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DEFINIÇÃO
  
PAULISTA
Em São Paulo, a nova orientação federal resultou inclusive na criação da Seção
de Propaganda e Educação Sanitária (Spes), órgão ligado diretamente ao Departamento
Estadual de Saúde. Contando exclusivamente com funcionários médicos no início de
seu funcionamento, o novo setor apresentou como meta combater os principais ‘flagelos
sociais’ que se abatiam sobre a população bandeirante, por meio do ensino de hábitos
de vida considerados saudáveis, reiterando em documento interno que: “A Educação
Sanitária, difundida em todas as camadas da população, é a medida básica para a con-
quista e garantia da saúde coletiva, que, por sua vez, é o fator primordial da prosperida-
de e da riqueza do povo”.
Para atingir tal objetivo, a Spes bandeirante contou com sofisticadas técnicas
pedagógicas que vinham sendo desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa. Neste
sentido, o manual de educação em saúde organizado pelos médicos norte-americanos
Bauer e Hull (1937) representou o mais importante elemento incentivador dos clínicos e
dos educadores paulistas, guiando a preparação do material educativo, pelo menos até
o término da década de 50.
No esforço normatizador e preventivista, a Seção de Propaganda e Educação
Sanitária inaugurou a produção de uma grande quantidade de folhetos, cartazes, folders
e brochuras que, elaborados com um linguajar simples, de fácil entendimento e repletos
de ilustrações coloridas, concorriam com os almanaques presenteados pelas indústrias
farmacêuticas, abrindo uma nova fase das ações pedagógicas na área da saúde.
A garantia da distribuição gratuita dos panfletos higienistas determinou que, mes-
mo em outros estados, os textos da Spes ganhassem ampla divulgação, fato que obteve
abrangência maior quando o governo paulista decidiu incentivar a imprensa, os canais
radiofônicos e os cinemas de todo o país a reproduzir os conselhos sanitários prepara-
dos em São Paulo, visando com esta medida a atingir o maior contingente possível da
população brasileira, inclusive a parcela de analfabetos.
Surgiram assim as Edições Populares da SPES de S. Paulo, denominação
genérica e que incluía várias coleções de textos elaborados por ou sob a orientação
da medicina social paulista. Deste conjunto de mensagens destacam-se as séries
Coletânea e Romances, sendo que, até 1945, os leitores da Coletânea foram brinda-
dos com nove livros de bolso, cada um deles contando com 50 a 70 enredos curtos e
tematizados pela saúde coletiva, enquanto a coleção Romances, representada por
livretos de 32 páginas, editou no mesmo período pelo menos um texto que dissecava
personagens tuberculosos.
No final, ambas as séries ganharam grande divulgação popular, inclusive por-
que foram bem aceitas pelos diretores dos meios de comunicação que, por volta de
1942, reproduziam regularmente os alertas sanitários nas páginas de 363 jornais e 22
revistas, assim como os veiculava por intermédio de 16 emissoras de rádio, sob for-
mato novelístico.


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A análise desse núcleo documental impõe como tarefa inicial a necessidade de
identificação dos personagens aproximados pelas mensagens higienistas. Isto porque,
apesar do discurso sanitário se apresentar universal e dirigido para todos os estratos
sociais, na verdade foi dimensionado para servir como peça de convencimento de
grupos específicos da sociedade, identificados não só pela posição que ocupavam no
corpo coletivo, mas também por circularem em ambientes geográficos particulares.
A obediência a esta fórmula determinou que a orientação preventivista
direcionasse seus ensinamentos para os moradores do espaço metropolitano, ou me-
lhor, para a “babel urbana”, onde homens provenientes de várias partes do país e do
globo confluíam em busca de novas oportunidades de vida. Nesta trajetória, a clínica
educadora advertia que a cidade se apoderava dos homens, ditando o ‘ritmo alucinante’
da existência grupal e individual. Em continuidade, o território urbano foi visto como a
pátria do egoísmo e da perdição, onde o ‘vício depravado’ e a ‘corrupção dos costu-
mes’ comprometiam a regularidade da vida e os ‘altos ideais coletivos’, resultando no
‘contínuo desgaste das energias vitais’.
O resultado de tudo isso não poderia ser outro: “Em geral, o aspecto de um
cidadão com seus 40 anos é bom, porem dentro do seu arcabouço ósseo-muscular
trabalha o germe da destruição precoce, que pode levá-lo à tumba muito antes do que
deveria ser” (Coletânea 6, 1942:118).
Nesta operação, o eugenismo médico chamou para si a tarefa de ‘recuperação da
raça’, utilizando a intervenção educativa para instruir as coletividades urbanas sobre o
código saudável que fora acoplado à concepção de ‘vida moderna’. Erigia-se assim a
imagem do locutor das mensagens sanitárias como a voz clínico-epidemiológica e mo-
ralista que, escudada na razão da ciência positivista e na ética cristã, variava o tom entre
o conselho amigo e a imposição autoritária, exigindo sempre o silencioso acatamento
das idéias que veiculava.
Todos aqueles que se contrapunham à obediência coletiva ganhavam o epíteto
de ‘traidor’ da causa comum, sendo enquadrados nesta categoria não só os que se
negavam a cumprir as considerações protetoras da própria saúde, mas também aqueles
que, por desleixo ou por ganância, induziam outras pessoas ao erro, destacando-se
nesta condição os pais despreocupados com a higiene física e moral de seus rebentos
e especialmente os farmacêuticos que usurpavam a exclusividade médica para clinicar e
se desfazer de seus estoques terapêuticos encalhados.
Na seqüência, seria ingênuo supor que os enunciados educativos visassem a
atingir a população urbana como um todo. A proposta de capacitação para a vida moder-
na situava o proletariado com raízes fincadas no solo metropolitano e os grupos pobres e
com escassa experiência citadina como setores privilegiados do norteamento higienista.
O médico Octavio Gonzaga (1941), ex-diretor do Serviço Sanitário paulista e um
dos principais expoentes da burocracia da saúde durante o período varguista, talvez
tenha sido o personagem que melhor definiu o método e o objetivo da prática pedagó-
gica que imperou durante o Estado Novo. Para ele, a educação higienista deveria ter
como base um ‘discurso positivo’ que, evitando a abordagem aprofundada das noções
clínicas, se concretizasse como mensagem de pronto entendimento para o público-alvo
das campanhas de saúde, representado unicamente pelas ‘classes trabalhadoras’.


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O direcionamento das ações educadoras para a população proletária tinha expli-
cação: era o operariado fabril e os empregados do setor de serviços que mostravam
maior fragilidade em relação à ‘sede de ouro’, condenando estes grupos à perene rebel-
dia contra a ‘pobreza honesta’, marca que os coagia a trocar o vigor físico e a honra por
qualquer aceno de dinheiro, poder e prazeres fáceis.
Segundo o Dr. Gonzaga, os trabalhadores diferenciavam-se da elite endinheira-
da por colocar tudo de lado para satisfazer a ânsia de riqueza, inclusive os fundamentos
morais que dão conformidade à vida social e os princípios higiênicos que garantem a
saúde individual e a produtividade coletiva. Para reforçar este posicionamento, o ex-
diretor do Serviço Sanitário invocou a trajetória de vida dos filhos da pobreza que
sacrificaram a saúde e a moral para alcançar fortuna e prestígio. Nesta tarefa, o médico
preferiu afastar-se dos paradigmas nacionais, citando como exemplos os ‘modernos
ditadores da Europa’, implicitamente referindo-se às biografias de Hitler e Mussolini,
personagens que, sintomaticamente, haviam sido diagnosticados como ‘fracos do pei-
to’ nos anos de adolescência.
Para evitar que o Brasil gerasse ‘monstros’ iguais aos que estavam colocando
fogo na modelar Europa, a medicina social prescreveu uma série de reparos no que
inicialmente foi denominado de ‘alma popular’. Mas, segundo os intelectuais orgânicos
do Estado Novo, qual seria a essência deste espírito coletivo? A resposta talvez possa
ser encontrada em um dos artigos de abertura do primeiro volume da Coletânea, em que
um autor anônimo pontificou que as marcas centrais do ‘trabalhador brasileiro’ consti-
tuíam-se na postura individualista e na rebeldia frente aos dispositivos legais que
davam forma à nação, já que a população urbana tinha sido moldada pelo ‘sentimento
liberal, que é a linha mestra da sua consciência’.
A substituição do termo ‘alma popular’ pela categoria ‘nacionalidade’ dominou
as peças educadoras, exigindo que os médicos colhessem inspiração nos modelos
estrangeiros para aconselhar uma profunda reforma dos comportamentos sociais. Por
isso, durante o período em que Getúlio Vargas mostrou-se reticente em apoiar um dos
blocos envolvidos na Segunda Guerra Mundial – situação que foi explicada pelos
higienistas como sábia decisão presidencial para não criar tensão emocional na socie-
dade e favorecer o enfermamento coletivo – a comunidade hipocrática brasileira, sem-
pre cautelosa, apregoou o estilo de vida vigente na neutra Noruega como o padrão que
deveria ser reproduzido por todos os brasileiros.
Apesar da surpresa causada pela opção, a idéia foi prontamente incorporada
pelos educadores sanitários paulistas, resultando na multiplicação de textos que apon-
tavam para o exemplo escandinavo como antídoto recuperador do degradado caráter
urbano brasileiro. Em nome da preservação da ordem e da saúde pública, assim foi
apresentado o ‘reino do equilíbrio’:



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