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N
A
 T
RILHA
 
DA
 P
RECARIEDADE
A escolha pela tisiologia colocava o médico iniciante em contato com uma rea-
lidade que o surpreendia, principalmente porque o arsenal clínico-cirúrgico disponível
pela especialidade padecia de lacunas bem maiores que outros ramos da medicina. Tal
averiguação contrastava com os discursos oficiais, pois as falas corporativas no Brasil,
reproduzindo o tom ufanista de Vargas, insistiam em afirmar para o público leigo que a
tisiologia estava plenamente capacitada para tratar e curar os consuntivos cuja enfermi-
dade ainda não tivesse assumido decurso agudo.
Neste idealizado contexto, os graduandos de medicina abandonavam os bancos
universitários tendo parcas noções sobre as características e o funcionamento da tu-
berculose, esperando encontrar no ambiente sanatorial conhecimento e condições
materiais apropriadas para cumprir a tarefa de assistência aos infectados.


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No entanto, os relatórios assinados pelos diretores clínicos de várias casas de
saúde deixavam claro que os sanatórios padeciam da falta de quase tudo: médicos em
número suficiente, harmonia e integração entre os funcionários, aparelhos de Raios X,
instrumentos em condições de uso, mesas cirúrgicas, microscópios, cobaias, camas
hospitalares, escarradeiras, urinóis e roupas para os enfermos eram alguns dos itens
constantemente mencionados. Mais ainda, um antigo funcionário de um sanatório fi-
lantrópico confidenciou que, durante os anos marcados pela Segunda Guerra Mundial,
chegou a escassear até mesmo alimentação, impondo o racionamento da comida que
era servida aos albergados.
A postura defensiva dos administradores hospitalares, fugindo à lógica, avalia-
va que as limitações das atividades sanatoriais deviam-se basicamente à formação
precária e à falta de empenho dos profissionais da saúde. Por isso, os tisiologistas eram
colocados sob suspeição, tornando-se regra as avaliações que responsabilizavam os
médicos e seus auxiliares diretos pelas altas taxas de acidentes cirúrgicos e de mortali-
dade que imperavam nos nosocômios que assistiam os consuntivos (Paula, 1949).
Destituídos de amparos institucionais favoráveis, os facultativos interessados
em aprofundar seus conhecimentos também não encontravam o incentivo dos braços
governamentais, tornando a tisiologia nacional isolada e defasada em relação àquela
praticada nos centros médicos estrangeiros. Para fugir a este dilema e também para se
afastar das disputas por postos acadêmicos que agitavam os sanatórios com ligações
universitárias, muitos médicos tentaram obter bolsas de estudo no exterior, onde os facul-
tativos tuberculosos poderiam inclusive consultar os líderes mundiais da especialidade.
Seguindo a estratégia de buscar aperfeiçoamento em outros países, Eduardo
Etzel foi premiado com o auxílio da Fundação Guggenheim para seguir os cursos minis-
trados no Centro Hospitalar de Ann Arbor, vinculado à Universidade de Michigan. Nos
Estados Unidos, o Dr. Etzel permaneceu durante os anos de 1940 e 1941, revelando sua
perplexidade frente às técnicas empregadas pelos norte-americanos:
Quando cheguei [ao hospital americano] já era, bem ou mal, um cirurgião tanto
quanto possível completo. (...) Mas o que vi estarreceu-me e me fez pensar que
estava num outro mundo. (...) Tudo me espantava. Soro na veia durante o ato
operatório e sangue também se necessário. Operações lentas, sem pressa e com
um respeito quase religioso à integridade do paciente. Contagem das gazes e
compressas utilizadas, a fim de evitar esquecimento. Aspiração para retirada de
sangue no campo operatório, sutura com fio de algodão por mim desconhecido,


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