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Desde que as lições médicas informaram que a cura dos tuberculosos poderia
ser alcançada na parcela paulista do Vale do Paraíba, a região nordeste do estado
passou a acolher um número cada vez maior de enfraquecidos do peito. Já no final do
século XIX, o município de Cunha assumiu a posição de principal centro bandeirante
de afluxo de fimatosos, atraindo enfermos de todos os quadrantes do país.
O médico negro e consuntivo Alfredo Casemiro da Rocha foi um dos tantos
pectários que abandonou sua terra natal em busca da saúde. Nascido na Bahia, o Dr.
Casemiro instalou-se em Cunha para tratar dos pulmões, permanecendo o resto de sua


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vida na região, tempo suficiente para se transformar em um dos mais destacados coro-
néis da política local (Nogueira, 1992).
Na seqüência, a cidade de São José dos Campos angariou fama de cidade sani-
tária do Vale do Paraíba, principalmente a partir da segunda década do século passado,
quando o médico tísico Nelson Silveira D’Avila disseminou a notícia de que, graças ao
clima joseense, tinha reconquistado a saúde comprometida. A partir de então, o muni-
cípio ganhou os cognomes de ‘Nice brasileira’ e ‘Tepelândia’, atraindo um número cada
vez maior de infectados.
A presença de enfermos no município, localizado às margens da estrada de ferro
e da rodovia que ligam São Paulo à capital da República, incentivou que no solo joseense
fosse erguido o primeiro sanatório para tuberculosos do estado de São Paulo, precedi-
do em nível nacional apenas pelo mineiro Sanatório de Palmira, inaugurado em 1920.
Patrocinado pela Santa Casa de Misericórdia paulistana e pela família do senador
e banqueiro Olavo Egydio de Souza Aranha, a casa de saúde vale-paraibana ganhou o
nome da esposa do político, Vicentina Aranha, entrando em funcionamento a partir do
mês de abril de 1924, com aproximadamente uma centena de vagas, número pouco altera-
do no decorrer dos anos anteriores a 1945. Apesar dos compromissos caritativos da
instituição, os leitos do nosocômio eram prioritariamente reservados para os pacientes
que podiam pagar o tratamento e a hospedagem, com recursos próprios ou graças aos
apoios oferecidos pelas Caixas setoriais ou ainda pelas companhias de seguro.
A inauguração desse hospital fez crescer ainda mais o contingente de enfermos
estabelecidos na região, favorecendo a instalação de outras unidades especializadas
no tratamento dos tísicos. Com isso, o município – cuja história definia-se pela pobreza
crônica – encontrou incentivo econômico, conseguindo relativo incremento da receita
com os forasteiros enfermiços, sendo alçado à condição de estância climática, por
decreto governamental datado de 1935.
Procurado inclusive por tísicos de posses que adquiriam chácaras nas vizinhan-
ças dos sanatórios, São José dos Campos atraiu inúmeros clínicos interessados no
tratamento da própria saúde, na capacitação no saber tisiológico e também nos lucros
proporcionados pela especialidade médica. Nesse processo, a Tepelândia passou a
contar com uma dezena de sanatórios, sendo que o nosocômio que mais prestígio
acumulou nesse período foi o pertencente ao facultativo fimatoso Ruy Rodrigues Dória.
Nascido na cidade paulista de Limeira, o Dr. Dória recebia em seu hospital ape-
nas pacientes particulares, ganhando reputação nacional graças às intensas campa-
nhas publicitárias realizadas em nome do seu estabelecimento.
Apresentado como hospital equipado com instrumentos sofisticados e funcio-
nando segundo o “methodo norte-americano” que unia “o mais adeantado conheci-
mento da tuberculose” com “principios modernos, rigorosos e scientificos de tratamen-
to”, o Sanatório Ruy Dória alertava aos interessados que mantinha convênio com uma
rede de hotéis e pensões da região, abrigando nessas hospedarias os doentes que não
dispunham dos 800$000 cobrados mensalmente pela residência no nosocômio.
Graças ao prestígio de sua empresa, o Dr. Dória acumulou riqueza e influência
suficientes para se tornar prefeito municipal e líder da política vale-paraibana durante o


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período varguista, tendo como único adversário na arena política outro tisiologista
tuberculoso de renome nacional: Rodolfo dos Santos Mascarenhas. Nascido em São
José dos Campos, o Dr. Mascarenhas, ainda na década de 30, também ocupou o cargo
de prefeito municipal da urbe sanitária, tarefa que buscou compatibilizar com a docência
exercida junto ao Instituo de Higiene da Universidade de São Paulo.
Nem todos os infectados que chegavam na estância joseense reuniam condi-
ções para usufruir da assistência vendida pelos sanatórios. A escassez de dinheiro e a
falta de amparos patrocinados pela solidariedade pública faziam da cidade reduto de
enfermos mendigos, afugentando os habitantes sadios que reclamavam urgentes medi-
das das autoridades públicas.
A reforma sanitária estadual, promovida em 1938, buscou fazer do Centro de
Saúde recentemente instalado no município a sede de normatização da vida na estação
de cura. O ‘controle da tuberculose’ tornou-se um conceito dissimulador que, registra-
do insistentemente nos relatórios oficiais, justificava a vigilância acirrada sobre os
doentes que perambulavam, quase sem rumo, pelo território da Nice tropical.
O olhar perscrutador da Higiene Pública buscava esquadrinhar o espaço
joseense, localizando os tísicos desamparados e, não raramente, seqüestrando-os em
nome da segurança dos sadios. Colhidos nas malhas policialescas da Saúde Pública, os
tuberculosos eram forçados ao isolamento nos pavilhões improvisados ou, mais
freqüentemente, eram devolvidos aos locais de onde haviam partido, sendo que para
esta finalidade foram criadas várias entidades que, sob a máscara da filantropia, tinham
como objetivo afastar da estação vale-paraibana os visitantes infectados e destituídos
de recursos pecuniários.
Em nome da acomodação dos consuntivos, as autoridades administrativas de
São José dos Campos passaram a exigir mais e mais verbas dos cofres estaduais. A
frustração joseense de receber quase nada do que era pedido aos interventores fede-
rais devia-se ao fato de que a Serra da Mantiqueira, bem mais do que o Vale do Paraíba,
constituía-se no eldorado perseguido pelos tísicos. Eram as áreas localizadas serra
acima que afloravam como o espaço seguro de cura dos doentes do peito, sendo que
para muitos o território joseense revelava-se apenas como um pálido átrio para as
benesses prometidas pelos ‘ares serranos’ ou local de confinamento dos pectários que
não suportavam o ‘clima de altitude’.



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