clínica registrada na documenta-
ção daquele nosocômio. Findo o depoimento, uma vez mais o médico fugiu à sua rotina
na casa de saúde, procedendo ele próprio ao exame físico da paciente, também realizado
com uma minúcia sem igual.
O fato de a consulta ter se prolongado por “bem mais de 2 horas” despertou a
curiosidade dos personagens que compartilhavam do cotidiano sanatorial, alimentan-
do de imediato os falatórios que tentavam descobrir os motivos que levaram ao alonga-
mento de uma entrevista que, de regra, era testemunhada por outros clínicos e fragmen-
tada em várias sessões.
Parece que o médico e a paciente não se importaram muito com o diz-que-diz que
passou a agitar a comunidade hospitalar pois, nos dias seguintes, era comum encontrá-
los constantemente juntos, gozando de instantes de privacidade tanto no consultório
– onde o médico redigiu um segundo e ainda mais elaborado prontuário sobre sua
paciente especial – quanto nas trilhas que partiam do terreno da casa de saúde em
direção à Serra da Cantareira.
Sobre o que conversava o casal nos encontros condenados pela ética médica e
também pelos indiscretos olhares dos outros clínicos e dos enfermos? Muitas coisas,
inclusive sobre a afeição mútua que pouco a pouco ambos foram assumindo, mesmo
que timidamente. O Dr. Carlos – que Eunice já chamava apenas pelo nome, desprovido
do título – falava sobre ele próprio, retribuindo as confidências que a enferma havia
feito meio forçosamente no transcorrer do interrogatório realizado no dia em que chega-
ra ao hospital. Mais do que isto, o médico compôs neste período um segundo prontu-
ário sobre Eunice, avaliando a enferma não pelo prisma da ciência, mas sim pelo da
paixão e da sensualidade; no texto encontrado junto ao prontuário clínico, as palavras
empregadas despertaram a curiosidade deste pesquisador: “coraçãozinho amado”,
“peitinhos em flor”, “minha paciente querida”, “costinhas encantadoras” e várias ou-
tras menções provavam o afeto e a intimidade já assumida.
Nos momentos de solidão a dois, Eunice foi se familiarizando com os detalhes da
vida do clínico: filho de uma família de médicos, Carlos havia se formado em primeiro
lugar na sua turma da Faculdade de Medicina, fato que garantiu o apoio paterno para


164
que ele excursionasse pela Europa e permanecesse um ano estagiando no sanatório do
Dr. Jacques Stéphani. De regresso ao Brasil, um de seus antigos mestres na escola de
medicina o recrutou para colaborar na organização do sanatório da zona norte paulistana,
abrindo a oportunidade para que Carlos – que pouco antes havia superado os primeiros
30 anos de existência – fosse em pouco tempo considerado um dos principais
tisiologistas do país.
Junto a estas informações, Eunice também ouviu outras coisas: Carlos havia
contraído matrimônio com a filha de um rico industrial e fazendeiro, compondo um casal
que ganhara fama pelas festas que organizava e que atraía a nata da elite do estado de
São Paulo. Por isso, era fato corriqueiro encontrar fotos dele e de sua esposa estampa-
das nas colunas sociais das revistas paulistas e cariocas, nas quais invariavelmente
eram apresentados como um dos pares mais felizes da alta sociedade bandeirante.
Haveria esperança para a concretização do amor entre o médico e a nordestina
pobre e infectada? A resposta veio na tarde de uma terça-feira, dia 30 de maio de 1933.
No dia anterior, Carlos e Eunice conversaram mais tempo do que o costume, ficando
acertado que no dia seguinte ele viria resgatá-la do isolamento. Tudo já havia sido
preparado, inclusive a compra de um discreto palacete no Alto de Santana, área afasta-
da poucos quilômetros do distrito do Jaçanã.
Na manhã daquele dia outonal e decisivo, Carlos dirigiu-se para o seu consultório
particular, de onde telefonou para seu “primo mais jovem, amicíssimo e confidente” (o
depoente mencionado) e contou o que faria nas horas seguintes, obtendo como resposta
o “total apoio” do adolescente que estava postado do outro lado da linha.
Encerrado o expediente matutino, Carlos dirigiu-se para sua residência e, logo
após o almoço, comunicou à esposa que “não regressaria naquela noite, nem nunca
mais”. Em seguida, arrancou com o Chevrolet preto que ganhara do sogro na data do seu
último aniversário, rumando direto para o Jaçanã. No mesmo instante, Eunice, com o
coração aos pulos, estava fechando a mala que guardava seus poucos pertences e os
mimos que Carlos lhe havia presenteado naqueles poucos meses de idílio. Uma hora
depois, o casal se retirava tão precipitadamente do sanatório que as testemunhas do fato
acreditaram que o médico havia simplesmente raptado a formosa paciente!
Vencida a surpresa do momento, a comunidade hospitalar percebeu o que na
verdade tinha acontecido, e os próprios funcionários da casa de saúde encarregaram-se
de espalhar a notícia que estourou como uma bomba. O caso só não chegou às páginas
das revistas e dos jornais sensacionalistas porque a família da esposa abandonada com-
prou a peso de ouro o silêncio da imprensa sequiosa por tornar público o ‘escândalo’.
A administração da Santa Casa, por sua vez, contribuiu para escamotear o ocor-
rido, coagindo o Dr. Carlos a se afastar temporariamente do nosocômio, assim como fez
registrar no prontuário de Eunice que “a paciente ocupante do leito n
o
 18 da enfermaria
feminina recebeu alta por não querer se submetter a exames”.
Certamente o leitor está curioso para saber o que aconteceu com o casal apaixo-
nado. Eis a continuidade desta história de amor: Carlos e Eunice viveram juntos o resto
de suas vidas, sempre morando na casa situada em Santana e conhecida como
‘castelinho’, estranhamente localizada no mesmo quarteirão em que o autor residia
quando ‘descobriu’ esta história. O Dr. Carlos voltou a trabalhar no Hospital São Luiz


165
Gonzaga, além de assumir cargo docente na Escola Paulista de Medicina, enquanto
Eunice recuperou a saúde e assumiu as tarefas de dona de casa, dando a luz a um filho
que seguiu a profissão paterna. Carlos morreu no final da década de 60, seguido poucos
anos depois por Eunice.
No território povoado pela solidão, pelo desespero e pela morte, sobrava espa-
ço para a escandalosa quebra dos protocolos éticos cobrados pela profissão médica. E
também para o romance.
As instituições que tinham como meta a capacitação médica na área tisiológica
mostravam-se, assim, pólos reprodutores da estigmatização coletiva do agrupamento
tuberculoso. A condição de uma parcela substancial dos tisiologistas ser ela própria
tributária da Peste Branca favorecia a multiplicação dos paradoxos.
Os clínicos e os cirurgiões treinados para entender os tísicos como tipos sociais
desregrados nem sempre obedeciam às orientações imperantes nas escolas médicas,
irmanando-se aos doentes nos momentos cruciais de angústia e tensão e, por vezes,
mantendo prolongados relacionamentos afetivos com seus pacientes. Ocupando posi-
ção ambígua no contexto sanatorial, os tisiologistas padeciam da precariedade de re-
cursos ‘científicos’ disponíveis contra a Peste Branca mas, mesmo assim, apresenta-
vam-se como principal opção para aqueles que procuravam a recuperação da saúde e
solidariedade.


166

1   ...   67   68   69   70   71   72   73   74   ...   115




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal