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AMPOS
 
DO
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ORDÃO
O início da presença de tuberculosos na Serra da Mantiqueira remonta ao ano de
1879, quando os clínicos consuntivos Francisco Romeiro e Gustavo de Godoy, discípu-
los da medicina germânica, patrocinaram a construção de alguns chalés para acomodar
a eles próprios e também alguns de seus pacientes infectados.
Poucos anos depois, os Drs. Clemente Ferreira e Luis Pereira Barreto percorre-
ram a região, divulgando, por meio da imprensa paulista, a qualidade salutar e
reconstitutiva dos ares do município de São Bento do Sapucaí, que na época tinha


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Campos do Jordão como um de seus distritos. Assim, desde a penúltima década do
século XIX, a localidade já se tornara objeto de várias campanhas que reivindicavam a
construção de sanatórios na Serra da Mantiqueira. Na falta de casas de saúde, o clima
e a beleza natural das montanhas foram invocados na tentativa de atrair grupos de
turistas, alertando-se os viajantes de que os espaços de descanso estavam rigorosa-
mente proibidos para os pectários que eventualmente afluíssem para aquela localidade.
A ausência de estradas minimamente confortáveis impunha que os viajantes
que partiam do Vale do Paraíba fossem transportados para Campos do Jordão em lombo
de burro ou em liteiras. Um caminho de ferro que ligaria a cidade de Pindamonhangaba
com a estação de cura começou a ser construído em 1912, sendo completado 12 anos
depois, a expensas do governo estadual. Ao ser inaugurada a linha férrea, o povoado
de Campos do Jordão já contava com vários núcleos populacionais e com aproximada-
mente uma dúzia de pensões – algumas de luxo, outras míseros barracões – que abriga-
vam centenas de fimatosos em busca de recuperação da saúde.
Ainda no ano de 1924, o político e intelectual José Carlos de Macedo Soares
organizou a Companhia Campos do Jordão, incorporando vastas glebas de terra, inclu-
sive uma propriedade que Emílio Ribas e Victor Godinho tinham adquirido em socieda-
de, na década anterior.
Coube a esta empresa o papel pioneiro de aplicar as primeiras regras de segrega-
ção dos enfermos que afluíram para a Serra da Mantiqueira, medida que se estendeu nos
vinte anos seguintes, mesmo depois das sucessivas reorganizações da vigilância sanitá-
ria oficial. Seguindo a orientação estabelecida por Macedo Soares, os lotes situados nas
vilas Jaguaribe e Capivari foram reservados para os compradores endinheirados, enquan-
to a vila Abernéssia ficou destinada à ocupação da população pobre e enferma.
Batizada pelos higienistas e pelos administradores como a ‘Suíça brasileira’, Cam-
pos do Jordão atraiu a high society paulista que buscava a região serrana para desfrutar
os períodos de férias. Dentre os primeiros proprietários das mansões joseenses, encon-
tram-se clãs ilustres que, com o subterfúgio de procurar o ambiente da Mantiqueira para
se recuperar da agitação metropolitana, possivelmente dirigiam-se para as montanhas
para, discretamente, tratar de parentes e amigos contaminados pelo bacilo de Koch.
Dentre os representantes da elite bandeirante que, ainda na década de 20 habi-
taram a cidadela dos infectados, encontram-se as famílias de Adhemar de Barros, Con-
de Matarazzo, Ermírio de Moraes, Roberto Simonsem, Gastão Vidigal e Abreu Sodré.
A presença destes grupos influentes junto aos governos estadual e federal fez
com que a região, especialmente as áreas onde se aglomeravam os ‘turistas’ ricos,
ganhasse seguidos benefícios públicos e privados. A Companhia presidida por Macedo
Soares responsabilizou-se pela instalação das redes de água e esgoto, iluminação elé-
trica e coleta de lixo, enquanto os cofres públicos patrocinaram a implantação do servi-
ço de correio e também a abertura de uma estrada de rodagem que colocou em contato
direto a estação de cura com a cidade de São José dos Campos.
Como resultado, Campos do Jordão passou a ser divulgada como ‘um pedaço
da Europa incrustado nos trópicos’, fazendo com que momentaneamente a vila se
tornasse símbolo das esperanças de um país que lutava para se identificar com as


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‘nações civilizadas’. Em continuidade, o senador Roberto Simonsem ganhou o apoio da
intelectualidade paulista – inclusive de Monteiro Lobato – para desfraldar a bandeira
de uma campanha que pretendia transferir a capital da República para a Serra da
Mantiqueira, sob a alegação de que o ‘clima de altitude’ predisporia a administração
pública em geral e os políticos em particular para o trabalho contínuo e honesto.
A presença de tantas famílias ilustres na região permitiu que Campos do Jordão
fosse apresentada ao Brasil como área predominantemente turística. Várias publica-
ções veiculadas pelo governo paulista e datadas da década de 20 empenharam-se em
minimizar a presença dos tuberculosos no domínio da Mantiqueira, preferindo descre-
ver a vila serrana como território de descanso e recreação.
A concentração de tísicos nos limites jordanenses transformou-se, entretanto,
em algo incômodo e ameaçador, exigindo a intervenção da administração pública. Em
conseqüência, Carlos de Campos, presidente do estado de São Paulo, aprovou uma lei
que, datada de outubro de 1926, criava a prefeitura sanitária de Campos do Jordão que,
permanecendo na condição de comarca de São Bento do Sapucaí, passou a contar com
prefeito próprio, nomeado pela esfera estadual.
Inclusive por não dispor de orçamento próprio, a possível constituição de
uma Higienópolis cravada nas montanhas foi paulatinamente perdendo credibilidade
junto à população. No ano de 1928, Campos do Jordão abrigava uma população de
aproximadamente 5.200 pessoas, sendo que não menos de um terço deste total era
reconhecido como de indivíduos tuberculosos. Pela vez primeira assumia-se ofici-
almente que a prefeitura sanitária era sobretudo local de tratamento de pectários,
salientando-se a existência de cerca de vinte pensões autorizadas a hospedar os
doentes pulmonares.
Nos últimos anos da década de 20, tornara-se impossível ocultar a realidade:
Campos do Jordão havia se transformado no principal refúgio nacional dos ‘fracos do
peito’. Denominada de ‘Meca dos tísicos’ e ‘Chanaã dos tuberculosos’ por Clemente
Ferreira, a estação serrana cumpria o seu papel de isolante dos doentes, perdendo a
condição oficial de território exclusivo do turismo.
Apesar da redefinição da funcionalidade de Campos do Jordão, o governo
paulista manteve-se praticamente ausente das obrigações de amparo aos fimatosos
que se dirigiam para a Serra da Mantiqueira. Nos primeiros anos de vida da prefeitura
sanitária, a cidade não recebeu qualquer tipo de apoio orçamentário estadual, além
disso, os parcos impostos coletados acabavam sendo monopolizados por São Bento
do Sapucaí, sede da comarca.
A escassez de verbas próprias fazia com que o reduto dos tísicos não dispuses-
se de serviços gratuitos de socorro aos fimatosos, a não ser a malfadada Liga de
Assistência aos Tuberculosos Desamparados que, fundada em 1922 pelo médico
consuntivo Raphael de Paula Souza, parece que nunca chegou a prestar socorro a
qualquer enfermo, sob a alegação de falta de recursos. Ao encerrar sua existência em
1928, essa Liga doou o prédio de sua sede para o governo estadual, sob a promessa de
que lá seria instalado um centro de atendimento aos pectários carentes. Assim surgiu,
no ano de 1928, o primeiro Posto de Higiene jordanense.


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Os primeiros prefeitos sanitários de Campos do Jordão tiveram de lutar contra
toda sorte de adversidades: ruas esburacadas, pântanos insalubres, ausência de serviços
de saneamento básico nas áreas pobres e mais populosas coadunavam-se com a prolife-
ração de pensões e restaurantes anti-higiênicos e de barracões construídos às pressas e
alugados a preços altos, além das abusivas quantias exigidas pelos comerciantes para as
roupas e alimentos indispensáveis aos forasteiros que peregrinavam pela região.
A estratégia paliativa para contornar a falta de recursos públicos foi a criação de
uma série de impostos locais que, ao serem somados, revelavam-se pouco significati-
vos, cobrindo apenas os gastos representados pelos salários de meia dúzia de funcio-
nários contratados pela prefeitura sanitária.
A década de 30 foi marcada por sucessivas inaugurações de sanatórios na Serra
da Mantiqueira, fenômeno estimulado pela Companhia Campos do Jordão que, desde a
qualificação oficial da prefeitura sanitária, assumiu a política de doar terrenos a todas as
entidades que apresentassem projetos para a construção de casas de saúde nas mon-
tanhas. A dificuldade de manter a imagem turística da região determinou que a empresa
de Macedo Soares redefinisse seus objetivos, comandando o processo de ocupação
espacial jordanense e, em continuidade, estabelecendo as áreas reservadas ao funcio-
namento dos hospitais e pensões para enfermos e os lotes que deveriam ser de uso
exclusivo dos turistas.
Com isso, no ano de 1930, foram ativados os Sanatórios Divina Providência e
São Paulo, desdobrando-se pouco depois na entrada em funcionamento do Sanatório e
Preventório Santa Clara, do Sanatório Santa Cruz e dos Sanatorinhos. Até o final da
década, iriam existir dez nosocômios em atividade no município dos infectados, perfa-
zendo o total de 652 leitos especializados. Apesar da discordância dos censos realiza-
dos naquele período, é certo que o número de vagas hospitalares para tuberculosos
existentes em Campos do Jordão representava quase a metade das disponíveis em todo
o estado de São Paulo, sendo que aproximadamente 50% da hospedagem nosocomial
jordanense estava reservada para a clientela pagante (Grieco, 1939).
A instalação de leitos para as vítimas da Peste Branca e o afluxo de médicos para
Campos do Jordão resultaram na intensificação da procura da estância de cura pelos
tuberculosos, transformando a ‘cidade enferma’ em uma estranha e contraditória comu-
nidade, bem diferente daquela apresentada nos folhetos turísticos e na maior parte dos
textos educadores assinados pela mão hipocrática.
A localidade via seus problemas se potencializarem, transformando-se em cená-
rio de episódios chocantes. Os enfermos afluíam em massa, esperando encontrar com
facilidade acolhida sanatorial, ou pensando que apenas a presença no ambiente serra-
no fosse o suficiente para recuperar a saúde comprometida. O custo de vida elevou-se
ainda mais no decorrer dos anos 30 e o acúmulo de infectados pobres fez proliferar as
choupanas e as pensões clandestinas.
O perigo sanitário dava mãos à possível ameaça da ordem pública. A polícia
getulista começou a divulgar informações sobre a presença de perigosos ‘inimigos da
pátria’ na região, os quais faziam fortuna inclusive por meio da exploração do desespero
dos enfermos e da solidariedade dos sadios.


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Alguns dos criminosos eram denunciados publicamente, como aconteceu com
um certo Itagyba Ribeiro Barra que, sob o nobre pretexto de angariar verbas para a
construção de um sanatório para os fimatosos pobres, mobilizou esforços
sensibilizadores da elite nacional, para que esta oferecesse doações para a causa
assistencialista. Tendo sucesso nas suas primeiras investidas, Ribeiro Barra chegou
mesmo a enviar telegramas para Hitler e Mussolini, tentando com isso aumentar ainda
mais o escopo de seu golpe (Paulo Filho, 1986).
Fruto do pouco interesse ou incapacidade estatal em criar formas planejadas de
socorro aos enfermos nos primeiros anos de vida da prefeitura sanitária e do aproveita-
mento irregular das doações caritativas, Campos do Jordão converteu-se em ambiente
lúgubre e assustador, testemunhando cenas que evocariam a pena de Dante.
Segundo o depoimento de Raphael de Paula Souza – que no final da década de 40
assumiria a direção do Serviço Nacional de Tuberculose e a primeira cátedra de tisiologia
da Universidade de São Paulo – era comum se observar a morte pública de doentes,
sendo que o consuntivo esvaía-se em sangue, sem que ninguém se prontificasse em
socorrê-lo.
O professor Paula Souza, no momento em que a cidade lhe prestou homenagem
pela ação pioneira no socorro aos infectados pobres, lembrou ainda:


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