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enfim, tudo novo, melhor e diferente. (Etzel, 1987:131)
Pode-se supor que os olhos do bolsista estivessem contaminados pela ideologia
norte-americana que, durante a Segunda Guerra Mundial, intensificou a campanha
divulgadora dos Estados Unidos como a nação do progresso e da sofisticação científica.
Mas não eram só os ‘irmãos do norte’ que impressionavam o Dr. Etzel. De regresso ao Brasil,
o tisiocirurgião foi convidado a proferir uma série de conferências na Argentina, mostrando-
se novamente irrequieto com a baixa qualidade da medicina praticada na sua pátria:
Lá chegando e observando os serviços de cirurgia de alguns hospitais, tive, só
então, o choque profundo de ver o atraso do Brasil em cirurgia. Encontrava na


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Argentina um ambiente equivalente ao que tanto me havia surpreendido nos Esta-
dos Unidos. (...) [No Brasil] tudo era adverso, nossa enfermagem era selvagem,
representada antes pelo avental branco do que pelo conhecimento. (1987:135)
Frente a todas estas limitações, a tisiologia nacional mostrava-se constrangedo-
ramente precária no cenário de uma especialidade por si mesma repleta de críticas
lacunas. A possibilidade de obtenção de melhora ou de cura dos pectários era ainda
mais reduzida que em outros países, mesmo se o paciente pagasse regiamente pela
assistência médica recebida.
Quanto aos clínicos, estes se perdiam frente à multiplicidade de especulações
terapêuticas, fomentadas tanto no Brasil quanto no estrangeiro. Com as dúvidas que
foram se acumulando em torno da eficiência do tratamento com base no ‘clima de
altitude’, os tisiologistas voltaram-se para a verificação da potencialidade das drogas
apresentadas como curativas dos pulmões infectados.
Um levantamento realizado a partir das propagandas estampadas nas páginas
do periódico paulista da especialidade permite saber que, no decênio iniciado em 1935,
não menos de duas centenas de medicamentos foram recomendados como de ‘eficiên-
cia incontestada’ na recuperação dos tuberculosos. Entretanto, a constatação de que
nenhum dos preparados contribuía decisivamente para o restabelecimento da saúde
dos pectários coagiu boa parte da comunidade médica a assumir ‘intra-muros’ que, na
impossibilidade de curar os fimatosos, os médicos deveriam se resignar ao emprego de
estratégias que, pelo menos, pudessem garantir maior tempo de vida aos infectados.
Como regra, a terapêutica sanatorial assentava-se no repouso contínuo e pro-
longado e no regime higieno-dietético, os quais eram combinados com aplicações de
injeções de cálcio e de sais de ouro. Caso estas prescrições surtissem pouco resultado,
o passo seguinte era combinar o tratamento inicial com a solução colapsoterápica.
Neste encaminhamento, o pneumotórax artificial ganhou larga aceitação a partir da
década de 30, consistindo na injeção de misturas gasosas na cavidade pleural do enfer-
mo. Com isso, a medicina acreditava ter possibilidade de controlar o processo infeccio-
so, por meio do isolamento do órgão doente em relação à parede torácica.
Na situação em que ocorria a impossibilidade da instalação ou manutenção do
pneumotórax, a alternativa seguinte consistia na intervenção cirúrgica para forçosa-
mente colocar em repouso o pulmão comprometido. Apesar da máxima que ensinava
que ‘a tuberculose não gosta de bisturi’, a tisiocirurgia ganhou o apoio de um grande
número de especialistas, granjeando fama para o Sanatório do Jaçanã que, desde a sua
fundação, deu ênfase ao tratamento operatório dos tuberculosos.
Em um período no qual a medicina ainda não reunia conhecimentos suficientes
para a excisão parcial ou total de um dos pulmões – a pneumectomia só seria tentada no
Brasil após 1945 – a colapsoterapia cirúrgica ajustou-se como um dos principais artifí-
cios para interromper o processo infeccioso pulmonar. Apesar da variedade de linhas
operatórias, duas intervenções ganharam aceitação generalizada, uma visando aos ner-
vos frênicos, e outra às costelas.
A frenicectomia consiste na secção de um dos nervos frênicos na porção retro-
clavicular, podendo em certos casos derivar para o total esmagamento da peça. O


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objetivo desta operação era levar à paralisação e à conseqüente ascensão da metade
correspondente do diafragma, resultando no interrompimento da atividade respiratória
do pulmão adoentando, fato que favorecia o retrocesso das cavernas pulmonares.
Na seqüência dos atos cirúrgicos, o pectário poderia também ser submetido à
toracoplastia, cirurgia mutilante que se realizava por meio da ressecção de três a cinco
costelas, levando o pulmão infectado a ganhar relativa liberdade do arcabouço torácico.
Nesta alternativa, a intervenção era extremamente dolorosa, sendo realizada em pelo
menos dois momentos distintos. Como resultado, o tuberculoso guardava pelo resto
dos seus dias a marca externa da cirurgia, pois a toracoplastia tinha como subproduto
a deformação do tórax e o desvio da coluna vertebral, abrindo chances para que o
doente ficasse corcunda.
O risco implícito das operações pulmonares ganhava novo peso quando se cons-
tata que a avaliação do Dr. Etzel sobre o procedimento cirúrgico nacional não estava
afastada da verdade. Anotações sobre a ocorrência de acidentes causados pelo despreparo
da equipe médica é uma presença constante nos prontuários do Hospital do Jaçanã.
Dentre tantos casos assinalados, destaca-se o da carioca Iracema de Almeida
(P.3617) que, depois de permanecer quase uma década internada no jordanense Sanató-
rio Divina Providência, em maio de 1943 foi encaminhada para o Hospital São Luiz
Gonzaga para se submeter à toracoplastia. Realizado os ‘dois tempos’ operatórios, a
paciente retornou para a Serra da Mantiqueira, mas pouco depois voltou à casa de
saúde paulistana a fim de, mediante nova cirurgia, permitir a “retirada de uma gaze
esquecida pelo Dr. Freitas”.
Mesmo quando o trabalho cirúrgico se desenvolvia sem acidentes imediatos,
eram grandes as chances da ocorrência de complicações nos dias subseqüentes à
operação. O grupo paulista de médicos tisiólogos agregados ao Sanatório do Jaçanã foi
o único que divulgou informações sobre o assunto, mesmo assim, limitando suas ob-
servações ao estudo das estatísticas referentes à ‘operação de Jacobaeus’, ato rela-
tivamente simples e que consistia no secionamento das aderências pleurais que impe-
diam a realização do pneumotórax.
Nestes casos, os dados revelam que, no ano de 1936, cerca de 40% dos enfer-
mos submetidos a este tipo de intervenção apresentaram complicações pós-cirúrgicas,
enquanto quatro anos depois a mesma taxa se elevava para 77%. Em ambos os momen-
tos, a explicação fornecida pela equipe médica era única: “a gravidade das lesões
tuberculosas” (Nebias, 1937).
O poderio da enfermidade parecia colossal frente aos tênues recursos disponíveis
pela clínica e pela cirurgia, resultando no ritmo intenso de óbitos ocorridos no isolamento.
A quantificação dos dados registrados nas 3.438 fichas de pacientes internados no Hos-
pital São Luiz Gonzaga entre os anos de 1932 e 1945 permite concluir que 62% dos
pectários encontraram a morte nas enfermarias do nosocômio, ressaltando-se que a taxa
de mortalidade chegou a 75% nos primeiros anos de funcionamento do sanatório.
Índice parecido foi indicado pelo Dr. Alves Corrêa (1949) que, ao verificar a história
clínica de mil tuberculosos assistidos pela casa de saúde do Jaçanã desde sua inaugu-
ração, concluiu que 65,9% do grupo estudado teve a morte como desfecho do internamento.


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Como reagiam os médicos operadores em um contexto em que as dores indizí-
veis experimentadas pelos pacientes encontravam como resposta a grande probabilida-
de do fatal fracasso das violentas intervenções cirúrgicas? Neste ambiente, o discurso
enganoso que pontificava a capacidade da medicina em recuperar a saúde dos
tuberculosos ganhava uma funcionalidade surpreendente. Sim, mentir para si próprio e
impor a fantasia ao paciente consistia em arma única utilizada pelos cirurgiões para
transpor os momentos críticos vivenciados nas salas de operação.
Ainda são as confidências do Dr. Etzel que revelam a agonia e as palavras
mentirosas que povoavam os instantes de desespero:
No final da década de 30, o cirurgião do tórax usava anestesia local com novocaína.
A toracoplastia já era feita em vários tempos operatórios com intervalos de 20 a 30 dias.
No primeiro tempo, com os tecidos normais, a anestesia local era perfeita, tudo correndo
sem maiores sofrimentos. Mas nos tempos subseqüentes, com tecido edemaciado e já
com reações fibróticas, a difusão do anestésico era precaríssima, transcorrendo a ope-
ração com grandes sofrimentos do paciente.



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