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partir de 1943, quando tiveram início os estudos para a organização do Serviço de
Arquivo Médico e Estatística, que seria implantado no Hospital das Clínicas da Facul-
dade de Medicina da Universidade de São Paulo, que estava em fase de construção.


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A possibilidade de encontrar esse tipo de documento, entretanto, é difícil. Da
legislação que define a obrigatoriedade dos nosocômios preservarem os seus registros
clínicos, por um prazo máximo de dez anos, decorre que, periodicamente, uma parcela
significativa do pretérito sanitário nacional acabe sendo destruída. A utilização pelos
pesquisadores de prontuários datados de mais de uma década, portanto, é fato incomum,
acrescentando-se ainda outros obstáculos para o emprego desta fonte documental: o
campo conceitual exclusivo do saber médico-biológico, os códigos e abreviaturas às
vezes criados e instituídos segundo a conveniência de uma única casa de saúde e as
muitas vezes indecifráveis caligrafias dos esculápios.
Além disso, deve-se acrescentar a dificuldade dos estudiosos não médicos
obterem permissão de acesso a esta documentação já que, sob o compromisso de
preservar o sigilo médico, as entidades hospitalares tendem a negar autorização de
consulta aos relatórios clínicos, mesmo que tais anotações tenham sido realizadas há
mais de meio século.
A tentativa de localização de prontuários médicos referentes aos tísicos
constituiu-se em uma aventura permeada de obstáculos. O local escolhido para o
início das investigações sobre a possível existência deste núcleo documental foi a
cidade de Campos do Jordão, devido à condição de antiga estação de cura. As
visitas aos hospitais e asilos derivados dos sanatórios para tuberculosos e também
ao Centro de Saúde do município revelaram que a maior parte da documentação
havia sido incinerada, sendo que em apenas dois instantes constatou-se a preser-
vação dos registros procurados.
No primeiro deles, a diretora de uma casa de repouso para ‘idosos’, após negar
a guarda de qualquer documentação sobre o passado do estabelecimento, “lembrou-
se” de um “arquivo morto” referente ao período sanatorial sem, contudo, permitir a
consulta a tais registros, alegando que os consuntivos que por ali passaram eram
“gente de elite” e que “não ficava bem” para a atual administração do nosocômio
divulgar dados sobre os seus hóspedes, mesmo que a identidade dos doentes fosse
preservada sob sigilo.
Em outro sanatório, transformado em abrigo para doentes mentais, soube-se
que um ex-diretor clínico da instituição – que também fora tuberculoso – havia transfe-
rido para sua residência toda a parcela do arquivo referente às décadas de 30, 40 e 50,
impedindo o acesso a pesquisadores.
A frustração gerada pelas infrutíferas consultas aos hospitais jordanenses le-
vou-me a buscar socorro na cidade de São José dos Campos – área que, no passado,
também serviu como espaço de concentração de tuberculosos, se bem que menos
expressiva que a estância climatoterápica das montanhas. Naquela cidade, a situação
revelou-se ainda mais desalentadora, sendo que quase todas as declarações atestavam
a total destruição dos registros tisiológicos. O único fio de esperança foi dado por um
servidor aposentado do antigo Sanatório Vicentina Aranha, ao lembrar-se que nos
últimos anos da década de 60, houve a transferência de grandes lotes de “papéis
velhos” daquele hospital para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, instituição
mantenedora do sanatório joseense.


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A permissão de acesso ao Arquivo Central da Santa Casa paulistana ocorreu
rapidamente, por meio do apoio prestado pelo Departamento de Medicina Social da
Faculdade de Ciências Médicas da própria Santa Casa. De imediato, soube-se que os
registros do Sanatório Vicentina Aranha haviam sido destruídos logo após terem che-
gado a São Paulo, sendo preservados exclusivamente os contratos de trabalho dos
funcionários em vias de aposentadoria.
Os dois ‘arquivistas’ encarregados do setor (leia-se serventes semi-alfabetiza-
dos que, por problemas de saúde, haviam sido deslocados para as tarefas de arquivo),
entretanto, informaram que boa parte dos prontuários de um outro sanatório mantido
pela Santa Casa – o paulistano São Luiz Gonzaga, também conhecido pelo nome de
Sanatório do Jaçanã – ainda resistia ao fogo. E resistia graças ao empenho dos ‘arqui-
vistas’ que, contrariando a decisão de uma comissão médica encarregada de selecionar
os lotes de registros que deveriam ser anualmente descartados, ocultavam nos labirin-
tos do Arquivo Central um grande número de documentos que haviam sido legados à
destruição. Foi assim que boa parte dos prontuários do Hospital-Sanatório São Luiz
Gonzaga sobreviveu ao tempo e às condições gerais a que estão abandonados vários
arquivos brasileiros.
O razoável estado de conservação do núcleo documental apresentava, em
contrapartida, dificuldades materiais para a realização da pesquisa. A ausência até
mesmo de cadeira e mesa para a leitura dos prontuários, o acúmulo de poeira, as baixas
temperaturas, o mofo do porão transformado em depósito de documentos e a mistura
parcial dos registros do sanatório com cerca de um milhão e trezentos mil outros relató-
rios da Santa Casa determinou que o trabalho padecesse de ritmo excessivamente lento,
estendendo-se por cerca de três anos.
Quando já se tinha realizado a localização e fichamento meticuloso de cerca de
quatro centenas de prontuários, o Arquivo foi interditado para a pesquisa, sendo de-
clarado como motivo a aposentadoria inesperada dos dois servidores do órgão, vitima-
dos por um mesmo acidente automobilístico. Poucos meses antes, a Irmandade da
Santa Casa resolveu construir um novo prédio para abrigar o Arquivo, sendo que,
neste recinto, um número significativo de prontuários desapareceu, pois a nova sede
do Arquivo Central não só era permeável à chuva como também apresentava vãos na
estrutura, condição que tornava livre o ingresso de ‘visitantes’ que, à noite, invadiam o
local. Devido a estes fatos, a reprodução de alguns trechos das anotações hospitalares
incorporadas nas páginas desta pesquisa representam passagens de documentos que,
em parte, possivelmente já foram destruídos.
No decorrer da pesquisa no Arquivo Central da Santa Casa, deparou-se com
dois tipos de registros. O primeiro deles constitui-se em uma coleção que, mesmo
incompleta, alinha cerca de 12 mil fichas referentes aos tuberculosos internados no
Hospital São Luiz Gonzaga entre os anos de 1932 e 1968, tempo de vida do nosocômio.
Deste total, 3.438 anotações são referentes ao período que se estendeu até o final de
1945, sendo que tais fichas deveriam idealisticamente corresponder ao resumo dos
principais dados contidos nos prontuários correspondentes.
O segundo núcleo documental é formado pelos prontuários propriamente ditos,
onde encontram-se anotadas as anamneses realizadas pelos médicos, compostas basi-


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camente pelas seguintes informações: a identificação social do paciente, os anteceden-
tes bio-patológicos individual e familiar, os hábitos de vida do doente e o histórico e a
sintomatologia da enfermidade a ser tratada. Para além destes dados, os prontuários
ainda comportam: o exame físico do pectário, a seqüência de prescrições terapêuticas,
a evolução do caso e seu desfecho, sendo possível ainda encontrar, entre as páginas de
alguns laudos, os relatórios preparados pelos gabinetes de Raio-X e de odontologia,
assim como os dados registrados diariamente pela equipe de enfermagem.
A comparação entre os resumos escritos nas fichas e os conteúdos anotados
nos prontuários apresentam constantes divergências, sobretudo no item referente ao
desenlace do caso clínico. A multiplicação de situações em que os prontuários alega-
vam que o paciente havia sido expulso ou se suicidado e as fichas correspondentes
retificavam o dado para “alta a pedido” ou “alta clínica” apontam para um possível
desvio proposital dos eventos que poderiam colocar em dúvida a imagem piedosa do
sanatório religioso.
Apesar dos claros comprometimentos deste núcleo documental e da seleção
praticamente aleatória dos prontuários vistoriados, os registros do sanatório paulistano
da Santa Casa constituem-se em fonte ímpar de estudo. Segundo diversas comunica-
ções orais prestadas por pesquisadores de diferentes estados do país, além de difícil
localização e acesso, os prontuários antigos guardam uma surpresa: as anotações mé-
dicas são geralmente avaras em palavras, deixando em branco os itens referentes à
anamnese e, freqüentemente, oferecendo informações pouco precisas sobre a terapêu-
tica e o prognóstico do caso analisado.
Contrariando esta tendência, a documentação produzida no âmbito do Sanatório
São Luiz Gonzaga mostra-se pródiga em detalhes. Isto porque esta casa de saúde funcio-
nava nos moldes das instituições que hoje recebem a designação de ‘hospital-escola’,
servindo como campo de treinamento dos alunos da Faculdade de Medicina da Universi-
dade de São Paulo e da Escola Paulista de Medicina, aliás, como ocorreu com todo o
complexo nosocomial da Santa Casa pelo menos até o final da década de 40, período em
que foi inaugurado o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Preenchidos os prontuários por um ou por vários estagiários, a inexperiência
dos medicandos combinava-se com o propósito de clarear o caso, resultando em
anamneses extensas e minuciosas, preservando informações pouco usuais nos regis-
tros clínicos. Nota-se ainda a constância de anotações colocadas entre aspas ou acom-
panhadas do alerta “sic”, fato que sugere as dificuldades encontradas pelos estudan-
tes e pelos recém-formados em selecionar e ‘traduzir’ os depoimentos dos pacientes
segundo os critérios empregados pelo registro hipocrático.
A riqueza dos dados contidos nas fontes sanatoriais dimensionou os prontuá-
rios como importante suporte desta pesquisa, colocando em questão o sentido das
informações fornecidas pela série documental. As observações clínicas configuram-se
como peças reveladoras da relação médico-paciente, onde o objetivo a ser alcançado
compreende a individualização do processo patológico e o efetivo tratamento da enfer-
midade, tarefas que, para serem cumpridas, exigem um certo grau de desqualificação do
paciente como personagem social. Assim, como estratégia de entendimento e interven-
ção no desequilíbrio orgânico, a medicina compõe registros cuja função é servir como


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material de comunicação privativo dos iniciados nas práticas terapêuticas e, neste
encaminhamento, elabora sentenças que, ao fugir da argumentação e da dúvida, pare-
cem a todo o instante querer negar a existência concreta do ser humano como
‘adoentado’ (Clavreul, 1983).
O caráter ritualístico da relação médico-paciente confere um sentido peculiar a
este tipo de registro. O peso das imagens mútuas nutridas pelo clínico e pelo enfermo
faz com que cada um deles saiba aprioristicamente o que pode ou não ser dito, bem
como o que deve ser anotado na papeleta hospitalar. O prontuário constitui-se, en-
tão, formalmente, em um instrumento moldado pela ordem médica e pelo poder
institucional, em que a espontaneidade da fala e da escrita estaria comprometida
pelas mediações inerentes às circunstâncias, sendo esta dimensão assunto de várias
análises teóricas (Britto, 1988).
Ciente dos debates em torno da especificidade e dos limites da documentação
nosocomial, mesmo assim acredita-se que os prontuários elaborados pelo setor de
tisiologia da Santa Casa abrem perspectivas únicas em que a história clínica se entrela-
ça com a trajetória existencial do doente, assim como ganha expressão a capacidade
intervencionista da medicina e as reações dos clínicos em face da sucessão de relatos
tristes, confidenciados pelos seus pacientes. Com isto, os prontuários revelam-se pe-
ças fundamentais para a composição de uma história social que busca abarcar as várias
facetas do dilema humano orquestrado pela Peste Branca.
Para completar a soma das fontes utilizadas, buscou-se colher alguns depoi-
mentos orais de personagens que viveram o drama sanitário, quer na condição de ‘fraco
do peito’, quer no papel de indivíduos próximos dos infectados. Constituindo recurso
importante para a realização da pesquisa, as vozes colocadas neste texto mostraram-se
reticentes em prestar informações mais detalhadas e, quando o fizeram, cobraram sigilo
absoluto sobre suas identidades, sendo que alguns revelaram-se desejosos de serem
nomeados por meio de pseudônimos por eles próprios escolhidos. Mesmo assim, sali-
enta-se que tais informações resultaram da espontaneidade dos depoentes, cabendo a
eles narrarem o que achavam ‘importante’ ser confidenciado, havendo pouca interfe-
rência do pesquisador. Assim, distancia-se dos métodos específicos e das intrincadas
técnicas empregadas pela História Oral.
A pluralidade de fontes exigiu que fosse dado um recorte temático às questões
encontradas. Metodologicamente, foi apurando a diversidade temática que se buscou
qualificar cada tipo de documento. Porque entende-se que a verdade não está nos
documentos, procurou-se a confrontação, a soma e o contraste como alternativas pru-
dentes para o exame.
Outros recursos foram usados para diversas fontes. No caso da Literatura, por
exemplo, houve empenho em evidenciar a seqüência evolutiva do ‘clima de tragédia’.
Neste encaminhamento, aliás, cabe salientar a universalização das vozes. Como em outros
circuitos literários, o Brasil integrou o conjunto da produção sobre a tuberculose e isto
basta para sugerir reflexões sobre a coerência entre o nosso contexto e os demais.
A nacionalização da problemática da Peste Branca, contudo, mereceu cuidados.
Foi por tal atenção que se recorreu à leitura dos textos dos sanitaristas nacionais. Na
mesma linha, a voz dos ‘esquecidos’, pobres doentes, pessoas anônimas, também foi


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recolhida. A formulação de um saber leigo sobre a doença e os doentes, combinada com
as formas elaboradas de intervenção sanitária foram enquadradas nos processos de
institucionalização do país. Assim, aspectos do ‘público’ e do ‘privado’, se combinaram
gerando comportamentos do doente em face do Estado, da sociedade e de si próprio.
O enfoque do pretérito das doenças e dos doentes ainda é uma operação aceita
reticentemente pelos historiadores. A disseminação do pressuposto segundo o qual as
patologias constituem-se em eventos de exclusivo entendimento das Ciências Médicas
teve como conseqüência a percepção de que o convívio íntimo com a enfermidade
concretiza-se como experiência individual e única, portanto, de difícil análise pelos
historiadores. Como resultado, durante um longo período, as Ciências Humanas aco-
modaram-se em atribuir ao clínico humanista a tarefa de estudo dos eventos ocorridos
no passado e motivados pelos processos biológicos.
Neste contexto, a área genericamente denominada de História da Medicina aca-
bou sendo ocupada predominantemente por pesquisas realizadas em torno de alguns
poucos eixos temáticos, principalmente os orientados para a averiguação das ‘idéias
antigas’ sobre as enfermidades e os remédios, das instituições médicas e das biografias
dos clínicos e cirurgiões de destaque, assim como pelas abordagens gerais que inevita-
velmente convergiam para os conceitos de ‘evolução’ e ‘progresso’ do arsenal curativo
e preventivo. Neste último tópico, encontram-se constantes observações acerca das
devastações provocadas pelas epidemias, sendo que as reações sociais frente aos desas-
tres pestíferos têm sido registradas como ilustrações da precariedade dos recursos sani-
tários no tempo pretérito e, em alguns momentos, da ingenuidade do espírito humano.
O direcionamento assumido por esta vertente de análise do passado da ‘arte de
curar’ prima por anunciar a medicina como uma área sintonizada com as necessidades
sociais, mas ao mesmo tempo ‘neutra’ e autônoma para compor seu campo de conheci-
mento e sua esfera de atuação. A ótica tendencialmente internalista que instrui a História
da Medicina resulta no quase total desvinculamento entre a doença e o doente, pois,
enquanto os processos patológicos foram reconhecidos como eventos passíveis de
alterações no tempo, o Homem enfermo foi, de regra, desqualificado como personagem
histórico, dando repercussão ao preceito antigo – mas ainda em voga – segundo o qual a
medicina resume-se ao ‘encontro de uma técnica científica e de um corpo’.
A cirurgia acadêmica que isolou as patologias dos seres humanos diretamente
atingidos pelas enfermidades permitiu o florescimento da linha de estudo que situa o
morbus e seus pesquisadores como personagens exclusivos de interesses. De Hans
Zinsser a McNair Wilson, na primeira metade do século passado, até Michel Foucault,
Robert Gottfried e François Delaporte, em datas mais recentes, a História da Medicina e
suas ramificações produziu textos que, variáveis na metodologia e na documentação,
afastaram-se do compromisso de registrar os dilemas experimentados pelos agrupa-
mentos abatidos pelas doenças.
O pouco de atenção que o enfermo recebe ocorre quando, relegado à condição
de paciente clínico, os historiadores o relacionam aos momentos exaltativos das desco-
bertas científicas ou quando torna-se necessário exemplificar as supostas alterações
morais produzidas pelo estado enfermiço. A possibilidade mais corriqueira que favore-
ce a individualização do ‘debilitado’ está ligada às situações onde ele é registrado como


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o primeiro ser humano a receber o benefício de uma nova droga ou técnica desenvolvi-
da pela medicina, sendo exemplar a consagração dos nomes dos meninos James Phipps
e Joseph Meister, pelo fato de terem sido as primeiras pessoas vacinadas, respectiva-
mente, contra a varíola e contra a raiva.
Caso diferente é protagonizado por uma Old Lady britânica que garantiu lugar
nas páginas médicas como exemplo da ‘paciente leviana’, pois diariamente percorria os
hospitais londrinos em busca de remédios gratuitos para tratar de várias moléstias que a
importunavam, utilizando as drogas, porém, para dar sabor especial aos pastéis que ela
própria vendia em praça pública.
Menções como estas ganham formatos novos quando o doente avaliado cons-
titui-se em personagem de projeção social. Nestes casos, os distúrbios patológicos
aparecem como fenômenos definidores da identidade e das ações dos enfermos, sendo
que coube ao Dr. Cabanès instituir o ‘gabinete secreto da história’, consultório literário
no qual desfilaram os principais nomes da política e da cultura européia moderna.
Segundo as conclusões do Dr. Cabanès (1937), os adoentados sucumbiam frente ao
gigantismo da doença, situando a anafrodisia de Luis XIV, a epilepsia de Luis XV e a
úlcera estomacal de Napoleão, dentre outros possíveis desarranjos orgânicos e psíqui-
cos, como os verdadeiros motores da História mundial.
A localização do Homem com a saúde debilitada como personagem de
expressividade histórica mais ampla manteve-se como proposta de uma minoria de pes-
quisadores, dentre eles o clínico alemão Henry Sigerist. Na posição de diretor do Insti-
tuto de História da Medicina da Universidade de Leipzig, coube ao Dr. Sigerist, ainda no
final dos  anos 20, abrir novas perspectivas de análise, sugerindo a necessidade de
conjugar as doenças aos seus tributários, enfatizando ainda a carência de pesquisas
voltadas para o estudo da construção simbólica das enfermidades e da reação dos
doentes frente à estigmatização (Sigerist, 1932).
No início da década de 30, a transferência do Dr. Sigerist e de alguns de seus
principais auxiliares para a Johns Hopkins University, permitiu que florescesse na Amé-
rica do Norte um atuante centro de pesquisas de História da Medicina. Aglutinados em
torno dos princípios aparentados do marxismo, pesquisadores do porte de Erwin
Ackerknecht, Bernhard Stern e George Rosen – além do próprio Henry Sigerist – incen-
tivaram a diversificação dos temas sob análise, resultando em inovadoras perspectivas
para o entendimento dos fenômenos patológicos e da intervenção médica, segundo o
gradiente fornecido pela organização classista da sociedade.
A multiplicação dos estudos sobre as enfermidades e também sobre as condi-
ções de vida dos agrupamentos humanos e os vínculos entre a ação médica, a política
e a economia determinou que a proposta sigeristiana de análise da experiência individual
com a enfermidade fosse momentaneamente preterida. No ano de 1943, novamente o
Dr. Sigerist voltou a se interessar pelo tópico, mas, surpreendentemente, aproximou a
identificação dos doentes da vertente assumida pela sociologia neopositivista, repre-
sentada sobretudo pelos ensinamentos de Talcott Parsons.
Tomando como exemplo os tuberculosos, o clínico alemão anunciou os pectários
como vítimas da pobreza material que conduzia à infecção pulmonar mas, ao mesmo
tempo, generalizou todos os enfermos como indivíduos que se deixaram adoecer para


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assumirem um novo ‘papel social’ e, com isso, fugirem das obrigações cobradas da
parcela sadia da população. Em continuidade, os Homens com a saúde abalada foram
indicados como personagens perniciosos e carentes de pronta reeducação moral.
Apesar deste posicionamento, o próprio professor Sigerist (1987) reiterou, nos
anos 50, a necessidade de elaboração de uma História da Medicina ‘sob a ótica do
paciente’, declaração que recebeu severas críticas porque considerada como sugestão
desarrazoada. Herdeiro intelectual de Henry Sigerist, George Rosen (1967) retomou a
mesma proposta na década seguinte, convocando os historiadores profissionais para
colaborarem nas pesquisas centradas na problemática sanitária.
Uma das primeiras cartas orientadora da participação dos historiadores na aná-
lise dos eventos instruídos pela enfermidade deveu-se à pesquisadora francesa Elizabeth
Carpentier (1962). Apoiada nos núcleos documentais produzidos em torno das epide-
mias que assolaram a Europa e parte da Ásia no decorrer do século XIV, esta autora
tematizou a quadra pestífera em várias subáreas de estudo, enfatizando a necessidade
de inquirições sobre o poder médico, a reação do Estado frente às crises sanitárias e a
diversidade dos comportamentos coletivos. Posicionamento semelhante impregnou os
seguidores da New Social History (Grob, 1977), que indicaram como setores carentes
de estudos os processos patológicos, os padrões de mortalidade e morbidade, as con-
seqüências institucionais das crises epidêmicas e também os papéis desempenhados
pela medicina no contexto da modernização do tecido coletivo.
Paralelamente a isto, alguns pesquisadores buscaram estabelecer as possibili-
dades teóricas de enquadramento do doente no contexto histórico. O norte-americano
William McNeill (1976) situou os agrupamentos infectados como ‘macróbios’ que não
souberam se esquivar da ação patológica dos micróbios, conferindo um caráter
biologizante a uma possível história dos enfermos. O francês Jacques Léonard (1981),
por seu turno, classificou o estudo do pretérito dos doentes como uma ramificação da
‘história dos vencidos’, reiterando o caráter passivo e acomodado dos doentes no
contexto social.
Deve-se ao médico e pesquisador espanhol Pedro Laín Entralgo (1969, 1983,
1984) uma das mais persistentes tentativas de interpretação histórica dos personagens
adoentados. Autor de numerosos livros que incorporaram o enfermo na condição de
paciente da clínica, Laín Entralgo tem se proposto a retraçar a trajetória deste grupo na
tela das relações sociais engendradas entre os médicos e sua clientela. Avizinhando-se
do idealismo neokantiano, este estudioso tem apoiado suas análises nas fontes
consagradoras dos compromissos éticos que unem os personagens aproximados pela
condição doentia, resultando em versões caricaturais da ‘realidade do ser’, isto porque
frutos de enfoques distanciados das conjunturas históricas específicas.
As dificuldades de diálogo com os ‘tipos’ carentes de saúde exigiu que pesqui-
sadores contornassem suas limitações por meio da exploração de tópicos correlatos à
existência enferma. Além dos estudos clínico-epidemiológicos e dos ensaios
quantitativistas elaborados pela Demografia e pela Sociologia, o congraçamento cele-
brado nas últimas décadas entre a História e a Antropologia permitiu que, seguindo as
pegadas de Marcel Mauss e Mary Douglas, aflorasse uma gama de estudos sobre o
corpo como substitutivo parcial das análises englobadoras das enfermidades e dos


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enfermos. Adotado pela Nouvelle Histoire, tal encaminhamento tende a simplificar
demasiadamente a convivência íntima com a enfermidade, sendo significativo que um
dos primeiros textos a propor esta vertente de pesquisa ostente o seguinte título: “O
corpo: o homem doente e sua história” (Revel, 1976, 1978).
As pesquisas instruídas pela tísica e pelos pectários refletem integralmente as
limitações desta área do conhecimento. Assinalada insistentemente nas histórias ge-
rais da medicina e nos ensaios monográficos, a Peste Branca e seus desdobramentos
têm sido objeto de extenso tratamento descritivo, havendo entretanto pouca atenção
dos pesquisadores acerca da reação dos tuberculosos frente à enfermidade, inclusive
porque durante as últimas décadas e até o advento da Aids, a tísica foi considerada
como ‘doença dos países pobres’ e, por contraste, ameaça ‘sob controle’ nas socieda-
des mais abastadas.
Neste contexto, apenas os relatórios orientados por Roland Barthes e enfeixados
no livro Histoires de la Tuberculose buscaram conceder algum destaque às memórias e
recordações dos doentes do peito que ganharam projeção social, havendo em anexo
uma copiosa lista composta pelos nomes de ‘tísicos ilustres’, tendência herdada da
produção acadêmica anterior. Apesar da proposta inovadora, esta obra define-se mais
pelo empenho de suas autoras em conceder oportunidade de expressão aos agrupa-
mentos médicos, limitando o espaço para os pronunciamentos daqueles que foram
supliciados pela intimidade forçada com a moléstia kochiana (Grellet, 1983).
Um balanço sobre a historiografia européia e norte-americana permitiu ao histo-
riador Jacques Le Goff e ao médico Jean-Charles Sournia (1985) declararem, sem qual-
quer dificuldade, que as ‘doenças têm uma história’, observando o recente acúmulo de
pesquisas sobre o tema.
Em contraposição, as sociólogas Claudine Herzlich e Janine Pierret (1984)
alertaram sobre a existência de uma história da medicina desumanizada, registrando a
ausência de estudos com base na trajetória de vida dos indivíduos e dos grupos asso-
lados pelas enfermidades. No final das verificações sobre a historiografia estrangeira,
parece irônico afirmar que os pesquisadores já produziram inclusive excelentes histórias
dos cadáveres, sem contudo ainda atentarem para a necessidade de estudos centrados
nas vidas dos adoentados.
Refletindo a tendência internacional, a História e as Ciências Sociais brasileiras
mostraram-se reticentes em assumir a temática da doença e dos doentes. Neste contex-
to, destaca-se a dissertação de mestrado em Ciências Sociais do sociólogo Oracy No-
gueira (1945) e consideravelmente revista na publicação datada de 1950 que, versando
sobre a experiência grupal com a tuberculose, permaneceu como exceção acadêmica por
um longo período. Explorado na minha pesquisa tanto como obra de referência quanto
como fonte primária, o texto do professor Nogueira ganha dimensão histórica própria,
tornando-se indispensável para o conhecimento das vítimas da Peste Branca no perío-
do anterior ao advento da estreptomicina.
Em anos mais recentes, algumas tentativas foram levadas a cabo no sentido de
recuperar o condicionamento social da existência tísica. A pesquisadora Alice Mar-
ques (1983) buscou verificar a eficiência dos canais de comunicação entre os assisten-
tes sociais e os pectários, ambientando seu trabalho em uma unidade hospitalar espe-


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cializada, sem contudo orientar seu estudo para a análise dos pectários no cenário
social mais amplo.
Ao mesmo tempo, o epidemiologista Antonio Ruffino Netto e o sociólogo José
Carlos Pereira (1981;1985) buscaram contextualizar a existência dos doentes do peito,
definindo genericamente o tuberculoso como ‘um Homem histórico, concreto, que preen-
che um lugar no tempo e no espaço’, concepção articulada ao entendimento da saúde e da
doença como fenômenos explicados pelas ‘relações globais’ ao nível da ‘realidade social
concreta’. Infelizmente, estes autores apenas sinalizaram as possibilidades de tratamento
histórico dos pectários, desviando suas análises para o campo de ‘determinação social’
da Peste Branca.
Neste contexto, destaca-se o importante estudo realizado pela pesquisadora
Ângela Pôrto (1997) sobre as repercussões da tuberculose na trajetória pessoal e pro-
fissional do poeta Manuel Bandeira. Seguindo as trilhas abertas pela recente Histó-
ria Social, esta estudiosa lançou novas luzes sobre as relações possíveis entre doença,
trajetória individual e sociedade, aflorando como iniciativa original assinada por uma
profissional da História.
O quase silêncio dos historiadores acerca dos doentes não é um fenômeno
isolado. Compartilhado por outras áreas científicas e até mesmo por uma ampla parcela
da comunidade hipocrática, as questões sociais e sobretudo os dilemas existenciais
suscitados pelos agrupamentos de enfermos parecem receber respostas furtivas, reve-
lando as dificuldades de incorporação dos adoentados tanto nos debates acadêmicos
quanto nas discussões administrativas e de políticas públicas.
Em conseqüência, ainda são recentes e lacunares as tentativas de conferir direi-
tos específicos aos indivíduos com a saúde abalada, inclusive o privilégio de conhecer
em detalhes as alternativas terapêuticas apropriadas para o seu caso e os riscos ineren-
tes às opções selecionadas pela medicina. De regra, tudo ocorre como se o paciente
fosse privado de discernimento próprio, cabendo ao médico e a um ‘responsável’ pelo
doente a tarefa de resolver as questões suscitadas pela enfermidade. Assim, a apatia
dos historiadores revela-se como uma das facetas do isolamento social a que são
relegados os grupos tocados pelos desarranjos de fundo orgânico e/ou psíquico.
A ausência de análises que situam a Peste Branca e suas vítimas como elemen-
tos de uma mesma problemática histórica, no tocante ao contexto brasileiro, produz a
sensação de que tudo ainda está por ser feito. Por isso, antes de focar os personagens
consuntivos, impõe-se a necessidade de fixar o cenário. Cenário que se torna funda-
mental para a compreensão das atitudes individuais e coletivas frente ao dilema sanitá-
rio. Com isso, a pesquisa ganha sentido e extensão bem mais abrangentes que o inicial-
mente programado, permitindo o enquadramento da História Social da Doença e do
Doente na ampla teia do pretérito nacional.
Assim, tomando-se como opção o enquadramento dos doentes como ativos

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