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A Noruega é o País da Cocanha dos nossos tempos. Real, vivo, feliz. (...) Cada
um tem o seu lugar. (...) Por isso a vida desliza numa planície. E não é sacudida
pelo entrechoque das ambições pessoais desmedidas. Tudo é ajustado. (...) O
Homem norueguês é calmo, controlado, mesmo nos gestos, no olhar, na pala-
vra. Detesta a violência. Tem horror às cenas. Aos dramas expostos. Tudo que


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venha a ferir a harmonia ambiente ecôa forte como escândalo. Que o norueguês
abomina. Há na sociedade norueguesa um admirável meio têrmo. Um equilíbrio
inalterável. Que é a civilização. (Coletânea 1, 1939:67).
Entretanto, após a entrada do Brasil no conflito mundial, os conselhos educado-
res experimentaram sensíveis revisões. Em coerência com o novo alinhamento político da
nação, o modelo norueguês foi preterido em favor da agitação e da operosidade yankee.
Nas páginas da Coletânea, os ‘irmãos do norte’ ganharam destaque, inclusive
por meio de artigos assinados por norte-americanos que, em uníssono, convergiam
para elogio do american way of life. O vestuário e o calçado, a alimentação e as regras
sociais, o amor ao trabalho e a fidelidade ao presidente da República e à Constituição
nacional, o bônus de guerra e a organização sanitária, tudo foi examinado como moder-
no, funcional e saudável porque forjado nos Estados Unidos.
Ademais, os higienistas brasileiros ansiavam em ver reproduzido no Brasil o
mesmo juramento solene que se dizia firmar nos lares de todos trabalhadores norte-
americanos, apresentado pelo vice-presidente norte-americano Henry Wallace: “Com-
prometo-me, pela minha honra de americano, a fazer todo o possível para que eu, minha
família e os que me cercam nos tornemos cada vez mais robustos e saudáveis, como
Deus sempre quis que o sejamos”(Coletânea 7, 1942:61).
Neste contexto, a tuberculose como principal flagelo sanitário que se abatia
sobre a população tornou-se o tema mais invocado nos textos produzidos pelo setor
educativo do Departamento de Saúde de São Paulo. Os perigos e os efeitos desastro-
sos da Peste Branca inspiraram a matéria presente em centenas de conselhos, constitu-
indo-se, assim, em recurso básico da medicina social para a comunicação com as ‘clas-
ses trabalhadoras’. Em nome da tísica, buscava-se orientar os contingentes pobres, em
conformidade com os princípios da vida moderna, equilibrada, saudável, honesta, en-
fim, de utilidade produtiva para a nação.
O fundamento norteador do discurso em saúde era a asserção que definia a tuber-
culose como uma patologia cujo diagnóstico, prognóstico e terapêutica eram minuciosa-
mente conhecidos pela clínica que, nesta condição, dispunha de recursos eficazes para
assistir e recuperar a saúde de qualquer infectado. A dimensão curável imposta à enfermi-
dade estabelecia que ‘só é doente quem quer’, atribuindo-se inteira responsabilidade aos
(des)caminhos da existência individual como fator desencadeante da infecção kochiana.
Assim, o tísico era qualificado, em conformidade com as posturas que prolife-
ravam especialmente nos Estados Unidos, como um personagem egoísta que deixou-
se contaminar porque se manteve cego frente aos interesses coletivos, transforman-
do-se duplamente em pária da sociedade, já que, além de se tornar improdutivo, exigia
ser sustentado pela caridade pública.
No encaminhamento do processo pedagógico, os avisos sanitários buscavam
abranger as diferentes faixas etárias, cobrindo integralmente os membros das famílias
trabalhadoras. Estabelecendo o consuntivo como objeto passivo de intervenção, os
médicos e os educadores empenharam-se no convencimento dos adultos como possí-
veis vítimas do mortal contágio e também como responsáveis pelas crianças que pode-
riam ser infectadas pelo micróbio da tísica.


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Aos adultos, os sanitaristas apresentavam a Peste Branca como patologia ainda
mais tenebrosa que a hanseníase. Isto porque, ensinava-se, enquanto os leprosos
podiam ser facilmente identificados e subtraídos do convívio comum, o mesmo não
acontecia com os tuberculosos que, protegidos pelos discretos sinais produzidos nas
primeiras etapas da enfermidade, permaneciam em contato com os sadios, poluindo o
ambiente e espalhando propositalmente as sementes da morte.
Considerado como a ‘hidra de mil cabeças’, o Grande Mal foi declarado inimigo
maior do tecido social. Exigia-se, assim, de cada indivíduo o compromisso ‘moral e
cívico’ de preservar a própria saúde como tributo ao Estado e aos interesses coletivos.
A partir do apregoamento de um estilo ‘equilibrado’ de vida, a medicina cobrava dos
moradores da urbe ‘idéias sadias’, devendo cada um afastar-se o máximo possível das
‘festas desnecessárias’, das ‘más companhias’ e inclusive do casamento com ‘pessoas
duvidosas’ que inexoravelmente resultavam na perpetuação do exército de ‘viciados’ e
‘degradados’ que atentavam contra a existência e o poderio nacional.
A vida comedida e os hábitos e ideais salutares tinham como contraponto
educativo a condição existencial dos tísicos, muitas vezes caricaturada por meio de
referências biográficas dos personagens da história e da literatura romântica. Longe
das análises exaltadoras que vigiam em épocas anteriores, os sanitaristas preconizavam
os tipos cultuados no século XIX como doentes dos pulmões que ‘tombaram no verdor
dos anos’ em conseqüência dos erros higiênicos cometidos contra o próprio organis-
mo e também contra o ambiente em que viviam. Neste encaminhamento, o médico
Américo Netto concluiu que: “Os boêmios românticos foram assim criaturas predesti-
nadas para todo cortejo de extravagância que, com as vicissitudes da fome, levou
muitos deles ao túmulo” (Coletânea 8, 1942:101).
Advertia-se também que o principal foco de contágio constituía-se nos próprios
indivíduos com os pulmões corrompidos. Mais do que a poeira das casas e das ruas e
o leite e as carnes contaminadas, o tísico era denunciado como o agente central da
disseminação consuntiva, aconselhando-se a todos guardarem cautelosa distância dos
estranhos, pois eles bem poderiam ser os emissários da peste. Nesse sentido, mereciam
desconfiança não só os magros que escarravam sangue, mas também o ‘tipo florido’ –
versão educativa do ‘aparentemente sadio’ – que, gordo e ágil, poderia ocultar em sua
aparência enganosa o ‘germe maldito’.
Reforçando ainda mais o horror à aproximação com os pectários, as mensagens
médicas empenhavam-se em exacerbar os medos coletivos por meio da divulgação de
tétricas descrições, nas quais o reino da tuberculose se expandia como resultado da
negligência alimentada pelos sadios. Muitas páginas da Coletânea foram dedicadas
para a minuciosa narração de casos em que a tísica fazia mais e mais súditos, identifican-
do o ambiente da infecção com o espaço e as práticas urbanas.
Assim, o mortal contágio poderia ocorrer tanto no interior de um bonde ou de
uma repartição pública, onde as pessoas forçosamente eram obrigadas a permanecer
muito próximas umas das outras, quanto na solidão de uma biblioteca, pois, se o volume
consultado tivesse sido anteriormente manuseado por um fimatoso, havia boas chances
para que o incauto leitor fosse assaltado pelo bacilo de Koch.


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A desconfiança e a vigilância recíproca deveriam ser ainda mais intensivas quando
a saúde das crianças estivesse em risco iminente. Definida como ‘o Homem de amanhã’
pelos cartazes que a Spes paulista fazia afixar nas salas de espera de todos os Centros de
Saúde do estado, alertava-se a população e os pais que ‘protegê-la é nosso dever’.
As mensagens sanitárias, portanto, ganharam maior intensidade ao tratar das
possibilidades do contágio infantil, orientando os adultos para exigir a apresentação de
Carteira de Saúde de todas as pessoas que mantivessem contato diário com crianças,
incluindo professores, empregados domésticos e especialmente as mulheres que serviam
como amas-de-leite. Mesmo situações embaraçosas para a harmonia familiar deve-
riam ser enfrentadas sem receio, quando a saúde infantil estivesse em jogo: caso existis-
se um tio que denunciasse uma ‘tossezinha nicotínica’, dever-se-ia proibir-lhe o acesso
aos pequenos, assim como o ‘danoso hábito’ do beijar ou dormir no mesmo quarto que
acomodava os petizes.
A puberdade constituía-se em momento da existência em que eram ampliadas as
chances do indivíduo ser assaltado pelo micróbio fimatoso. As alterações físicas pró-
prias desta fase do desenvolvimento orgânico somavam-se ao dispêndio de energia
cobrado pelos estudos e pelo início da faina produtiva, debilitando o corpo e tornando-
o presa fácil da tuberculose.
Na continuidade das observações, os higienistas pregavam que, bem mais do
que estas condicionantes, os novos ‘hábitos’ assumidos pelos adolescentes predispu-
nham à moléstia consuntiva, incluindo neste processo o namoro e o comparecimento
diário aos bailes, teatros, bares e cassinos. Encantados com os prazeres da vida, os
jovens desarmavam-se das defesas físicas e morais, entregando-se passivamente ao
avanço destruidor da moléstia pulmonar, cabendo por isto à educação em saúde dedi-
car-se com especial empenho no regramento desta parcela imprudente da população.



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