Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página64/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
1   ...   60   61   62   63   64   65   66   67   ...   115
A O
PÇÃO
 T
ISIOLÓGICA
Conhecer a motivação que conduzia o facultativo recém-graduado a optar
pela ‘perigosa’ área da tisiologia consiste na primeira operação para o entendimento
da vida do médico que, usualmente, repartia suas atividades entre a prática sanatorial
e o consultório particular. Isso porque era moeda corrente nas décadas passadas –
como até hoje – a idéia de que o trabalho clínico-cirúrgico junto aos pacientes porta-
dores de enfermidades infecto-contagiosas constituía-se em tarefa de risco conside-
rável, podendo o profissional de saúde transformar-se em vítima da doença que bus-
cava combater.
Além disso, a condição moralmente pervertida conectada à imagem dos
consuntivos certamente se revelava em fator auxiliar de desencorajamento, fazendo o
candidato à especialização hesitar e até desistir dos compromissos de aprimoramento
neste setor da medicina.


150
Uma análise precipitada permitiria concluir que a escolha pela tisiologia encon-
trava fundamentos exclusivos em um punhado de motivos perenemente recitados pela
corporação dos esculápios. Nesse processo, o juramento misericordioso de prestar
assistência aos enfermos mais graves se uniria aos desafios propostos por uma área
frágil em conhecimentos e recursos salvadores; em contrapartida, o médico teria à sua
disposição uma clientela cativa, sendo que pelo menos uma parte dos pacientes retri-
buiria prodigamente aos serviços prestados pelo facultativo.
As histórias de vida – conceito assumido neste livro de forma livre, independen-
te das propostas indicadas pelos estudiosos desta técnica – de inúmeros especialistas
em moléstias pulmonares fazem aflorar um dado comum que garante o caráter peculiar
da comunidade dos tisiologistas: a maior parte dos doutores que se propuseram a
combater o Grande Mal nutria convívio íntimo com a tuberculose, não apenas como
agente sanitário, mas também como vítima imediata da infecção.
Aloysio de Paula, Raphael de Paula Souza, Rodolfo dos Santos Mascarenhas,
Ruy Dória, Nelson D’Avila, Januário Miráglia, Clovis Correa, Miguel Covello Junior,
João Pedro Além, Vicente Marcilio, Manoel Puerta Junior, Alberto Cavalcanti, Mario
Capper Alves de Souza, José Feijó, Ivan de Souza Lopes e João Baptista de Souza
Soares são alguns dos médicos que, atuantes nos anos 30 e 40, sofriam no próprio
corpo os dolorosos efeitos do germe de Koch.
Entre alguns discípulos de Hipócrates, tornou-se fato comum referências sobre
o que era denominado ‘minha tuberculose’, especialmente quando os clínicos teciam
mensagens orientadoras para os pacientes infectados. O tisiologista Alberto Cavalcanti
foi um dos fimatosos que se arvorou em modelo a ser imitado por sua clientela e pelos
leitores do seu livro de orientação aos pectários. Após discorrer sobre sua trajetória de
fraco do pulmão, o Dr. Cavalcanti questionava seu público: “Lendo êste capítulo, escri-
to, com otimismo, por quem já conheceu de perto a tuberculose, como doente e como
médico, participará o leitor dêste otimismo? Ou julgará mais acertado manter a dúvida e
o pessimismo?” (1935:22).
Segundo os fragmentos autobiográficos registrados nos livros dirigidos aos
enfermos leigos, o caminho percorrido pelos clínicos contaminados correspondia aos
percursos corriqueiros a todos os consuntivos. Descoberto o estado infectado próxi-
mo ao encerramento do curso de medicina ou logo após o juramento exigido pela
Academia, as alternativas vislumbradas para o encaminhamento da vida eram estreitas:
abandonar a carreira médica ou internar-se em um sanatório, para, no recolhimento
hospitalar, aprender minuciosamente a prática tisiológica e, ao mesmo tempo, tratar dos
pulmões contaminados.
Entre uma e outra via, alguns médicos preferiram afastar-se da profissão, dirigin-
do-se para as montanhas exclusivamente para tentar a cura. Assim aconteceu com Jamil
Almansur Haddad que, diagnosticado consuntivo em meados da década de 30, reuniu
forças suficientes para completar o curso na Faculdade de Medicina de São Paulo,
recebendo seu diploma em fins de 1938. Pertencente a uma família de ricos industriais e
comerciantes, o Dr. Jamil recolheu-se em Campos do Jordão, preenchendo o tempo
cobrado pelo tratamento com a produção de composições poéticas. Ao recuperar a


151
saúde, o escritor retornou para a capital dos paulistas, dedicando-se à docência no
Departamento de Letras da Universidade de São Paulo.
Contrariando a opção assumida por Almansur Haddad, outros esculápios prefe-
riram dedicar-se ao tratamento de seus companheiros de enfermidade. Nessa condição,
somavam-se elementos ambíguos em um único personagem, já que a liberdade
normatizadora conferida aos tisiologistas pouco se afinava com o cerceamento imposto
à clientela, tão contaminada quanto o próprio médico.
A trajetória do médico Manoel Puerta Junior (P. 1107) é um exemplo do encami-
nhamento existencial imposto aos clínicos fimatosos. Nascido em Jaboticabal, no ano
de 1915, Puerta Junior foi enviado pelo pai – fazendeiro abonado – para graduar-se em
medicina no Rio de Janeiro, regressando ao seu município de origem no verão de 1939.
Engajado nas tarefas de clínico geral e administrador dos negócios da família,
em setembro do ano seguinte, o Dr. Manoel começou a padecer de fraqueza e tosse
contínua, atribuindo tais sintomas ao agravamento da bronquite que o acompanhava
desde a infância. Porém, “no dia 18 de novembro [de 1940] às 9 1/2 da manhã teve tosse
com escarros hemoptoicos e diarrea” (P. 1107). Ato contínuo o doente consultou um
colega de profissão, o qual concluiu “não ser nada pulmonar”. Desconfiado do diag-
nóstico apresentado, ainda no mesmo dia o enfermo submeteu-se a um exame radioló-
gico, descobrindo então que seus pulmões estavam comprometidos pela tuberculose.
Após um mês de tentativas de tratamento em domicílio e percebendo estar piorando, o
pectário transferiu-se para a cidade de São Paulo, sendo encaminhado ao sanatório do
Jaçanã pelo seu amigo, o tisiologista João Grieco.
O paciente permaneceu apenas três meses na casa de saúde paulistana. Acom-
panhando a tendência comum entre os internados no Hospital São Luiz Gonzaga, o
médico infectado pediu alta, transferindo-se por conta própria para um nosocômio
jordanense. A melhora pulmonar alcançada durante a estada na Serra da Mantiqueira
permitiu que o Dr. Manoel voltasse a residir com seus pais, a partir dos fins de 1942.
Mas, transcorridos seis meses desde o retorno para Jaboticabal, novamente o consuntivo
bateu à porta do Sanatório do Jaçanã, informando ter sofrido recaída, sendo imediata-
mente submetido à intervenção cirúrgica (P. 3712).
No tempo que permaneceu em sua residência, é bem provável que o clínico
tenha infectado seu pai, o espanhol Manoel Puerta (P. 2442). Isto porque, na primeira
internação, o médico tuberculoso havia declarado que seus progenitores “gosavam de
plena saude”, sendo que, em fevereiro de 1945, o fazendeiro veio se juntar ao filho,
apresentando uma tísica disseminada que o levaria a óbito nas primeiras horas do dia 12
de abril do mesmo ano, apenas quatro meses após sentir os primeiros sintomas produ-
zidos pelo bacilo de Koch.
O trauma gerado pela morte paterna combinou-se com a piora do estado de
saúde do médico fimatoso, fazendo o Dr. Puerta Jr. manter-se no hospital filantrópico
por mais de três anos consecutivos. A anotação prontuarial do nome do paciente
antecedido pelo título acadêmico que lhe havia sido conferido pela escola médica cario-
ca revelava-se como o reconhecimento grupal do status diferenciado do enfermo, origi-
nando uma situação atípica e constrangedora, em que inevitavelmente se defrontavam


152
forças contraditórias. Por óbvio, os funcionários do sanatório tendiam a repetir a con-
duta padrão frente aos hóspedes tuberculosos, enquanto o grau de doutor e a riqueza
familiar levavam este consuntivo a não ser identificado integralmente aos demais enfer-
mos do isolamento sanitário.
Frente a este dilema, a tendência dos sanatórios era integrar os eventuais paci-
entes titulados como membros secundários das equipes médicas. A partir do mesmo
ano em que se iniciou o segundo internamento do clínico consuntivo, o nome do Dr.
Puerta Jr. passou a constar da lista de facultativos que atuavam no Hospital do Jaçanã,
o que lhe abriu oportunidade para ganhar reputação, inclusive como autor de inúmeros
estudos sobre as técnicas empregadas nas cirurgias torácicas. A experiência íntima
com a tuberculose transformara o clínico em tisiologista.
Não só o contágio na primeira pessoa levava os estudantes de medicina a opta-
rem pela especialização pulmonar. A presença mortífera da Peste Branca na órbita do-
méstica também se impunha como elemento incitador no instante decisivo do desti-
no profissional.
Eduardo Etzel – que uniu as atividades de tisiocirurgião em São Paulo e em São
José dos Campos com o posto de catedrático da Faculdade de Medicina da Universida-
de de São Paulo –, ao fazer a avaliação de sua trajetória de vida, parece que não teve
dúvidas ao afirmar que seu encaminhamento para a tisiologia deveu-se muito à morte de
Roberto, irmão mais velho e rival, cuja existência foi ceifada pela enfermidade pulmonar:



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   60   61   62   63   64   65   66   67   ...   115


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal