Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página69/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
1   ...   65   66   67   68   69   70   71   72   ...   115
A P
ERCEPÇÃO
 C
LÍNICA
 
DO
 P
ACIENTE
Da mesma forma que a Peste Branca, o ensino dos códigos que regiam a relação
entre o facultativo e sua clientela constituía-se em tópico que parecia despertar pouco
interesse nas academias brasileiras. Na Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo, por exemplo, o professor Flaminio Fávero reservava uma aula de apenas 50
minutos para apresentar o tema aos sextanistas do curso, indicando como bibliografia
de apoio à sua preleção um livro de sua autoria, no qual nenhuma linha era gasta para
explorar as condicionantes do encontro entre o profissional da saúde e sua clientela.
Nesta situação, outras disciplinas da mesma escola empenhavam-se em preen-
cher a lacuna aberta pelo mestre de deontologia médica. O professor Antonio de Almeida
Prado, responsável pelo ensino de clínica, era um dos docentes que buscava chamar a


157
atenção dos seus discípulos, levando-os às enfermarias da Santa Casa para ensinar-
lhes os princípios regentes da anamnese.
Como atividade prática de seu curso, em setembro de 1933, o Dr. Almeida Prado
convocou os alunos do quarto ano para visitarem o Sanatório do Jaçanã, já que o
tópico estudado naquele período versava sobre o exame dos indivíduos afetados pelas
patologias respiratórias. Como material de estudo, o professor selecionou o caso do
paciente José Candiá (P. 92), um daqueles tuberculosos que, apesar de fugir do comum
biográfico dos tísicos, a medicina situava como o típico doente pulmonar e por isto
objeto de fácil explanação pedagógica.
José Candiá era um sitiante sorocabano de 43 anos que dera entrada no Hospital
São Luiz Gonzaga no mês anterior. Após informar que o pectário sofria de tísica termi-
nal, o catedrático definiu o doente como homem de “vida promiscua, alcoolatra, fuman-
te inveterado e siphylitico”. Em seguida, o Dr. Almeida Prado chamou a atenção dos
estudantes para os principais pontos da história clínica do consuntivo, consultando as
informações que anotara numa folha de caderno que foi preservada junto ao prontuário
analisado:
Em plena saude começou a sentir-se fraco, fraqueza que augmentou rapidamen-
te, a ponto de deixar completamente o serviço em 2 dias, perdendo todas as
plantações. Tinha pouca tosse com expectoração amarela. Foi carregado para
S. José onde Dr. Ivan o examinou. (...) O medico receitou e melhorou muito. Foi
a Guararema, trabalhar em balcão, mas tornou a vida irregular, passando
noitadas em jogos, bebidas e mulheres. Foi atacado então de tosse muito extensa,
com abundante escarros, escarrando um dia laivos de sangue. Começou então
a sentir febre a tarde um arrepio e dor de cabeça. Suores abundantes e emagre-
cimento rapido. (P. 92)
A apresentação inicial do tuberculoso como indivíduo marcado pela promiscui-
dade chamou a atenção dos aprendizes dos segredos da clínica. O termo em questão era
a chave para o entendimento hipocrático dos tísicos, sendo palavra de emprego corren-
te nos ensaios especializados.
A necessidade de conferir contornos inteligíveis ao evento patológico e à exis-
tência enferma  impôs que o Dr. Almeida Prado, imitando seus pares, lançasse mão das
fórmulas concordantes com a tradição cultural que identificava a posição de doente do
peito como desdobramento ‘natural’ da existência ‘desregrada’. Segundo esta
concatenação de idéias, a vida tuberculosa comportava uma variedade de ‘máculas’,
estando dentre elas: dependência do álcool, do tabaco e dos tóxicos, parentesco próxi-
mo a pessoas enfermas, homossexualismo, onanismo, fruto de união consensual, defi-
ciência mental, crença na doutrina espírita, criminalidade, ‘tendências revolucionárias’,
condição de migrante e de morador em residência coletiva, enfim, todos os ‘desajustes’
que contradiziam as regras de sociabilidade formalmente ostentadas pela burguesia.
Somadas todas estas categorias ‘aberrantes’, revelava-se o que a comunidade
médica definiu como sendo a ‘psicologia dos tuberculosos’. Fenômeno de abrangência
universal, a concepção de um padrão comportamental exclusivo dos infectados incitou
os tisiologistas brasileiros a descobrirem os meandros da personalidade fimatosa por
meio da consulta aos estudos estrangeiros, detendo-se principalmente nos textos as-


158
sinados pelos italianos Bergolli e Sartori (1933). Estes pesquisadores, por sua vez,
declaradamente fundamentavam suas observações nos enredos literários,
rememorando os ensinamentos de Dumas Filho, dos Goncourt e de muitos outros
ficcionistas para, no final de tudo, reiterarem a periculosidade moral e biológica dos
consuntivos. Com isto perfazia-se o círculo vicioso que, preso nas armadilhas das
composições romanceadas, ampliava o afastamento da medicina em relação à vida
concreta dos tributários do Grande Mal.
A proliferação de referências acerca da ‘mentalidade consuntiva’ empolgou
alguns médicos brasileiros a imitarem os seus pares europeus, resultando em textos que
tinham como objetivo interpretar as ‘atitudes’ produzidas pela infecção kochiana. No
ano de 1931, por exemplo, o Dr. Irineu Malagueta, médico carioca do Hospital São
Sebastião, declarou que a moléstia pulmonar incitava seus tributários a desenvolverem
‘espirito suspicaz’ e ‘sentimentos egoistas’, dentre outras ‘taras’.
Frente a estes eventos, o clínico prescreveu a intervenção reeducadora sobre os
comportamentos afetados, aconselhando seus colegas de profissão a somarem paciên-
cia e sinceridade, indulgência e firmeza na tarefa de ‘conversão moral’ dos doentes do
peito. Segundo o Dr. Malagueta (1931:86), pouco mais os tisiologistas poderiam fazer
pelo ‘bem-estar espiritual’ de seus pacientes: “Fóra dahi, tudo sossobra na grande
voragem, mas permanece christãmente, brilhando com a sua luz eterna, a bondade, a
amenizar os ultimos momentos dos desgraçados, acenando sempre com as perspecti-
vas illuminadas da esperança”.
O professor e administrador sanitário Aloysio de Paula talvez tenha sido o
especialista que mais se empenhou em ratificar a máxima classificadora dos pectários
como “os mais difíceis de todos os pacientes”, avaliando os enfraquecidos do peito por
meio dos jargões e manobras empregados pelo Estado Novo para desqualificar os
grupos contestadores da política social varguista.
Ao dissertar sobre a ‘psicologia consuntiva’ para seus alunos da Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro, parece que o Dr. Aloysio se esqueceu que poucos anos
antes ele havia duelado contra o mal que escavara cavernas em seus pulmões, ofere-
cendo o seguinte esclarecimento:



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   65   66   67   68   69   70   71   72   ...   115


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal