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— Filha, vou primeiro. Morro contente, porque sei que me acompanhas. Fingi-
me são, para poder contaminar-te. Perdoe-me. Amei-te muito para deixar-te
sosinha aos outros. (...) Os meus beijos mataram-te. És nova, não sofrerás
tanto, acabarás depressa. Por despedida mais um beijo, aqui, na bocca... (Caiuby,
1923:40)
Quanto maior fosse a ‘febre, e o suor frio, e a tosse, e o desespero’, maior
também seria a maldade dos infectados. Em coerência com este postulado, no livro de
estréia do médico e escritor José Geraldo Vieira (1922), intitulado A Ronda do Deslumbra-
mento, os vários personagens retratados carecem de nome próprio, sendo todos eles
rotulados apenas pela identidade da doença que os afligia. No império enfermo visitado
pelos literatos, os indivíduos perdiam destaque, constituindo-se apenas em apagados
coadjuvantes que permitiam que a tuberculose, a grande personagem, pronunciasse na
plenitude o seu poderio de deformação moral e de extermínio da raça humana.
Completando a tarefa decifradora do doente dos pulmões, os ensaios ficcionais
também foram utilizados para descrever os traços físicos que tornavam possível o
reconhecimento imediato dos perigosos filhos do Grande Mal.
Se o corpo emagrecido e o escarro sangüíneo foram os elementos mais constan-
temente invocados, outros detalhes eram anunciados como reveladores da condição
enferma: as orelhas despregadas da cabeça, dentes escurecidos, audição afinada, unhas
quebradiças, olheiras profundas, pele manchada, ombros caídos, pilosidade rara ou
mesmo inexistente, corpo trêmulo, gesticulação exagerada, voz rouca e uso de roupas
quentes nos meses de verão ou de pijama sob a roupa exibida publicamente.
Seguindo o compromisso identificador dos fimatosos, ainda nos anos 20, Amadeu
Amaral compôs o seu Memorial de um Passageiro de Bonde, texto publicado postuma-
mente, no qual o autor narra o cotidiano de um homem, sob o pseudônimo Felicio


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Trancoso (1938), nome também emprestado a um burocrata que se comprazia em obser-
var seus companheiros de condução.
Na posição de espectador, Trancoso fantasiava conhecer na intimidade várias
pessoas que compartilhavam com ele a viagem de bonde. Dentre os passageiros exami-
nados, destaca-se uma mulher que o voyeur batizou com o nome de Rufina. A coinci-
dência de ambos partilharem do mesmo veículo dia após dia, permitiu que Trancoso
detalhasse em seu diário as características da mulher: vigorosa, sempre animada e
sorridente, trabalhadora, enfim, plenamente sadia.
Uma manhã, porém, Rufina ausentou-se do bonde, fato que se repetiu por dois
meses consecutivos. Esgotado este tempo, Rufina reapareceu, sendo imediatamente
notada por Trancoso. Entretanto, ela não apresentava mais a vitalidade que havia
excitado a imaginação do memorialista. O encanto feminino tinha se corrompido mons-
truosamente, sendo substituído pelo depauperamento do físico e pela palidez do
rosto. O ‘regato da montanha’ tinha sido depredado, tornando-se  um lúgubre ‘ribeirão
turvo do vale triste’.
A brusca decadência do corpo e o estado de desânimo identificado pelos
olhos do espectador não deixavam dúvidas. O diagnóstico feito por Trancoso garan-
tia que a passageira do bonde havia sido aprisionada nas ‘garras da bruxa horrenda
e bela’, a tísica. A doença de Koch fez com que o memorialista perdesse todo o
interesse pela companheira de viagem, e por isso a pretensa enferma deixou de povoar
as fantasias do burocrata.
A ânsia literária de dimensionar a condição tuberculosa impunha que não só o
pectário, mas também os seus parentes próximos fossem apresentados sob a pecha da
periculosidade e do desregramento. Idéia veladamente manifestada pela medicina, a
defesa da existência de estirpes condenadas pela Peste Branca foi amplamente vulgari-
zada pelos escritores brasileiros, motivando a sociedade a se afastar das famílias em
que houvesse casos da infecção.
Como exemplo, citam-se os conselhos emitidos por Otoniel Mota, um pastor
protestante que ocupou o cargo de professor do Departamento de Letras da Universi-
dade de São Paulo. Pai de uma tuberculosa e co-fundador de vários sanatórios protes-
tantes, mesmo assim o professor Mota escreveu textos nos quais pregava a proibição
de alianças entre famílias sadias e clãs assolados pela tísica, encobrindo-se sob o
pseudônimo Bar Joseph (1936).
Em um de seus romances, que contou com sucessivas edições patrocinadas
pela Igreja Protestante, o religioso colocou palavras de censura na boca de um de seus
personagens, motivando-o a denegrir a intenção de casamento entre um rapaz cuja
única mácula era ser sobrinho de um pectário e uma moça de estirpe sadia: “— Que
direitos tem um rapaz de exigir da mãe de familia que lhe dê para o tálamo um corpo
virginal quando ele só lhe pode oferecer em troco um corpo ascoroso, envilecido no
deboche, corroido de molestias repelentes?” (Joseph, 1936:178).
E, como os parentes da pretendida viam com simpatia o enlace, o autor, na mesma
página – como voz que paira sobre a trama –, pontificou: “E o mais triste é que bons pais
de familia (...) já tenham aceitado esta situação como normal, em vez de organizarem uma
liga de resistência moral que santificasse a familia em proveito da espécie”.


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A literatura que se definia como ‘realista’ conferia ao tuberculoso e aos seus
próximos as cores da morte e da exclusão. Qualquer outra versão sobre os doentes do
peito era considerada desproposital e falsa.
Por isso, quando o fimatoso Ribeiro Couto publicou, no ano de 1931, o romance
Cabocla, seu texto foi alvo de inúmeras críticas, não pela qualidade da narrativa, mas
sim pelo fato do autor ter tratado do encontro de dois tísicos destituídos de estigmas e
que, apaixonados, encontram a ambicionada cura. Para os analistas do período, a recu-
peração da saúde e a felicidade não rimavam com a vida infectada.
Nas cogitações ficcionais, a figura do tuberculoso tinha se confundido com os
produtos negativos da sociedade moderna, fazendo do verbo ‘entisicar’ um indicativo
do que favorecia o nojo, a decadência espiritual e corporal e, por fim, a morte. A metá-
fora estava pronta para ser empregada sem qualquer reticência.
O desconhecido cronista Romeu de Avellar (1932), por exemplo, não poupou
esforços para, ao avaliar tudo o que procedia de Minas Gerais, como sendo coisas e
pessoas ‘entisicadas’, pois filhos da ‘bruxa chupada’ que simbolizava a ‘terra tuberculosa
dos mineiros’.
Contando com maior popularidade e aceitação que a medicina educadora, a
literatura deixou-se entusiasmar pelo enredo tuberculoso, ganhando relativa autono-
mia frente ao que era ensinado pela clínica. Sob o compromisso de retratar as cenas que
se repetiam nas praças públicas e atrás das portas fechadas, os escritores brasileiros
deram corpo à tendência universal de estigmatizar as vítimas das doenças infecto-
contagiosas, isolando-as num plano em que os filhos da elite – bem mais do que os
trabalhadores pobres – perdiam-se no labirinto dos prazeres, pagando os vícios
prazerosos com a moeda da saúde.
Afastada dos retratos da miséria, a literatura burguesa produzida no Brasil pre-
feriu dedicar-se às especulações sobre os efeitos da tísica dentre os representantes das
classes mais abastadas da sociedade, pouco falando dos enfermos pobres e, neste
encaminhamento, divergindo das apregoações clínicas.
Dissecadora da ‘psicologia’ do consuntivo, a literatura mostrava-se agente
enriquecedor da tuberculofobia, constituindo-se em um dos mais ativos pólos
discriminadores dos enfraquecidos do peito, disseminando representações negativas
sobre os que tinham seus corpos e suas trajetórias sociais afetados pela tuberculose.



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