Scielo books / Scielo livros / Scielo libros bertolli filho, C



Baixar 1.56 Mb.
Pdf preview
Página62/115
Encontro21.08.2021
Tamanho1.56 Mb.
1   ...   58   59   60   61   62   63   64   65   ...   115
O primeiro sanatório de Campos do Jordão foram os bancos da estação ferro-
viária de vila Abernéssia, e o primeiro serviço social foi realizado pelo agente da
estação, Sebastião Leitão. Apesar de violento e malcriado, João Maquinista foi
um benemérito; tinha uma serraria na atual Av. Januário Miráglia, à altura do
n
o
 909, e aquele pessoal, semi-vivo, que ficava na estação ferroviária, era leva-
do para a serraria de João Maquinista, vomitando sangue (hemoptise), espe-
rando a hora de morrer. Até caixão já tinha pronto... (Paula Souza apud Paulo
Filho, 1986:255)
Por sua vez, o advogado jordanense Pedro Paulo Filho, ao lembrar-se de sua
experiência de menino em Campos do Jordão, complementou as trágicas informações
sobre as cenas que feriam o cotidiano da estação de cura: “Sebastião Gomes Leitão, o
agente, corria para lá e para cá, arrumando lugares para uns e passagens para outros.
João Maquinista muito ajudou, cedendo a sua serraria, onde o doente durava 2 ou 3
dias, às vezes, uma noite...” (Paulo Filho, 1986:294).
O estado caótico em que se encontrava a cidade das montanhas impôs interven-
ção oficial mais rigorosa sobre a legião de pectários que dominava o ambiente jordanense.
A primeira operação administrativa foi instalar no cargo de prefeito apenas clínicos com
conhecimentos de higiene pública, afastando assim os primeiros administradores da
região que pertenciam à clientela dos coronéis atuantes no Vale do Paraíba ou que
alinhavam-se dentre os burocratas de carreira e que gozavam de algum prestígio junto
ao partido governista.
Com esta medida, a partir de 1931, foi indicado para ocupar o cargo de prefeito
sanitário o médico Antonio Gavião Gonzaga que estabeleceu o zoneamento da área
como primeiro ato de sua administração. Seguindo as orientações estipuladas pela
Companhia Campos do Jordão, o novo prefeito – que se manteve no cargo até meados


145
de 1938 – ratificou os limites do território que deveria ser exclusivo dos sadios e os
terrenos destinados à construção de sanatórios, assim como exigiu o imediato
cadastramento de todos os habitantes da estação de cura, procurando saber quem e
quantos eram os pectários que residiam na estância climatoterápica.
Em maio de 1933, Campos do Jordão recebeu autonomia política, desvinculando-
se de São Bento do Sapucaí. A mesma lei que criou o município, estabeleceu também o
código orientador da edificação de sanatórios, hospitais gerais e pensões, além de
reforçar a vigilância higienista sobre os enfermos. Com isso, buscava-se controlar efici-
entemente a presença dos infectados na cidade, ditando regras arquitetônicas e
comportamentais que objetivavam inibir a disseminação da moléstia pulmonar entre os
habitantes e os turistas sadios que percorriam a região.
A administração jordanense aprovou leis e decretos que impunham a distância
mínima de dez metros entre os prédios a serem construídos no município, a
obrigatoriedade de todos os edifícios de trânsito coletivo terem escarradeiras e os
bares, restaurantes e pensões disporem de equipamentos destinados à esterilização de
pratos, copos e talheres. Mais ainda, todos os habitantes e turistas que chegassem à
serra deveriam submeter-se ao exame dos pulmões, sendo que os tuberculosos não
poderiam receber abrigo nos hotéis destinados aos sadios, além de assumirem o com-
promisso de portar escarradeiras de bolso, apresentando-as aos inspetores sanitários
sempre que assim fosse solicitado.
Completando estas medidas, ainda coube ao Dr. Gavião Gonzaga conseguir
junto à administração estadual a instalação de órgãos públicos que direta ou indiretamen-
te favoreciam a fiscalização da vida pública e privada dos moradores da prefeitura sanitá-
ria, tais como novos Postos de Saúde (a partir da reforma de 1938 liderados por um Centro
de Saúde), delegacia e subdelegacias de polícia e escolas de ensino elementar.
No transcorrer do terceiro ano de sua gestão na prefeitura, o Dr. Gavião Gonzaga
reclamou do estado desolador que marcava a estação de cura, apesar de todas as
medidas que havia tomado desde o momento de sua posse. Segundo este médico, tudo
faltava para que Campos do Jordão se tornasse uma verdadeira prefeitura sanitária,
desde um plano urbanístico próprio e desvinculado dos interesses dos grandes propri-
etários de gleba até um órgão coordenador dos serviços médicos oferecidos localmen-
te, acrescentando ainda que as prescrições sanitárias eram anemicamente obedecidas
pela população das montanhas.
O ambiente consuntivo foi denunciado como uma grave ameaça à saúde dos
incautos turistas e mesmo dos pectários, inclusive devido ao funcionamento de inúme-
ros sanatórios e pensões clandestinas que trocavam precárias acomodações e assis-
tência clínica de péssima qualidade pelo pouco de dinheiro que os tísicos com acanha-
das posses poderiam dispor (Gonzaga, 1935).
No mesmo documento, o prefeito declarou que o principal motivo da ‘anarchia’
imperante nas montanhas era a inexistência de um orçamento especial destinado ao
município dos infectados. Mesmo que estabelecida pela lei datada de 1926, até o ano de
1934 a estação de cura não tinha recebido uma dotação orçamentária suficiente para a
realização dos compromissos básicos com a saúde pública local, resultando no ambien-


146
te malsão e perigoso que imperava em Campos do Jordão. Afinal, concluiu o médico em
seu relatório revelador: “é incrível que, em São Paulo, se crie uma Prefeitura Sanitaria
sem os recursos sanitarios” (Gonzaga, 1935:66).
Como resultado do veemente documento preparado pelo prefeito, o governo
estadual nomeou o engenheiro Prestes Maia para chefiar uma comissão composta por
médicos e urbanistas que deveria elaborar um projeto oficial de regramento do uso do
espaço jordanense. A demora na conclusão do plano fez com que este só fosse apre-
sentado ao Dr. Gavião Gonzaga nos últimos dias de sua presença à frente da prefeitura
sanitária, sendo que, ao final das contas, o projeto assinado por Prestes Maia nunca
chegou a ser colocado em prática.
Em conseqüência da inoperância oficial, abriram-se as portas para que a Compa-
nhia Campos do Jordão mantivesse o monopólio das decisões sobre a estância climáti-
ca por mais alguns anos. A empresa liderada por Macedo Soares, assessorada por
outras entidades menores, reunia poder suficiente para resolver inclusive sobre o local
de construção e o estilo arquitetônico dos prédios sanatoriais, os quais pouco seguiam
as normas sancionadas pela engenharia sanitária paulista.
A ingerência da Companhia Campos do Jordão nos negócios do município
ganhava contornos denunciadores. Como árbitro dos confrontos que agitavam a vida
local, Macedo Soares reunia maiores poderes deliberativos que o próprio prefeito.
Como exemplo, tem-se a disputa instaurada entre os sanatórios Santa Clara e São Cris-
tóvão, construídos em terrenos contíguos.
No ano de 1933, o nosocômio Santa Clara moveu ação contra a Sociedade Bene-
ficente dos Chauffeurs do Estado de São Paulo, que já havia empenhado uma razoável
quantia de dinheiro na edificação das estruturas do prédio do Sanatório São Cristóvão.
O motivo do confronto entre as duas instituições revelava os contornos de classe: as
irmãs missionárias que dirigiam as atividades do Sanatório Santa Clara recebiam quase
que exclusivamente pacientes ricos e concluíram que o contato com uma ‘má vizinhan-
ça’ – representada pelos motoristas e seus dependentes – seria prejudicial para a saúde
de seus requintados hóspedes.
Ciente do confronto, José Carlos Macedo Soares buscou abafar a situação,
pagando uma alta indenização à Sociedade dos Chauffeurs para que abandonasse o
prédio que estava sendo construído para abrigar os tuberculosos pobres. Além disso,
a Companhia Campos do Jordão doou aos motoristas um novo terreno para a constru-
ção do hospital, distanciado vários quilômetros do religioso nosocômio dedicado à
Santa Clara. Encerrava-se assim o conflito cuja motivação reproduzia a lógica geral que
dominava o funcionamento da sociedade brasileira.
Neste contexto de planejamento público quase inexistente, crescia o número de
enfermos que se instalavam na Serra da Mantiqueira. Apesar do Serviço Sanitário
encaminhar alguns tuberculosos pobres para os sanatórios agraciados com subven-
ções governamentais, o número de fimatosos miseráveis e desassistidos era muito
maior do que o contingente hospitalizado. Em continuidade, existia um exército de
enfermos mendigos vagando pela cidade e que sobreviviam às custas de esmolas, do
comércio ambulante e de pequenos furtos, engrossando a população das favelas que
rapidamente iam ganhando forma na estação de cura.


147
Visando a minimizar os efeitos da presença de tantos consuntivos desampara-
dos no município, em 1935, o prefeito determinou a destruição de uma série de palhoças
ocupadas pelos infectados pobres, ao mesmo tempo que adquiriu um barracão situado
na periferia da cidade que, após algumas reformas, ganhou o nome de Abrigo de Emer-
gência para os Tuberculosos. Neste local eram recolhidos os enfermos desabrigados,
mantendo-se sempre lotado, com um número de hóspedes bem superior aos oitenta
leitos disponíveis.
Complementando essa medida de segregação dos enfermos que tomavam as
ruas jordanenses, no início de 1940, o interventor Adhemar de Barros sobrepôs-se à
Companhia Campos do Jordão, impondo o poder público como único agente legalmen-
te capacitado para definir as regras de convívio na ‘cidade enferma’.
Nesse período foi aprovada uma lei estadual que, reiterando a orientação impos-
ta por Macedo Soares, determinava que as vilas Jaguaribe e Capivari se constituiriam
em áreas exclusivas para a acomodação dos turistas, enquanto a vila Abernéssia servi-
ria de espaço aberto aos pectários. A mesma peça legal impunha que todas as pensões,
hotéis e sanatórios que funcionavam nos terrenos residenciais teriam o prazo de um
ano para serem transferidos para a vila dos infectados.
Na seqüência, o Departamento Estadual de Saúde reiterou a necessidade de
cumprimento coletivo das disposições sanitárias, exigindo que todos os hotéis desti-
nados ao acolhimento dos turistas deixassem de aceitar hóspedes consuntivos, co-
brando rigorosa obediência ao dispositivo legal que impunha exame radiológico sema-
nal aos visitantes, sendo que a perícia clínica deveria ser monitorada por um agente
destacado pelo Centro de Saúde local.
Estas medidas, que com pequenas variações também foram aplicadas à estância
de São José dos Campos, não impediram que os eventuais forasteiros sadios redobras-
sem as cautelas quando instados a percorrer o território das prefeituras sanitárias
paulistas. O medo ao contágio kochiano aconselhava que se evitasse a permanência
desnecessária nas cidades-sanatórios, pouco adiantando a multiplicação dos cartazes
que, afixados nas portas de alguns hotéis e de lojas comerciais, tinham inscrito a inva-
riável advertência: “é expressamente proibida a entrada de pessoas portadoras de mo-
léstias infecto-contagiosas”.
Antigos moradores de Campos do Jordão e São José dos Campos lembram que
era fato comum os passageiros dos trens que faziam paradas nas estações de cura se
recusarem a sair da composição, e quando assim o faziam, muniam-se de precauções,
levando um lenço ao nariz para evitar a invasão do mortal bacilo. O médico Eduardo
Etzel (1987) rememorou que, durante os anos que trabalhou como cirurgião do Sanató-
rio Vicentina Aranha, recobria-se de todos os cuidados para impedir o acidente da
contaminação, não se arriscando nem mesmo a tomar um cafezinho nos bares joseenses,
com medo de tornar-se mais uma vítima da Peste Branca.
A fama curativa das estâncias climatoterápicas amalgamou-se com a reputa-
ção de áreas insalubres, pois perpetuadoras da infecção kochiana. O município de
Campos do Jordão despontava como a localidade brasileira com maior taxa de
tuberculinização infantil. Segundo uma pesquisa datada de 1940 e realizada pelo Cen-


148
tro de Saúde local, pouco mais de 70% das 429 crianças matriculadas nas escolas da
área apresentavam reação positiva ao micróbio tuberculoso, sendo que 8 delas eram
portadoras de lesões tísicas.
Mediante estas constatações, os autores do estudo concluíram que, se utilizas-
sem métodos mais confiáveis, poderiam detectar uma porcentagem ainda mais elevada,
atribuindo tal situação ao cotidiano que, apesar de todas as restrições sanitárias, acabava
forçando a aproximação entre os tísicos e os sadios. Os mesmos estudiosos diagnostica-
ram: “a existência de uma certa promiscuidade entre os enfermos e o resto da população
local, promiscuidade essa que se vem acentuando de ano para ano” (Faria, 1940).
Mais do que mutiplicadora dos tributários do Grande Mal em seus limites, as
prefeituras sanitárias foram denunciadas como propagadoras da tuberculose pelas re-
giões vizinhas. A poluição microbiana ampliava seu raio de ação, atingindo as peque-
nas cidades e os bairros rurais do Vale do Paraíba. Tal fenômeno foi atribuído inclusive
à prática comum dos sanatórios promoverem, periodicamente, excursões pelas áreas
pouco distantes das estâncias climatoterápicas, facilitando o contato entre os doentes
do peito e a população cabocla que, desconhecedora do bacilo de Koch, mostrava-se
altamente suscetível à contaminação microbiana e ao rápido desenvolvimento da mo-
léstia pulmonar.
Degradados, ameaçados, discriminados pelos sadios e quase esquecidos pela
filantropia e pela administração pública: condicionantes impostas tanto aos tributários
da Peste Branca quanto aos centros de convergência dos tuberculosos.
As dificuldades encontradas em permanecer residindo nas grandes áreas urba-
nas coagiam os pectários a trilharem as rotas que tinham ponto final nas cidades sani-
tárias, esperando nelas encontrar assistência e solidariedade. Chegando às estações de
cura, os doentes do peito deparavam-se com novos e surpreendentes obstáculos,
situação que se ampliava em escala inversa aos recursos econômicos disponíveis por
cada um dos infectados. A geografia da esperança poderia, então, converter-se na
geografia da desilusão.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   58   59   60   61   62   63   64   65   ...   115


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal