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Parte II
P
ERSONAGENS
 
E
 C
ENÁRIOS
O Homem é o Homem e sua circunstância.
José Ortega y Gasset


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As múltiplas qualificações impostas à
tuberculose e aos doentes do peito instruíram as
reações pessoais e coletivas, tanto no interior da
comunidade dos pectários quanto na dos sadios.
No encadeamento dos fatos, tornou-se
conveniente para todos a definição dos
ambientes apropriados para os tísicos,
motivando as existências infectadas a
procurarem abrigo e respostas de vida nas
casas de saúde especializadas, nas residências
particulares e nas pensões localizadas nas
cidades-sanatórios.


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A Trajetória do Desterro
Fraco do pulmão! Tombar essa palavra numa casa era
tombar o raio. Fraco do pulmão! Compreendi, num
relance, o que significava os olhos vermelhos de minha
mãe e a comiseração dolorida dos meus irmãos. Fraco do
pulmão (...) Fraco do pulmão? Ah, quem poderia jamais
escapar à desgraça?
Foi com estas palavras de espanto e desalento que Paulo Setubal (1949:105)
relatou o instante da descoberta familiar da tísica que o mataria um ano após registrar
em diário o primeiro encontro com a tuberculose.
Doente de cama em razão de ‘forte resfriado’, um clínico foi chamado para aten-
der o escritor. Após proceder aos exames de praxe, o facultativo retirou-se silenciosa-
mente do quarto do paciente, palestrando longos minutos com a mãe e os irmãos do
doente. O que foi tratado entre o facultativo e a família Setubal ficou em segredo, mas a
constatação da ‘fraqueza pulmonar’ era o eufemismo utilizado pela medicina para infor-
mar o estado consuntivo do paciente. As palavras ‘tuberculoso’ e ‘tísico’ constituíam-
se em termos evitados nos pronunciamentos dos esculápios de família, sob a alegação
de que o emprego de tais terminologias servia apenas para desesperar os infectados e
os seus acompanhantes.
Abatido com a invasão da peste no ambiente doméstico, o grupo familiar reagia
não só com lágrimas, mas também com um ambíguo sentimento de solidariedade ao
infectado. Isto porque, ao mesmo tempo que se buscava oferecer redobrado conforto
ao consuntivo, este era redefinido como figura incômoda, tanto pelo risco de contami-
nar os sadios, quanto pelos custos e intensidade dos cuidados exigidos pela enfermi-
dade. Acrescia-se ainda o fato da permanência do tuberculoso em casa poder ganhar o
conhecimento público, tornando-se então mácula inibidora da teia de sociabilidade da
família envolvida. Por isto, a sentença clínica transformava-se em segredo guardado a
sete chaves, evitando-se assim que o clã se convertesse em alvo de depreciativas
cogitações cochichadas pela vizinhança curiosa.
A tendência dominante era que a família do tísico somasse forças e recursos
pecuniários para promover a transferência do enfermo para um dos locais recomenda-
dos para a recuperação da saúde pulmonar. Tornou-se corriqueira a situação em que os


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parentes que compartilhavam do segredo juntavam-se numa espécie de conselho clãnico
para discutir o imediato envio do consuntivo para um ambiente considerado propício à
cura pulmonar.
Naquele momento tudo era acertado: as possibilidades de financiamento da
assistência médica, cartas de recomendação que poderiam agilizar o internamento hos-
pitalar e até a escolha da pessoa que se encarregaria de acompanhar o fimatoso ao local
indicado para o confinamento sanitário, sendo que parecia relativamente fácil impor aos
enfermos mais jovens o isolamento em área distante. O mesmo não ocorria, porém, com
os doentes adultos e que reuniam condições físicas, recursos econômicos ou pelo
menos prestígio suficiente para se opor à decisão tomada pelos seus parentes.
O horror à reclusão hospitalar freqüentemente se associava às dificuldades de
sobrevivência material dos eventuais dependentes do chefe de família assaltado pelo
bacilo de Koch. O receio de deixar a mulher e os filhos desamparados fazia com que os
trabalhadores pobres ou remediados evitassem procurar assistência sanatorial, prefe-
rindo recorrer a formas paliativas de tratamento médico, sob a condição de não ter a
vida produtiva bruscamente interrompida.
É corriqueiro encontrar nas anamneses clínicas depoimentos semelhantes ao
prestado pelo marceneiro espanhol Antonio Báo (P. 418)
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 que, com o pouco de dinheiro
que ganhava com o seu trabalho, sustentava a mulher e cinco filhos menores. Aos 36
anos de idade, Antonio foi surpreendido por uma hemoptise no momento em que
trabalhava em uma serraria estabelecida na zona norte paulistana. Conduzido a um
posto médico localizado nas proximidades da oficina em que atuava, o marceneiro foi
medicado e imediatamente reconhecido como tuberculoso.
Mesmo assim, Antonio voltou ao trabalho no mesmo dia, restringindo o seu
tratamento a consultas mensais a ‘um medico da rua Vergueiro’, que lhe administrava
injeções de cálcio e fortificantes. Sob tais condições, o operário permaneceu trabalhan-
do por mais cinco anos, sendo internado no Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga pela
esposa somente em 1935, quando a fraqueza que minava o seu organismo chegou a tal
ponto que, extenuado, o tísico nem mesmo conseguia levantar da cama.
Casos tristes de rejeição ao estado fimatoso se repetiam em série, destacando-se
o da órfã Maria Gomes de Oliveira (P. 3639), que soube estar adoentada aos 19 anos de
idade. Desconhecendo sua parentela, Maria Gomes abandonou a instituição de carida-
de que a criou desde a tenra infância e encontrou emprego de doméstica em um sobrado de
classe média, localizado no paulistano bairro do Belenzinho.
Após ‘tomar gelados quando estava suada’, Maria sentiu os primeiros sintomas
da tísica, recorrendo a um clínico que diagnosticou ‘fraqueza pulmonar’. Não acreditan-
do na sentença hipocrática, a doméstica continuou no emprego, sem nada informar aos
seus patrões, seguindo com eles para um período de férias na cidade de Santos.
No litoral, Maria Gomes sentiu novamente os efeitos da infecção, internando-se
na Santa Casa, local onde – ainda segundo ela – submeteu-se ao esmagamento de um
dos nervos frênicos, cirurgia explicada posteriormente como ‘em consequencia de uma
forte pancada no peito’. Regressando ao sobrado do Belenzinho, a empregada passou
a eliminar sangue no escarro, fato que a coagiu a procurar consulta na Santa Casa de
São Paulo, onde uma vez mais foi informada sobre seu estado consuntivo.


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Ainda ‘não acreditando no resultado dos exames’, a enferma consultou os espe-
cialistas do Dispensário Clemente Ferreira, onde novamente foi reconhecida a sua mo-
léstia pulmonar, sendo-lhe prescritas várias sessões de pneumotórax. Maria Gomes
negava-se a aceitar seu estado consuntivo, terrível drama que feria uma vida por tudo
trágica. Inabalável na decisão de permanecer no trabalho ocultando a condição fimatosa,
a enferma persistiu na atividade de serviçal até ser acometida por uma forte hemoptise
testemunhada pelos patrões que, ato contínuo, encaminharam-na para tratamento no
Sanatório do Jaçanã.
Os compromissos familiares impunham aos enfermos mais humildes o não afas-
tamento da faina diária. A ausência de amparos oferecidos por parentes ou amigos
tornava ainda mais difícil a aceitação do estado infeccioso e o conseqüente isolamento.


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