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Quanto à cura, não pode ser obtida, na mór parte dos casos, senão associando-
se, num commum esforço, a sciencia do medico à boa vontade do enfermo. Mas,
aqui, attenção! Nada de malentendidos. O que o medico pede ao doente é um
esforço continuo de todo o seu ser para um só objectivo, sempre o mesmo. Não
se trata de collaboração, mas antes de hierarchia: um manda, outro obedece.
(Stéphani, 1933:186)
Mesmo assim, em diversas passagens do seu manual, o proprietário da estação
de cura alpina buscou amenizar a rigidez da normatização clínica, embora ressaltasse
que o médico convicto da eficácia de seus conhecimentos não deveria se curvar frente
aos desejos do paciente.


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No sanatório de Montana – advertia o Dr. Stéphani – tudo era passível de ser
matéria de diálogo e moderação, podendo chegar-se a acordos que não resultassem em
perdas para o médico ou para o paciente. Os exemplos são significativos: o tenista
inconformado com a proibição de praticar seu esporte reclamou da prescrição, conse-
guindo autorização médica para continuar a jogar diariamente, sob a condição de inter-
romper a partida ao final do quinto game, assim como ao nobre russo foi permitida a
utilização paralela de poções curativas tradicionais no seu país, já que estas não afeta-
vam o tratamento ministrado pelo nosocômio.
Pouco, de original, os médicos-autores brasileiros acrescentaram aos enuncia-
dos do Dr. Stéphani. A consulta de mais de duas dezenas de manuais para tuberculosos
compostos por clínicos brasileiros até o ano de 1945 deixa perceber a contínua reitera-
ção dos mesmos postulados e a menção até dos mesmos exemplos registrados no guia
estrangeiro, consagraram as propostas do especialista suíço como regras pouco
infringidas pelos autores das brochuras nacionais.
Uma das raríssimas páginas na qual este cômodo compromisso foi quebrado
encontra-se no livro do Dr. Valois Souto (1937), diretor-proprietário do Sanatório de
Corrêas, instalado nas montanhas fluminenses e que era considerado uma das mais
luxuosas casas de saúde do país. Ao indagar sobre a possibilidade do tuberculoso com
lesões abertas querer contrair matrimônio, Valois Souto mostrou-se totalmente contrá-
rio. Entretanto, imediatamente após a negativa, o autor parece que arrependeu-se, ale-
gando que, afinal, a opinião médica não era assim tão importante, desculpando-se
envergonhadamente por se imiscuir na vida privada dos seus pacientes abonados:
“mas que fazer quando só se têm em vista razões do coração!...”.
Em nome do Grande Mal foram articulados múltiplos dispositivos disciplinadores,
direcionados para grupos específicos da população, infectados ou não. Idealizados
como discursos universais e fundamentados em valores que buscavam transcender as
diferenças sociais, como solidariedade, família, bem comum, pátria e trabalho, na verda-
de as orientações higienistas mesclavam tisiofobia e diferenças de classe, resultando
na sensação de que a educação sanitária discorria sobre distintas patologias, mais do
que sobre tuberculosos ricos e tuberculosos pobres.
No final, o discurso sobre tísica erigiu-se como estratégia de coerção que,
direcionada para a ‘retificação’ dos comportamentos individuais, buscava requalificar a
vida grupal, estabelecendo os padrões da modernidade que deveriam reger a organiza-
ção social brasileira. Ficavam claros, assim, os limites das pontificações educadoras em
saúde que, calcadas na exploração dos temores grupais, identificaram os fracos do
peito como discípulos do mal e da desordem coletiva, traduzindo o tuberculoso como o
pobre irrequieto, o rico egoísta, o perverso, o criminoso, o inimigo da pátria, o ‘quinta-
coluna’ e tantas outras categorias.
Nesta cirurgia, o ramo educador da Saúde Pública paulista, acompanhando a
tendência predominante na literatura nacional das primeiras décadas do século, contri-
buiu com novas e vigorosas – pois pretensamente científicas – versões diabolizadoras
do tuberculoso. Ditando a possível lógica da sociabilidade que deveria vigir nos gran-
des centros urbanos, a literatura e a medicina, por extensão, definiam os estreitos limites
existenciais permitidos para as vítimas diretas do Grande Mal.

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