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O fato é que o tuberculoso reclama assistência. É um doente que quer ser assis-
tido e tratado. Nos indigentes e nos indivíduos de baixo nível social, as coisas se
complicam porque a estas exigências se agregam situações de revolta e atitudes
subversivas. É preciso nunca perder de vista estes fatos, porque frequentemente
criam embaraços à própria administração pública. As cartas anônimas, as
reclamações pela imprensa, as campanhas contra os estabelecimentos medicos
e seu pessoal técnico são frutos desta mentalidade. Um exemplo de todo o dia é
que passo a citar e que ilustra esta mentalidade. Quando um doente deseja ir
para um hospital e não há vaga, frequentemente ele usa o seguinte recurso:
deita-se à calçada do palácio do Governo e ali se converte numa vitima dos
nossos estabelecimentos. Muito leito supranumerário já tivemos que colocar em
nossos hospitais para doentes que, durante anos, desprezam todas as possibili-
dades de cura que nossos médicos lhes ofereciam com insistência e dedicação,
mas que, quando no período final, tornaram-se já difíceis de se locomover,


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exigiam um leito de hospital para morrer, não se importando saber si tal leito
não seria mais util a um doente recuperável e conciente (sic) dos seus deveres
sanitários. (Paula, 1944:25)
Com estes norteamentos, os tisiologistas assumiam seus postos nos gabinetes
clínicos, atendendo pacientes ricos ou pobres, brancos ou negros, arredios ou falantes,
moribundos ou ainda com leves sintomas da infecção.
A leitura da documentação prontuarial sempre deixa a impressão que os médicos
esforçavam-se antes de mais nada em descobrir os grandes mistérios da existência tísica,
os quais necessariamente deveriam conter elementos que se afinavam com a categoria
‘promiscuidade’. Nos momentos em que isto acontecia, os facultativos exploravam a
informação ao máximo, registrando detalhes dos segredos íntimos confidenciados pelos
tuberculosos com um afã tal que o leitor desavisado poderia supor serem dados despro-
positados e destituídos de interesse para o diagnóstico médico.
Assim aconteceu com o barbeiro bauruense de 28 anos chamado Celso de Sou-
za Poletti (P.98), que deu entrada no Sanatório do Jaçanã em dezembro de 1933. Após
concluir o questionamento identificador inicial, o esculápio descobriu que o tuberculoso
“tinha luctado na revolta de 24, na coluna de Prestes e na Guerra de 32”, situação que
exigiu do clínico o registro detalhado da participação do doente nos conflitos mencio-
nados. Somados os elementos, o facultativo não teve dúvidas em classificar a persona-
lidade do paciente: “hábitos revolucionários”.
A mesma reação dominou a pena do médico que, em abril de 1935, atendeu o
confeiteiro Rosendo Souza Dias (P. 318), de 41 anos. A partir do momento em que o
clínico anotou que “de 5 annos para cá as glandulas mammarias começaram a si desen-
volver e ‘hoje parecem de moça’”, o interrogatório tomou o rumo averiguador da vida
sexual do fimatoso, descobrindo entre outras coisas que “o doente sempre teve pouco
interesse sexual”, “sofria de siphylis annal” e que “há 15 annos é impotente”.
Os registros de ‘aberrações’ pretensamente associadas ao estado tuberculoso
fascinavam os clínicos, instruindo anotações prontuariais marcadas por crimes
passionais, suicídios, incestos e brigas sangrentas. Em contato com pacientes que
narravam histórias de “desregramento” e violência, os tisiologistas elaboravam relató-
rios tensos, tais como o que versou sobre a vendedora ambulante Leoncia Rosa Picirillo
(P. 242), uma mulher de 32 anos que abandonou a sua residência no bairro paulistano da
Freguezia do Ó para dar entrada no Hospital São Luiz Gonzaga, no mês de maio de 1936.
Inquirida pelo clínico de plantão, a tísica contou sua história que foi anotada pelo
médico nos seguintes termos:



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