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EANDROS
 
DA
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ARIDADE
A conquista de uma vaga sanatorial não era coisa fácil. Disputados entre aque-
les que podiam pagar e aqueles que nada tinham para retribuir, os leitos hospitalares
eram poucos e caros, sendo corriqueira a situação dos enfermos baterem à porta de uma


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casa de saúde portando cartas de apresentação de médicos, políticos e religiosos,
tentando com isso agilizar o início do isolamento sanitário.
A concentração dos infectados nas estâncias climatoterápicas do estado de
São Paulo conferia grande dificuldade para a obtenção de uma vaga hospitalar, fato que
aconselhava os doentes a recorrerem primeiramente às instituições assistenciais loca-
lizadas na capital bandeirante, onde parecia ser mais fácil ganhar um leito em casa de
saúde especializada, o qual serviria como porta de entrada para o sistema sanatorial. A
documentação referente ao Hospital São Luiz Gonzaga deixa perceber que a lista de
espera por uma vaga era extensa, podendo demorar até mais de um ano para o tuberculoso
inscrito conseguir um leito na enfermaria daquele sanatório.
O descompasso entre o número de tísicos e as oportunidades de internamento
fazia multiplicar as cenas chocantes que feriam o cotidiano da cidade de São Paulo. Nos
prontuários médicos é relativamente comum o registro de casos como o protagonizado
pelo carroceiro Henrique Barreiros (P. 1875) que, vindo de Iguape, esperou por uma
vaga hospitalar durante vários meses, sendo que neste período permaneceu hospeda-
do no Albergue Noturno do município.
A data para internamento parecia algo incerto e distante até que, no primeiro
dia de dezembro de 1943 o enfermo foi acometido por forte hemoptise quando
perambulava nas proximidades da Praça da Sé, momento em que foi socorrido por uma
ambulância da Assistência Pública. Em estado preagônico, o tuberculoso finalmente
ganhou um leito no pavilhão reservado aos indigentes no Sanatório do Jaçanã, mas
pouco pôde usufruir do tratamento especializado, pois, uma semana após ser recebi-
do no hospital, Henrique Barreiros chegou a óbito, extenuado pela continuidade dos
vômitos sangüíneos.
A repetição de situações envolvendo tísicos terminais ampliava ainda mais o
receio nutrido pelos enfermos de encontrar a morte nos espaços públicos da cidade. Foi
por isto que Joaquim Franco de Godoy (P. 312), um desempregado de cerca de 30 anos
de idade, tomou uma decisão inusitada em maio de 1935, quando foi informado que não
havia previsão de data para a abertura de vagas para internamento e nem mesmo para
consultas ambulatoriais no sanatório paulistano da Santa Casa.
Inconformado com o descaso institucional para com os desamparados como ele,
Joaquim permaneceu ‘encostado no muro do hospital’ pelo prazo de uma semana. Esgo-
tado este período, o suposto doente aproveitou o descuido do porteiro da entidade e
invadiu a área nosocomial, refugiando-se em um leito desocupado da enfermaria de indi-
gentes. O fato de o paciente reagir com violência às tentativas para desalojá-lo resultou
no desejado atendimento médico, sendo que o plantonista encarregado da sua anamnese,
concluiu que a ‘tosse e acessos de chiadeira e ronco no peito’ nada mais eram que o
resultado de uma ‘bronchite banal’. Cientificado do diagnóstico, Joaquim Franco de
Godoy deu-se por satisfeito, abandonando espontaneamente o recinto sanatorial.
A luta pela obtenção de atendimento nos sanatórios filantrópicos não era
apanágio exclusivo dos filhos da pobreza. Nas filas de espera por assistência médica
mesclavam-se proletários e membros dos estamentos médios da sociedade, que já haviam
gasto todo o dinheiro acumulado nas tentativas de recuperar a saúde.


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A biografia sanitária do engenheiro Newton Barreiro (P. 1535) constitui-se em
um significativo exemplo dos labirintos percorridos pelos enfraquecidos do peito. Inte-
grante de uma linhagem marcada por sucessivos óbitos consuntivos, Newton soube
estar tuberculoso nos primeiros dias do ano de 1942, quando ‘uma forte gripe seguida
de abundante expectoração e hemoptise’ o fizeram abandonar o comando da constru-
ção de uma barragem, na Baixada Fluminense. Imediatamente, o engenheiro buscou
consulta com o tisiologista carioca Affonso Mac Dowell, o qual aconselhou a rápida
transferência do paciente para a estação de Campos do Jordão.
A acentuada perda de peso e também a ‘perturbação mental’ que o fez supor
estar ficando “louco” impuseram que Newton acatasse sem reticências a orientação
médica, levando o engenheiro a obter uma vaga como paciente pagante no Sanatório
Santa Cruz, uma das mais caras casas de saúde instalada na Serra da Mantiqueira.
Porém, bastaram apenas seis meses de internamento para que se esgotassem
os recursos econômicos do paciente que, num momento em que apresentava ‘sensí-
vel recuperação orgânica e mental’, foi obrigado a abandonar aquele nosocômio. Sem
outra saída, Newton Barreiro pediu assistência ao Hospital São Luiz Gonzaga, rece-
bendo um catre pago pela caridade, em janeiro de 1943. Em apenas um ano de conví-
vio íntimo com a Peste Branca, o engenheiro havia se transformado em paciente
indigente, mesmo que, na documentação nosocomial, o nome do doente fosse prece-
dido do respeitável título de doutor.
O acesso a uma vaga sanatorial não colocava fim à peregrinação dos tísicos,
especialmente daqueles que estavam sendo assistidos pelos médicos do Hospital do
Jaçanã. Isso porque esta casa de saúde ganhara prestígio como centro tisiocirúrgico,
fazendo com que os tuberculosos que depositavam confiança na climatoterapia ou que
queriam fugir das operações torácicas pedissem ‘permuta’ por enfermos que, instala-
dos nos sanatórios das prefeituras sanitárias, precisavam ser submetidos ao tratamen-
to operatório oferecido pelos médicos da Santa Casa paulistana.
O acúmulo de pedidos de transferência para os nosocômios localizados nas
estações de cura chocava-se com um certo ‘isolacionismo’ que imperava no Hospital
São Luiz Gonzaga, resultando no pequeno número de troca de pacientes com outros
centros de tratamento especializado. Por isto, o comum era os tuberculosos em melhor
estado físico pedirem alta ‘por conta própria’, rumando para as estâncias sanitárias sem
qualquer amparo institucional, contando apenas com a sorte ou com a solidariedade
alheia para conseguir um novo leito gratuito.


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